BRUN, Jean. Platão. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985.
A construção do mundo e os mitos cosmológicos em Platão
A cosmologia platônica é apresentada como um discurso racional-mítico que visa tornar inteligível a gênese do mundo sensível a partir de um princípio inteligível, sem reduzir essa gênese nem a uma criação arbitrária nem a um processo puramente mecânico.
O Timeu é concebido como um relato verossímil, não como ciência demonstrativa, pois trata do devir e não do ser plenamente estável.
A qualificação do diálogo como «romance físico» indica que o discurso cosmológico opera numa zona intermediária entre o logos rigoroso e a narrativa simbólica.
A presença de motivos pitagóricos não deve ser entendida como plágio, mas como integração filosófica de uma tradição matemática e harmônica numa ontologia do devir.
O mundo é construído segundo um modelo inteligível eterno, o qual permanece absolutamente idêntico a si mesmo e não está sujeito ao tempo.
Esse modelo corresponde ao vivo em si, isto é, ao conjunto das ideias enquanto totalidade ordenada.
O mundo sensível não é senão uma cópia, marcada estruturalmente pela instabilidade, pelo devir e pela imperfeição.
A diferença entre modelo e cópia funda a distinção ontológica entre ser e vir-a-ser.
A intervenção do Demiurgo não é arbitrária, mas orientada por uma intenção normativa do bem.
O Demiurgo não cria ex nihilo, mas ordena uma matéria prévia segundo o paradigma inteligível.
A finalidade da obra é a realização do máximo de beleza e bondade possíveis no domínio do devir.
A noção de providência exprime a racionalidade finalista inscrita na estrutura do cosmos.
O mundo é concebido como um vivente dotado de alma, o que implica a rejeição de uma concepção mecanicista da natureza.
A Alma do mundo é constituída pela mistura do Mesmo e do Outro, mediada por uma terceira substância.
Essa mistura exprime a articulação entre identidade inteligível e alteridade sensível.
A divisão da alma segundo proporções geométricas pitagóricas introduz a ordem matemática no cosmos.
A Alma do mundo ocupa uma posição ontológica central e abrangente.
Ela é colocada no centro do corpo do mundo e estende-se por toda a sua extensão.
Sua função é garantir a inteligibilidade dos movimentos cósmicos.
O cosmos torna-se assim um todo animado, inteligível e ordenado.
A classificação das espécies de vivos exprime uma hierarquia ontológica fundada na participação no princípio racional.
Os deuses celestes, moldados no fogo, seguem o movimento do Mesmo e incarnam a regularidade.
Os deuses tradicionais são integrados como figuras simbólicas.
As demais espécies ocupam os domínios do ar, da água e da terra, segundo graus decrescentes de racionalidade manifesta.
O homem ocupa uma posição intermediária na hierarquia dos vivos.
Sua alma é uma parcela da Alma do Todo, o que fundamenta sua capacidade racional.
As almas são semeadas nos astros segundo uma ordem temporal.
O corpo humano é composto pelos quatro elementos, o que o submete ao devir e à corrupção.
Ao lado do modelo inteligível e da cópia sensível, Platão introduz um terceiro gênero, o receptáculo ou chora.
A chora não é nem ser nem devir, mas condição de possibilidade de ambos.
Ela é designada por metáforas maternas e espaciais, indicando acolhimento e indeterminação.
Sua obscuridade conceitual decorre de sua posição liminar na ontologia platônica.
A chora não deve ser confundida com a extensão geométrica moderna.
Ela designa o «em que» as coisas aparecem separadas.
A proximidade etimológica entre chora e choris sugere uma função de separação e espaçamento.
O espaço é pensado como condição dinâmica da diferenciação sensível, não como magnitude mensurável.
O tempo é definido como imagem móvel da eternidade.
Ele não possui autonomia ontológica.
Sua função é imitar, no devir, a estabilidade do modelo eterno.
O tempo introduz a sucessão, o nascimento e a corrupção no domínio sensível.
A eternidade é o modo próprio de ser das ideias.
Apenas o paradigma pode ser dito propriamente «é».
O passado e o futuro pertencem exclusivamente ao domínio do devir.
O tempo é constituído como ordem circular numérica que reflete imperfeitamente a eternidade.
A estrutura da terra e o destino das almas
O mito geográfico do Fédon articula cosmologia, ética e escatologia numa única construção simbólica.
A estrutura do cosmos serve de suporte à justiça moral.
A sobrevivência da alma é condição da retribuição ética.
A topologia do além traduz a hierarquia dos modos de vida.
A terra visível não coincide com a totalidade da terra.
Existem três terras concêntricas, hierarquizadas ontologicamente.
A nossa terra é uma região degradada e rebaixada.
A ignorância humana é figurada pela metáfora do fundo do mar.
A terra superior é apresentada como paradigma do mundo sensível.
Ela é pura, luminosa e incorruptível.
Os homens que nela habitam vivem sem doenças e em comunicação direta com os deuses.
O éter substitui o ar como meio vital.
A terra inferior corresponde ao domínio invisível da expiação.
Ela é atravessada por rios simbólicos que estruturam o julgamento das almas.
O Tártaro funciona como centro punitivo.
O além é organizado segundo uma justiça proporcional.
As almas são distribuídas segundo quatro tipos fundamentais.
Os filósofos alcançam uma existência incorporal junto aos deuses.
As almas mistas passam por purificação antes de reencarnar.
As almas dominadas pela cólera sofrem penas condicionais.
As almas incuráveis são condenadas definitivamente.
O mito do Político
O mito do Político articula um modelo cosmológico e um modelo antropológico.
O movimento do mundo alterna entre direção divina e abandono.
A rotação inversa simboliza a instabilidade do devir.
O mito é apresentado como jogo, mas cumpre função conceitual rigorosa.
A alternância dos ciclos cósmicos funda duas idades do mundo.
Na idade de Crono, o mundo é governado diretamente por Deus.
A geração ocorre por rejuvenescimento e nascimento da terra.
O homem vive sem trabalho nem sofrimento.
Na idade de Zeus, o mundo é entregue a si mesmo.
O tempo passa a operar do nascimento ao envelhecimento.
O trabalho e a técnica tornam-se necessários.
A cultura aparece como compensação da perda da tutela divina.
O mito da Atlântida
O mito da Atlântida não possui função geográfica, mas simbólica.
Ele tematiza a perda de uma ordem originária.
As catástrofes naturais figuram rupturas ontológicas e políticas.
A decadência do mundo sensível é pensada como esquecimento.
Atenas primitiva é apresentada como cidade paradigmática.
Ela é guiada diretamente pelos deuses.
A sabedoria política coincide com a ordem cósmica.
A decadência posterior exprime o afastamento do princípio.
A perda da pátria originária simboliza a condição humana.
O homem vive como exilado de sua verdade.
O esquecimento funda a ignorância.
A maiêutica socrática visa reconduzir à origem.
Aprender é recordar porque a verdade não é produzida, mas reencontrada.