Capítulo 21. Atributos divinos extraídos da República. 3b.
Verdade dos deuses.
Ultrapassando a verdade que está nas palavras, nas almas e nos intelectos, a verdade dos deuses é uma coincidência total entre o sujeito e o objeto. É por isso que os deuses têm um conhecimento imediato do universal e do particular, e até mesmo da matéria (p. 97.11 - 98.12).
Alguns platônicos atribuíram ao intelecto o conhecimento de todas as coisas: mas isso equivaleria a identificar em Deus o conhecimento e a inteleção; o que é impossível, pois isso limita o conhecimento dos deuses, já que apenas um é coextensivo a todas as coisas (p. 98.13-99.3).
É a verdade divina que se expressa nos oráculos. Se os oráculos às vezes se enganam, esses erros devem ser atribuídos a fatores humanos ou às condições da comunicação oracular (p. 99.4-100.3).
Por fim, a verdade dos deuses os une entre si e os reúne ao primeiro deus, o Um, fonte de todos os bens (p. 100.4-15).
Para nós, porém, ao discutirmos o que diz respeito a toda natureza divina, o que afirmamos será conhecido a partir das verdades comumente aceitas apresentadas no Fedro, e que já mencionamos anteriormente. Sócrates, portanto, diz que tudo o que é divino é belo, sábio e bom, e indica que essa tríade permeia todas as progressões dos deuses. O que é, então, a bondade, a sabedoria e a beleza dos deuses?
Com relação à bondade dos deuses, portanto, observamos anteriormente que ela preserva e dá subsistência a todas as coisas, que existe em toda parte como o ápice, como aquilo que preenche as naturezas subordinadas e como pré-existente em toda ordem análoga ao primeiro princípio das ordens divinas. Pois, de acordo com isso, todos os deuses estão unidos à única causa de todas as coisas e, por causa disso, derivam principalmente sua subsistência como deuses. Pois em todos os seres não há nada mais perfeito do que o bem e os deuses. Portanto, aos seres mais excelentes, que são perfeitos em todos os aspectos, adapta-se o melhor e o mais perfeito das coisas.