DROZ, Geneviève. Les mythes platoniciens. Paris: Éd. du Seuil, 1992.
O mito platônico não se deixa capturar por uma definição prévia e unívoca, pois não constitui um gênero fixo nem um procedimento homogêneo; sua identificação exige antes a enumeração de traços recorrentes que permitem reconhecê-lo em sua prática efetiva nos diálogos.
Essa ausência de definição rigorosa decorre do fato de que Platão não elabora uma teoria sistemática do mito, mas o utiliza de modo plural, flexível e funcional, adaptando-o às necessidades específicas de cada investigação filosófica.
O mito deve ser compreendido no interior da economia do diálogo, isto é, em sua articulação concreta com o discurso dialético, com as dificuldades do interlocutor e com os limites próprios do logos conceitual.
O primeiro traço distintivo do mito platônico consiste em sua forma narrativa fictícia.
O mito apresenta-se como um relato imaginado, que constrói uma situação e desenvolve uma história dotada de personagens, ações e encadeamento temporal.
Essas figuras podem ser divindades, heróis, almas, artesãos divinos ou viajantes do além, como Eros, Prometeu, Theuth, o demiurgo, ou a alma errante no Hades.
A estrutura narrativa aproxima o mito da fábula, da parábola e da alegoria, mas sem se confundir com a simples imagem, com a metáfora isolada ou com o paradigma conceitual.
Diferentemente da imagem pontual ou da analogia, o mito constitui uma totalidade narrativa dotada de coerência interna e de desenvolvimento próprio.
O segundo traço essencial do mito é sua ruptura com a demonstração dialética.
O mito intervém precisamente quando o discurso conceitual é interrompido, suspenso ou se revela insuficiente para apreender o objeto em questão.
Em lugar de um encadeamento dedutivo e argumentativo, o mito propõe um outro tipo de discurso, mais concreto, imagético e sugestivo.
Esse discurso não visa provar, mas mostrar; não pretende demonstrar, mas tornar pensável aquilo que resiste à conceitualização rigorosa.
O mito apela à imaginação mais do que ao raciocínio formal, e pode mobilizar tanto a sensibilidade estética quanto o sentimento religioso.
Essa substituição não é arbitrária, mas responde à natureza do objeto tratado, que frequentemente excede as capacidades do logos discursivo.
O mito surge, assim, como o único meio possível de falar de certos domínios fundamentais.
Ele permite abordar o mundo sensível em perpétuo devir, que escapa às determinações estáveis do conceito.
Torna possível tratar das grandes questões metafísicas, como o destino da alma antes e depois da vida corporal, a natureza do Bem ou a relação entre o divino e o humano.
O mito ocupa, portanto, uma região limítrofe entre o dizível e o indizível, entre o que pode ser conceituado e o que apenas pode ser figurado.
O terceiro traço define o mito não como método de acesso ao verdadeiro, mas como meio de exposição do verossímil.
O mito não se apresenta como discurso científico nem como descrição literal da realidade.
Ele propõe uma hipótese plausível, uma construção que sugere o provável sem reivindicar a verificação estrita.
Essa probabilidade não deve ser subestimada, pois, diante dos limites da razão humana, o verossímil pode constituir a melhor forma de orientação possível.
O mito pode suscitar uma adesão interior intensa, uma certeza prática ou existencial, especialmente nos mitos escatológicos, quando acompanhados pela fé.
O quarto traço fundamental do mito platônico é sua pretensão ao sentido, e não à verdade factual.
O mito não deve ser tomado ao pé da letra nem aceito como relato literal.
Ele possui um sentido oculto que exige interpretação, tradução e decifração.
Mesmo quando Platão fornece chaves interpretativas, como ocorre na alegoria, o mito permanece aberto a múltiplos níveis de significação.
Essa abertura impede que o mito seja esgotado por um único comentário ou por uma leitura definitiva.
O quinto traço do mito platônico consiste em sua dupla intenção pedagógica.
Em primeiro lugar, o mito auxilia o interlocutor em dificuldade, esclarecendo o que o discurso conceitual não conseguiu tornar acessível.
Ele serve de apoio à reflexão quando a discussão se perde, se esgota ou se torna estéril.
Nesse sentido, o mito funciona como intermediário propedêutico, preparando o espírito para uma compreensão mais elevada.
Em segundo lugar, o mito visa uma formação moral mais profunda, estimulando a coragem, a esperança e a disposição ética.
Ele não transmite apenas uma lição moral explícita, mas atua como fermento espiritual, transformando a atitude interior do ouvinte.
A superioridade do mito, nesse contexto, não reside em sua precisão teórica, mas em sua eficácia existencial.
O mito pode ser mais eficaz do que o discurso sofístico, que gera perplexidade e confusão, e até mesmo mais eficaz do que a demonstração dialética.
Ao dinamizar a busca, alimentar a esperança e sustentar a fé, o mito contribui de modo decisivo para o movimento da investigação filosófica.
Apesar disso, o gênero mítico permanece essencialmente indefinível.
Os critérios de identificação são incertos e as fronteiras entre as diversas formas de discurso imagético são fluídas.
Os mitos diferem quanto à sua origem, podendo ser adaptações de tradições antigas ou criações inteiramente novas.
Variam também quanto à extensão, desde narrativas breves até relatos que ocupam quase a totalidade de um diálogo.
Suas funções são múltiplas e não se deixam reduzir a um único esquema interpretativo.
As apreciações do mito platônico são historicamente divergentes.
Alguns o consideram uma simples fabulação ou um retorno a formas arcaicas de pensamento.
Outros o tratam como um recurso auxiliar, subordinado à filosofia propriamente dita.
Em contrapartida, uma leitura mais atenta revela o mito como mudança deliberada de regime discursivo, adotada quando a dialética encontra seus limites.
Nesse sentido, o mito expressa uma opção consciente por uma crença não demonstrável, mas justificada por sua fecundidade moral e pragmática.
Duas grandes concepções do mito podem ser destacadas.
O mito pode ser entendido como explicação simbólica do conhecido, mais acessível, sugestiva e pedagógica.
Ou pode ser compreendido como hipótese lançada sobre o desconhecido, suficientemente plausível para orientar o pensamento diante do obscuro.
Em ambos os casos, o mito não afirma o verdadeiro, mas oferece sentido, evocando e sugerindo mais do que afirmando.
A classificação dos mitos pode ser feita segundo sua forma e função.
Distinguem-se mitos alegóricos, mitos-conjetura e mitos-expressão de uma convicção.
Os mitos alegóricos auxiliam a compreensão e sugerem eficazmente.
Os mitos-conjetura substituem a dialética em domínios onde o conceitual falha, oferecendo hipóteses plausíveis.
Os mitos-expressão de convicção, especialmente os escatológicos, apresentam-se como crenças salutares, dignas de adesão interior.
Outra forma de classificação considera o conteúdo temático dos mitos.
Os relatos podem organizar-se em torno da condição humana, da libertação espiritual, do destino das almas e do devir do mundo.
Essa diversidade temática revela a amplitude do campo em que o mito platônico intervém.
O recurso ao mito não visa substituir o logos, mas completá-lo.
O mito permite expressar aquilo que não pode ser dito na linguagem estrita da racionalidade.
Ele ocupa o espaço intermediário entre o discurso conceitual e o indizível.
Platão não escolhe entre logos e mythos, mas reconhece sua complementaridade necessária.
O mito platônico constitui, assim, uma forma irredutível de expressão filosófica.
Ele não é ornamento poético nem regressão arcaica.
É a expressão do que está aquém e além da razão discursiva.
Nesse sentido pleno, Platão aparece indissociavelmente como filósofo e poeta, ou, segundo o sentido grego, como filósofo e músico.