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Capítulo 1, 1-18: Tese: todas as coisas aspiram à contemplação.
Capítulo 1, 18 a capítulo 4: A natureza contempla.
Cap. 1, 18-2, 19. A natureza permanece imutável.
Cap. 2, 19-fim. A natureza, que é forma e razão, produz.
Cap. 3. A natureza produz porque contempla.
Cap. 4. A natureza em repouso.
Cap. 4, 1-14. A prosopopeia da natureza.
Cap. 4, 14-fim. A contemplação enfraquecida da natureza.
Capítulos 5 e 6: A alma inteira contempla.
Cap. 5, 1-17. A parte superior da alma contempla.
Cap. 5, 17-cap. 6. Todas as atividades da alma são contemplações.
Capítulo 7: Todas as realidades verdadeiras contemplam e são contemplações.
Capítulos 8 a 11: O Intelecto contempla o Um.
Cap. 8. O Intelecto é a primeira contemplação viva, desdobrada a partir do Um.
Cap. 9, 1-39. Como o Intelecto contempla.
Cap. 9, 39-cap. 10. O Um é princípio e potência de todas as coisas.
Cap. 11. O Intelecto deseja e alcança o Bem.
O objetivo deste livro é demonstrar que toda produção, toda ação pressupõe um pensamento. Para produzir, a Natureza contempla as razões seminais contidas na Alma universal, a Alma universal contempla as ideias da Inteligência, e a Inteligência contempla o poder do Um.
(I-III) Para produzir, a Natureza necessita apenas da matéria que recebe a forma. Assim que possui a matéria, ela lhe dá a forma sem o auxílio de nenhum instrumento, porque é um poder que move sem ser movido, ou seja, uma razão seminal. Sendo uma razão, a Natureza é uma contemplação. Sem dúvida, ela não se contempla a si mesma e não delibera; sua ação não deixa de ser uma contemplação, porque realiza um pensamento. Apenas, a contemplação silenciosa e calma que é própria da Natureza é inferior ao pensamento do qual ela procede e que ela realiza: pois a ação implica sempre fraqueza de inteligência.
(IV) Situada acima da Natureza, a Alma universal, por sua parte superior, contempla a Inteligência divina e, por sua parte inferior, engendra um ato que é a imagem de sua contemplação; mas, nessa processão, a contemplação que é gerada é necessariamente inferior àquela que a engendra.
(V) Toda ação tem por origem e por fim sua contemplação. A gente sempre age com vistas ao bem, quer possuí-lo, o que remete a ação à contemplação. Quanto mais se tem a confiança de possuir o bem, mais tranquila é a contemplação, mais ela se aproxima do ato em que a contemplação e o objeto contemplado são uma única e mesma coisa.
(VI) Tanto no mundo sensível quanto no mundo inteligível, tudo deriva da contemplação, tudo aspira a ela. Se os animais geram, é porque uma razão seminal age neles e os impele a realizar um pensamento, dando forma à matéria. As falhas da obra decorrem da imperfeição da contemplação.
(VII) Visto que a contemplação se eleva por degraus, da Natureza à Alma, da Alma à Inteligência, há tantas espécies de vida quantas as espécies de pensamento. O pensamento e a vida identificam-se cada vez mais à medida que se aproximam do Um e do Bem, que é o seu princípio comum. A Vida suprema é a Inteligência suprema, na qual a intelecção e o inteligível são uma e a mesma coisa.
(VIII-X[9]) Como a inteligência e o inteligível, embora sejam idênticos na existência, formam, no entanto, dois termos para o pensamento, eles pressupõem acima deles um princípio absolutamente simples, o Um, o Bem, que é superior à Inteligência, e que não conhecemos pelo pensamento, mas por meio do que recebemos dele ao participar dele. Esse princípio não é todas as coisas, ele está acima de todas as coisas: é a fonte de todos os seres, a raiz dessa grande árvore que é o universo. Cada coisa tem por princípio uma unidade mais ou menos simples: subindo de unidade em unidade, chega-se a uma unidade absolutamente simples, além da qual não há mais nada a buscar, porque ela é o princípio, a fonte e a potência de tudo. Ela só pode ser compreendida por uma intuição absolutamente simples. Sua grandeza se manifesta pelos seres que dela procedem; é dela que a Inteligência retira sua plenitude.
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I. TESE. — Todos os seres, de diversas maneiras e em diversos graus, aspiram à contemplação, e todas as ações se empenham por ela (1, 1-18).
II. A NATUREZA (1, 18-4, 47).
1. Problema: como pode a atividade produtiva da terra ser contemplativa? Como pode a Natureza ser contemplativa, se carece de razão e de imaginação? (1, 18-24).
2. A Natureza é uma «Razão» imóvel e fecunda (cap. 2).
a) Ela cria sem órgãos nem instrumentos; mas mesmo nos artesãos há um princípio imóvel; a fortiori na Natureza (2, 1-19).
b) É forma pura sem matéria e totalmente imóvel; é uma «Razão» viva e produtora de outra «razão» irmã, conformadora do substrato, mas já estéril (2, 19-54).
3. A Natureza é contemplação e objeto de contemplação (cap. 3):
a) É uma «Razão» que permanece em si mesma e não é ação; logo, é contemplação (3, 1-6).
b) É uma «Razão» intermediária entre a «razão» ínfima, contemplada mas não contemplativa, e a da alma superior (3, 7-10).
c) Não é uma «Razão» discursiva, mas contemplativo-produtiva: produz porque contempla e sua produção é contemplação (3, 10-23).
4. A Natureza produz contemplando (cap. 4):
a) Pergunta: por que motivo a Natureza cria? (4, 1-2).
b) Resposta da própria Natureza: contemplando silenciosamente, crio espontaneamente meu próprio espetáculo; minha natureza contemplativa me vem por herança (4, 3-14).
c) Explicação: é uma contemplação natural e hereditária, mas desvanecida, como uma espécie de devaneio (4, 14-31).
d)Tanto a ação prática quanto a produção artesanal são meros substitutos da contemplação (4, 31-47).
III. A ALMA SUPERIOR (capítulos 5-6).
1. Contemplação fecunda: a Alma superior é fecundada pela contemplação e, transformada em espetáculo, produz um novo espetáculo, como fazem as artes (5, 1-9).
2. Níveis de vida: na Alma superior há uma parte que permanece e outra — vida da vida — que avança como uma atividade contínua que se degrada progressivamente (5, 9-25).
3. A contemplação ocorre em todos os níveis da Alma sem descontinuidade, embora não em todos os níveis da mesma forma (5, 25-37).
4. Ação e contemplação: a ação é uma contemplação indireta, em contraste com a contemplação da alma perfeita, na qual sujeito e objeto se unem intimamente (6, 1-19).
5. Contemplação e raciocínio: o intelecto da alma humana oscila entre a contemplação intuitiva, pela intimidade do sujeito com o objeto, e o raciocínio discursivo, no qual sujeito e objeto voltam a se desdobrar e se separar (6, 19-40).
IV. RECAPITULAÇÃO. — Conclusões obtidas ao longo dos capítulos 2-6 (cap. 7).
V. A INTELIGÊNCIA (cap. 8).
1. Contemplação viva: na Inteligência, o contemplante e o contemplado unificam-se não por intimidade, como na Alma, mas por essência (8, 1-16).
2. Inteligência primeira e Vida primeira: toda vida é intelecção de primeiro, segundo, terceiro ou quarto grau, em correspondência com o grau de vida; a Inteligência é ambas as coisas em grau supremo (8, 16-30).
3. Inteligência universal: a Inteligência, além de unidual, é unimúltipla, como um círculo, porque não vê o Um como Um, mas pluralizado, e porque é a Inteligência universal intelectiva de todas as coisas (8, 30-42).
4. Infinita: não é um conglomerado de partes, pois nela cada parte é onintelectiva, assim como o todo (8, 42-48).
VI. O UM-BEM (cap. 9-11).
1. Como princípio onitranscendente (cap. 9):
a) Anterior à dualidade inteligência-inteligível como princípio de ambas as coisas (9, 1-13).
b) Compreensível pelo que há em nós de semelhante a ele, isto é, por meio de uma inteligência supra-intelectiva (9, 13-32).
c) Não é todas as coisas nem coletiva nem distributivamente, mas anterior a todas como princípio de todas (9, 32-54).
2. Como Um absoluto (cap. 10):
a) Princípio imóvel e indivisível de uma vida múltipla. Analogias da fonte e da árvore (10, 1-19).
b) Último termo da redução à unidade: é o Um sem mais, mas não o nada, sim um Um real e onifundante (10, 20-35).
3. Como Bem absoluto (cap. 11):
a) A Inteligência consiste em Matéria e Forma inteligíveis; sua bondade provém do Bem absoluto; da qualidade da impressão deve-se deduzir a qualidade do modelo (11, 1-26).
b) Se o universo inteligível é tão belo, como será seu Criador e Pai, que é anterior ao Intelecto-Saturação? (11, 26-45).
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Vamos refletir sobre a ideia de que todas as coisas contemplam, até mesmo as plantas e a terra da qual elas crescem (cap. 1). Como a Natureza cria as coisas e como a contemplação está na base dessa criação (cap. 2-3). Plotino faz a Natureza falar e comenta o que ela diz, mostrando como sua contemplação onírica é a última e a mais fraca, e como a contemplação fraca leva à ação (cap. 4). Contemplação, ação e produção no nível da Alma e na vida humana (cap. 5-6). A contemplação é sempre o objetivo da ação (cap. 7). A identidade perfeita entre contemplação e objeto contemplado no Intelecto; toda a vida é uma espécie de pensamento e a vida mais verdadeira é o pensamento mais verdadeiro, o do Intelecto (cap. 8). Por que o Intelecto é múltiplo e não único, e, sendo múltiplo, não pode ser o primeiro, mas deve ter algo além dele, o Bem absolutamente simples, que conhecemos pela consciência imediata de sua presença para conosco (capítulos 8-9). O Bem é o único poder produtivo de todas as coisas (capítulo 10). O Intelecto precisa do Bem, sempre desejando-o e sempre alcançando-o; mas o Bem não precisa de nada (capítulo 11).
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§1. Suponhamos, de forma lúdica, que todas as coisas contemplam.
§2. No nível mais baixo, a natureza, como um artesão, trabalha a matéria por meio de sua contemplação e do princípio expresso.
§3. A contemplação da natureza produz sem ser ela própria afetada.
§4. A natureza diria que seu produto flui de sua contemplação, assim como fluiu de seu produtor. Sua contemplação é apenas uma imagem de uma forma superior de contemplação e seu produto, um subproduto.
§5. Contemplação no nível da alma.
§6. A ação também leva à contemplação.
§7. A contemplação no nível do Ser produz princípios contemplativos ativos e expressos que dão forma em todos os níveis. O fracasso se deve ao enfraquecimento progressivo da contemplação.
§8. No Intelecto, a contemplação é idêntica ao objeto da contemplação. É a vida primária e toda a vida em todos os níveis é contemplativa.
§9. O Intelecto não é o primeiro. O Um, o Bem, está além dele. Podemos ter acesso até mesmo a isso.
§10. O Um não é tudo, mas é o poder produtivo e a fonte de tudo.
§11. O Intelecto precisa do Bem, mas o Bem não precisa de nada.