V. Brochard, Études de Philosophie ancienne, Vrin, 1926
A questão do valor dos mitos impõe-se como problema preliminar para qualquer tentativa de acesso rigoroso à filosofia platônica.
A presença frequente de formas poéticas e alegóricas na exposição das doutrinas exige decidir se tais formas pertencem ou não ao núcleo filosófico.
A recorrência de ficções em quase todos os diálogos indica que a intervenção da imaginação não é episódica, mas estrutural.
A associação particularmente intensa entre mito e temas considerados essenciais, como Deus, alma e vida futura, revela uma tensão explícita entre a via mítica e o método ordinário da dialética.
A dificuldade interpretativa torna-se extrema quando certos diálogos parecem inteiramente constituídos por discurso mítico.
O Timeu é apresentado como caso exemplar por reunir extensão e centralidade temática, tratando da formação do mundo, da origem dos deuses e das almas.
A questão decisiva consiste em determinar se o mito deve ser eliminado como elemento extrínseco à filosofia ou se contém uma parcela de verdade integrável ao sistema.
A alternativa interpretativa divide-se entre uma exclusão radical do elemento mítico e uma inclusão qualificada cuja medida exige delimitação.
A interpretação que exclui o mito apoia-se numa concepção rigorosa do que deve ser a ciência e do contraste entre ciência e outros modos de afirmação.
A ciência tem por objeto o que não muda e permanece idêntico a si mesmo.
A razão, por intuição ou demonstração, é a única via de acesso a esse objeto.
A opinião é variável e mutável, e a verossimilhança possui graus, sendo por essência fugitiva e móvel.
A exclusão do mito parece corroborada pelo juízo platônico acerca dos poetas e da poesia.
A admiração pelos poetas coexiste com a desconfiança diante de suas invenções.
A poesia é considerada perigosa na medida em que produz ficções sedutoras.
A consequência pretendida consiste em negar que Platão pudesse sustentar seriamente, em forma poética, uma doutrina que desejasse defender como verdadeira.
O contexto cultural do recurso aos poetas é mobilizado para reforçar a hipótese de que o mito seria apenas jogo.
Era costume invocar Homero, Hesíodo e outros como autoridades normativas em qualquer ocasião.
Esses textos desempenhavam função análoga à de livros sagrados por constituírem quase o único repertório disponível.
O procedimento sofístico de comentar versos e extrair consequências inesperadas é descrito como prática dominante contra a qual a crítica platônica se dirige com energia.
A exclusão radical do mito é apresentada como coerente com a crítica platônica às divagações interpretativas dos contemporâneos.
A oposição constante de Platão às leituras arbitrárias da poesia sugere que a forma poética seria, por si, sinal de erro e falsidade.
A regra hermenêutica derivada dessa posição determina que somente o que é severamente demonstrado e rigorosamente estabelecido deve ser retido como filosófico.
A imaginação torna-se suspeita em qualquer ponto em que se manifeste.
A aplicação consequente dessa regra conduz a uma redução drástica do platonismo.
A teoria de Deus, a teoria da alma e a doutrina da imortalidade seriam mitos e, portanto, descartáveis.
A explicação do universo no Timeu não teria nada de propriamente platônico.
Restariam como elementos aceitáveis a teoria das Ideias e a teoria das Ideias-Números, com a vantagem de constituírem um núcleo sólido, demonstrado e livre de fantasia.
Essa interpretação, embora simples e plausível, é apresentada como insuficiente e merecedora de reservas explícitas.
A admissão de que certas teorias são míticas não implica que tudo o que é mítico seja, por isso mesmo, suspeito e rejeitável.
A dificuldade central desloca-se para a significação do termo mito e para a possibilidade de certos mitos exprimirem a intenção mais íntima do pensamento platônico.
A hipótese afirmada sustenta que grandes teorias míticas podem integrar o sistema no mesmo nível que a teoria das Ideias.
A eliminação das grandes teorias míticas produziria um resultado filosoficamente inverossímil.
A redução do platonismo à teoria das Ideias e das Ideias-Números aproximaria excessivamente Platão do eleatismo.
A renúncia a explicar mundo, alma e Deus contradiz a expectativa de que Platão extraísse consequências e aplicações de seus princípios.
A recepção aristotélica e antiga, que toma seriamente as teorias do Timeu, torna improvável que toda essa dimensão fosse mero divertimento.
A coexistência de crítica à poesia e produção reiterada de mitos exige uma explicação interna ao platonismo.
A abundância de mitos contrasta com a hipótese de uma hostilidade absoluta ao mito.
O tom grave e quase religioso de certos mitos, especialmente os escatológicos, indica que não se trata de simples entretenimento.
A presença de variações de detalhe entre diálogos não impede reconhecer uma tendência comum e uma mesma ideia fundamental mantida sob formas diversas.
O Timeu aparece como o problema decisivo para a avaliação do mito.
A forma do diálogo assume explicitamente o registro da verossimilhança, sem pretensão de verdade absoluta e definitiva.
A extensão do texto e o caráter de obra de maturidade sugerem resultados de investigações longas e pacientes, incompatíveis com a hipótese de badinagem.
A reivindicação de plausibilidade e o desafio implícito a explicações mais convincentes exprimem pretensão de ciência no interior do provável.
A seriedade com que Aristóteles discute o Timeu e a influência histórica do diálogo reforçam a tese de que ele foi tomado como obra científica.
A exigência de um vínculo entre a física do Timeu e a teoria das Ideias emerge como condição de inteligibilidade do diálogo.
A hipótese sustentada afirma que tal vínculo existe e pode ser mostrado.
A integração do mito ao sistema exige compreender sua função epistemológica, e não apenas sua forma literária.
A questão desloca-se para o estatuto da doxa e do conhecimento provável no interior da doutrina.
A teoria platônica do conhecimento inclui uma valorização estrutural da doxa, especialmente da doxa alēthēs ou orthē doxa.
A doxa é situada como intermediária entre ciência e ignorância, assim como o devir é intermediário entre ser e não-ser.
A doxa verdadeira é distinguida da falsa, e sua proximidade com a ciência é afirmada sempre que a ciência demonstrativa não pode ser alcançada.
A diferença entre doxa verdadeira e ciência é reconhecida, mas a doxa verdadeira é colocada imediatamente abaixo das ciências na hierarquia do bem.
A doxa verdadeira é apresentada como eficaz e útil, inclusive em termos práticos.
A comparação com estátuas de Dédalo indica sua instabilidade sem amarração racional.
Apesar disso, sua dignidade ultrapassa a sensação e permanece próxima da ciência.
A virtude é explicada como fundada na doxa verdadeira, e, no plano prático, a doxa verdadeira produz os mesmos resultados que a epistēmē.
A multiplicidade de vias para a doxa verdadeira amplia o campo da racionalidade platônica.
Inspiração poética, adivinhação, delírio profético e amor aparecem como meios de acesso a opiniões verdadeiras.
A participação de regiões inferiores do corpo em imagens do futuro indica que a vida divina pode ser tocada por graus, mesmo em níveis não superiores.
A apologia da doxa verdadeira por meio da reminiscência reforça a tese de que a ausência de demonstração não implica ausência de verdade.
A característica metodológica do platonismo consiste em multiplicar intermediários que asseguram continuidade entre níveis.
Os meios-termos permitem passagem contínua e abrangência total da doutrina.
A unidade desses intermediários é garantida por uma matemática interna de proporções.
A correspondência entre divisões do conhecimento e divisões do ser articula doxa e epistēmē ao par devir e ser.
A relação estrutural é fixada pela tese de que a doxa verdadeira é ciência do devir.
A inclusão da probabilidade no sistema decorre de exigências internas da distinção entre ser e devir e da definição platônica de ciência.
O devir, sendo mudança perpétua e absoluta, não pode ser objeto de ciência demonstrativa.
Se a filosofia se limitasse à ciência pura, teria de renunciar a dizer algo sobre homem, mundo, alma e deuses, recaindo numa fórmula estéril semelhante ao eleatismo.
Para evitar essa esterilidade, torna-se necessário um modo de conhecimento inferior, participando da mobilidade de seu objeto.
A colocação da doxa verdadeira ao lado da ciência repete, no plano epistemológico, a colocação do devir ao lado do ser.
A história da tradição filosófica confirma a presença de um probabilismo associado ao platonismo.
O abandono posterior da teoria das Ideias e da ciência teria deixado como remanescente apenas o probabilismo.
A reivindicação de filiação platônica por figuras como Arcésilas e Carnéade é apresentada como sinal dessa continuidade.
O probabilismo é tratado como componente sistêmico, não como degeneração externa.
A função do mito torna-se inteligível a partir dessa estrutura epistemológica.
O mito é definido como expressão da probabilidade.
A consequência é recusar a identificação do mito com simples jogo imaginativo.
O mito pode assumir função alegórica de tradução de doutrinas formuláveis em logos.
Exemplos de articulação entre mito e doutrina mostram a coexistência de ficção e razão.
O mito de Poros e Penia no Banquete exprime alegoricamente a tese de Éros como daimon intermediário.
No Timeu, ficções poéticas coexistem com raciocínios matemáticos, de modo que o verossímil é aproximado do logos.
A distinção entre inteligência e doxa verdadeira é explicitada por oposição entre ensino e persuasão, estabilidade e mobilidade, razão e ausência de razão.
O logos orthos é aproximado do eikos como tentativa de aproximar a explicação plausível do mundo dos princípios filosóficos.
O Timeu mostra uma estratégia sistemática de subordinação das causas secundárias às causas principais.
A necessidade e a matéria são levadas a submeter-se, por persuasão, às leis da inteligência.
O vínculo reiterado com a teoria das Ideias indica que o provável não é independente do inteligível.
A explicação científica e a exposição mítica unem-se sem confusão nem prejuízo recíproco.
O estatuto da crença no platonismo é apresentado como inverso do horizonte moderno.
A modernidade tende a reservar a crença aos objetos mais altos, onde a ciência positiva não alcança.
Em Platão, a ciência visa primeiramente as realidades supremas, e a crença aparece como diminuição gradual ao descer do ser ao devir.
A crença permanece próxima da ciência quando aplicada aos seres imortais, mas enfraquece ao aproximar-se do sensível e da matéria.
A matéria no Timeu é quase inapreensível e só é alcançada por um raciocínio bastardo, sendo apenas mogis piston.
Dessa inversão decorrem consequências hermenêuticas para a leitura dos mitos platônicos.
A crítica moderna teria sido precipitada ao descartar mitos como simples jogos.
Os mitos do Timeu deveriam ser tomados ao pé da letra no sentido de serem assumidos seriamente como discurso do provável.
A concordância de afirmações do Timeu com outros diálogos sugere coerência doutrinal sob variação formal.
A interpretação do mito no Timeu é aplicada ao problema da alma, onde a composição ideal é defendida como tese filosófica.
A alma humana é apresentada como composta de parte mortal e parte imortal, em acordo com outros lugares.
A parte racional ou imortal é descrita como composta do Mesmo, do Outro e de um intermediário que parece corresponder ao número.
A imagem da mistura não deve ser entendida como mistura corpórea, mas como mistura ideal, cujo sentido equivale à participação.
Um composto pode ser eterno se a síntese for bela e se tiver sido formado pela ação divina.
A composição da alma explica sua capacidade de conhecer tanto o idêntico, isto é, as Ideias, quanto o mutável, isto é, o mundo sensível, pela regra de que o semelhante conhece o semelhante.
A identidade substancial entre sujeito e objeto é usada como princípio explicativo da possibilidade do conhecimento.
A interpretação dos mitos do Timeu assume maior importância quando aplicada ao problema da divindade.
O demiurgo e a alma do mundo são apresentados como pertencendo ao domínio do devir, isto é, como submetidos a mudança e inferiores às Ideias.
A designação do demiurgo como o deus é mantida, e a transferência dessa designação para a Ideia do Bem é recusada por ausência de base textual.
A distinção entre o deus e a Ideia do Bem é reforçada pela imagem do deus contemplando as essências eternas situadas fora do céu, exo tou ouranou.
A consequência dessa leitura literal é a subordinação do deus às Ideias como modelos.
O deus fixa o olhar nos modelos inteligíveis, especialmente no auto zoon, do qual participa.
O deus é considerado inferior e derivado em relação ao inteligível supremo.
A relação é comparada à subordinação de Zeus ao fatum na religião grega, com a diferença de que o que domina o deus não é força cega, mas perfeição inteligível.
A possível identificação do demiurgo do Timeu com a causa do Philēbos reforça a tese da divindade como inteligência e alma, porém inferior ao Bem.
A causa é nomeada Zeus kai basilikos noûs.
A inteligência implica necessariamente uma psyche.
O noûs e a alētheia são posicionados abaixo de princípios como symmetria e kallos, e o Bem é apresentado como princípio que engendra noûs e alētheia.
A concordância entre o Timeu e diálogos considerados menos míticos é usada para sustentar a seriedade doutrinal do mito.
A conclusão geral fixa a integração do mito ao sistema como consequência da tentativa de explicar o mundo sensível e o devir.
A filosofia, ao descer ao domínio do devir, deve assumir a forma do provável.
O mito liga-se por sua raiz ao sistema e constitui parte integrante dele.
A imaginação e a conjectura, sustentadas e contidas pela razão e pela dialética, não são reprocháveis, pois mesmo a metodologia mais severa admite hipóteses e induções prováveis.