Mitos platônicos (Gorri)

Antonio Alegre Gorri, prólogo em PLATÓN. Diálogos I. Apología de Sócrates — Critón — Eutifrón — Ion — Lisis — Cármides — Hipias Menor — Hipias Mayor — LaquesProtágorasGorgiasMenéxenoEutidemo — Menón — CrátiloFedónBanqueteFedro. AA. VV. Madrid: Gredos, 2019.

O Sócrates de Platão é um excelente narrador de mitos, como sabe qualquer leitor de seus longos diálogos. Os mitos não só são numerosos e variados, mas também se destacam na obra platônica por sua força poética e plástica e seu poder de sedução. Qualquer leitor do Fédon, do Banquete, do Fedro, da República, do Timeu e de outros diálogos lembra-se sempre desses mitos que Sócrates introduz com habilidade nas conversas e que parecem abrir janelas fantásticas para um horizonte que o raciocínio não consegue afirmar. E essa é uma característica peculiar e não pouco surpreendente em um filósofo que tem como método a análise crítica de qualquer crença ou opinião. Agora, como Platão, um filósofo que conhece bem o racionalismo da ilustração sofística e é discípulo do cético Sócrates, recorre a relatos míticos para apoiar sua teoria filosófica, sendo que o raciocínio filosófico parece desprezar o mito e rejeitar, por sua própria essência e desde suas origens pré-socráticas, o modo de explicação dos mitos? Por que Platão coloca na boca de Sócrates, em determinados momentos, esses relatos e assim convoca aqui e ali o encanto misterioso e arcaico dos mitos? Ele o faz, muitas vezes, com certa cautela, advertindo que o mito lhe chegou de outra pessoa, às vezes um tanto misteriosa, como a sacerdotisa Diotima (no discurso sobre o amor no Banquete) ou o engenhoso Aristófanes (no mesmo diálogo), ou ainda como uma crença popular, como um “conto de velhas”, como Sócrates apresenta a Calicles no Gorgias.

De qualquer forma, percebemos que Platão não relata os mitos tradicionais sem mais nem menos, mas inventa ou recompone seus mitos. Às vezes, sobre um esquema antigo, mas com retoques oportunos. É o que acontece com o mito da viagem da alma ao outro mundo, após sua separação do corpo na morte, que encontramos em três diálogos — Gorgias, Fedão e República. A narrativa mítica do destino da alma no Hades tem um fundo arcaico; mas Platão dá um novo ênfase ao insistir na recompensa ou punição que a espera no além. Não é uma característica totalmente nova, mas tem um tom moral muito característico do enquadramento platônico. Outros relatos que costumamos chamar de “mitos” são mais alegorias, como é o caso do famoso mito da caverna (na República) ou a “viagem celeste da carruagem alada” no Fedro. Alguns parecem ter sido inventados por Platão — como o mito do nascimento de Eros no Banquete, que Sócrates atribui à sacerdotisa Diotima. Outros modificam um mito antigo, como o de Prometeu, contado por Protágoras no diálogo de seu nome, ou o impressionante relato sobre a Atlântida do Crítias. Não vamos nos deter agora para distinguir seus tipos. De todo modo, Platão usa os mitos para avançar além das fronteiras do sóbrio logos. Seus mitos têm um valor funcional, um valor didático, são instrumentos de sedução, e acreditar neles é um “belo risco”, como diz Sócrates em certa ocasião.

O mito não é, por si só, um discurso verificável, mas um relato do qual não se pode dar conta e razão, no sentido da frase grega lógon didónai. Ele se confronta com o logos e, no tribunal da verdade empírica, é condenado. A filosofia, como a história, surge na Grécia como um conhecimento acreditado pela experiência e pela argumentação racional, prescindindo do “repertório mítico”, arcaico e fabuloso. Platão recupera, então, de maneira original, o mythos desprezado pela tradição filosófica e o manipula a serviço de suas próprias ideias. É um instrumento didático e um meio atraente de persuasão, que apela à imaginação e a imagens simbólicas de poderoso encanto. O mesmo filósofo que na República condena os poetas épicos e trágicos, os tradicionais educadores do povo helênico, por razões morais, e os expulsa de sua cidade ideal por relembrar os mitos sobre os deuses gregos, enganadores e escandalosos, acaba sendo, por sua vez, um fascinante inventor de mitos, um autêntico mythopoiós, que recolhe fragmentos e figuras do acervo tradicional para depois incorporá-los audaciosamente, habilmente recompostos, à sua doutrina política e ética.