Ariston[2] atribui à alma uma faculdade perceptiva (ἀντιληπτιϰὴ δύναμις), que divide em duas partes. Segundo ele, a primeira, chamada de Sensibilidade (αἰσθητιϰὸν μέρος), princípio e origem das sensações, é normalmente ativada por um dos órgãos dos sentidos; a segunda, que subsiste por si mesma e sem os órgãos, não possui nome específico nos seres desprovidos de razão, seres nos quais ela não se manifesta ou, pelo menos, se manifesta apenas de forma fraca e obscura; ela é chamada de Inteligência (νοῦς) nos seres dotados de razão, nos quais apenas ela aparece claramente. Aristóteles diz que a Sensibilidade só age com a ajuda dos órgãos e que a inteligência não precisa deles para se exercer. Por que, então, ele as relaciona ambas a um mesmo gênero, a Faculdade perceptiva? Ambas percebem, sem dúvida, mas uma percebe a forma sensível dos seres, e a outra percebe sua essência. De fato, a Sensibilidade não percebe a essência, mas a forma sensível e a figura; é a inteligência que percebe que o objeto é um homem ou um cavalo. Há, portanto, dois tipos de percepção bem diferentes um do outro: a percepção sensível recebe uma impressão e se aplica a um objeto externo; a percepção intelectual, ao contrário, não recebe impressão[3].
Houve filósofos que separavam essas duas partes: chamavam de Inteligência (νοῦς) e Razão discursiva (διάνοια)[4]; o Entendimento (τὸ διεξοδιϰόν), que se exerce sem a imaginação e sem a sensação; e Opinião[5], o Entendimento que se exerce com a imaginação e a sensação. Outros, ao contrário, consideravam a essência racional (λογιϰὴ οὐσία) como uma essência simples e atribuíam-lhe operações cuja natureza é completamente diferente. Ora, não é razoável atribuir à mesma essência faculdades que diferem completamente em sua natureza: pois o pensamento e a sensação não podem ter a mesma essência como princípio e, se se desse o nome de percepção à operação da Inteligência, não se estaria fazendo senão enunciar termos equivalentes. É preciso, portanto, estabelecer entre essas duas coisas, a Inteligência e a Sensibilidade, uma separação bem definida. Por um lado, a Inteligência (νοῦς) possui uma natureza muito especial, assim como a Razão discursiva (διάνοια), que está abaixo dela: têm como funções, uma, o pensamento intuitivo (ἡ ἀθρόα ἐνεργία), a outra, o pensamento discursivo (ἡ ἐν διεξόδῳ ἐνεργία). Por outro lado, a Sensibilidade (ἡ αἰσθητιϰὴ δύναμις) difere completamente da Inteligência; ela se exerce com os órgãos ou sem a participação destes: no primeiro caso, denomina-se sensação (τὸ αἰσθητιϰόν); no segundo, imaginação (τὸ φανταστιϰόν); no entanto, a sensação e a imaginação pertencem ao mesmo gênero. No Entendimento, a Inteligência intuitiva é superior à Opinião (τὸ δοξαστιϰὸν), que se aplica à sensação ou à imaginação; esse segundo tipo de pensamento, quer se lhe chame pensamento discursivo ou se lhe dê outro nome [como o de opinião], é superior à sensação e à imaginação, mas inferior ao pensamento intuitivo[6].