Posídon

Junito Brandão

A etimologia do nome Posídon admite duas interpretações principais, sendo a mais aceita aquela que o deriva de termos que significam “senhor” e “terra”.

Posídon é o deus das águas, originalmente das subterrâneas, e obteve por sorte o domínio do mar quando o universo foi dividido entre os três grandes irmãos após a vitória sobre os Titãs.

A independência de Posídon manifestou-se numa conspiração contra Zeus, da qual participaram também Hera e Atená, frustrada pela intervenção do Hecatonquiro Briaréu, convocado por Tétis.

A recusa de Laomedonte em pagar o salário combinado gerou a vingança de Posídon, que suscitou um monstro marinho contra a Tróada e, na Guerra de Troia, alinhou-se ao lado dos aqueus.

Posídon casou-se com Anfitrite e reina no mar à maneira de um Zeus marinho, com o tridente como cetro e arma, habitando um palácio de ouro nas profundezas de Egas.

Nos próprios poemas homéricos sobrevivem vestígios de um Posídon mais antigo, essencialmente ctônio, revelado por epítetos que o designam como “sacudidor da terra”, apontando para uma ação exercida de baixo para cima por uma divindade subterrânea.

Os primeiros invasores gregos, por não conhecerem o mar e não possuírem vocábulo próprio para designá-lo, não poderiam ter trazido consigo um deus marinho, razão pela qual o Posídon original era um deus ctônio das águas subterrâneas.

O antigo deus ctônio tornou-se também “sacudidor do mar” e adquiriu o duplo privilégio de domador de cavalos e salvador de navios, sendo a ligação com o cavalo atribuída à sua natureza primitivamente subterrânea.

Posídon é o presenteador por excelência de cavalos portentosos, e vários heróis tidos por seus filhos foram amamentados por éguas.

A ligação entre Posídon e o touro é igualmente profunda, sendo o animal sua vítima sacrificial predileta, oferecido no altar ou precipitado vivo no mar.

Os filhos de Posídon, ao contrário dos de Zeus — heróis benfeitores —, eram em sua maioria gigantes terríveis e violentos, fruto de numerosas uniões do deus.

O mês ático Posídeon, consagrado ao deus e correspondente aproximadamente a dezembro, era o período das tempestades de inverno, pois Posídon é antes o deus do mar encapelado que o da bonança.

Nas disputas pelo domínio de cidades, Posídon quase sempre teve suas pretensões vencidas, perdendo para Hélio em Corinto, para Zeus em Egina, para Dioniso em Naxos, para Apolo em Delfos e para Atená em Trezena.

A Atlântida, dada a Posídon sem disputa como compensação pelas derrotas sofridas, tem seu nome ligado ao de Atlas, cujo vocábulo grego significa “aquele que sustém a abóbada celeste”.

Posídon apaixonou-se por Clito, jovem de extrema beleza que habitava a montanha central da Atlântida, cercou sua residência com muralhas e fossos e dela teve cinco pares de gêmeos, cujo primogênito, Atlas, tornou-se rei suserano da ilha dividida em dez reinos.

Diodoro Sículo apresenta uma variante significativa sobre a Atlântida, na qual a rainha amazona Mirina declara guerra aos atlantes que habitavam um país vizinho da Líbia, à beira do Oceano.

A Atlântida, seja qual for a origem do mito, permanece como símbolo de um paraíso perdido ou cidade ideal, projeção dos sonhos de Platão de uma perfeita organização político-social.