COUSIN: ARGUMENTO FILOSÓFICO DO CÁRMIDES

CHARMIDE, ou DE LA SAGESSE. traduction de Victor Cousin

ARGUMENT PHILOSOPHIQUE. (resumo)

* O exame da sabedoria ou sophrosyne no diálogo Cármides revela uma disparidade em relação ao Alcibíades que a crítica frequentemente interpreta como um argumento contra a autenticidade da primeira obra, embora tal contradição se mostre meramente superficial ao considerar que a definição de sabedoria como o ato de conhecer a si mesmo, dogmaticamente defendida no primeiro texto, não é refutada de forma sincera no segundo, servindo antes como um estratagema dialético de Sócrates para incutir modéstia e demonstrar que o interlocutor não possui segurança sobre o que é a sabedoria, configurando o Cármides como uma lição de dialética e humildade em que Platão adota um propósito puramente polêmico em vez de dogmático. * A refutação da primeira definição, que postula a sabedoria como a medida em todas as coisas e se aproxima do princípio fundamental da moral de Aristóteles, é operada por Sócrates através da identificação da medida com a lentidão, demonstrando que em múltiplos processos humanos, como o aprendizado ou a deliberação, a celeridade e a rapidez de decisão são preferíveis à lentidão, o que invalida a tese de que a sabedoria possa ser rigorosamente restrita à noção de medida; de forma análoga, a segunda definição, que identifica a sabedoria com a modéstia e o pudor, é rejeitada ao se evocar a autoridade de Homero, para quem a vergonha não convém ao homem necessitado, comprovando que existem circunstâncias legítimas em que os escrúpulos da honra devem ser preteridos em favor da ação necessária. * A terceira definição examinada estabelece que a sabedoria consiste em realizar o que é próprio ao indivíduo, máxima que seria posteriormente cara ao estoicismo, mas que Sócrates interpreta de forma materialista para demonstrar o absurdo de se exigir que cada homem produza suas próprias vestimentas ou limite suas ações estritamente a si mesmo sem relação com outrem; quando Crítias, ao suceder Cármides na discussão, tenta elevar a tese para o plano moral definindo a sabedoria como a prática do bem, Sócrates redireciona o argumento ao postular que o ato de fazer o bem exige a consciência de quem o faz, o que reconduz o debate à premissa de que ser sábio é, em última análise, conhecer a si mesmo, tornando esta a discussão central e mais complexa da obra. * Ao considerar a sabedoria como a ciência de si mesmo, Crítias é levado a admitir que tal faculdade constitui uma ciência da ciência e da ignorância, caracterizando-se por uma identidade absoluta entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido, o que Sócrates submete a um rigoroso escrutínio para provar a impossibilidade de uma ciência que não se reporte a algo distinto de si; através de analogias com a visão, que não pode ser vista em si mesma mas apenas apreender o visível, e com relações matemáticas onde um número não pode ser o dobro de si mesmo sem ser simultaneamente sua própria metade, demonstra-se que a hipótese de uma ciência das ciências que não percebesse os objetos das ciências particulares seria uma quimera contraditória e logicamente insustentável. * A investigação sobre a utilidade da sabedoria, entendida como ciência da ciência, revela que tal abstração seria estéril para a conduta da vida e para a administração do Estado, pois embora pareça útil distinguir o que se sabe do que se ignora, a sabedoria assim definida informaria apenas o fato genérico do saber e não os conteúdos particulares e determinados das artes, como a medicina ou a política; Sócrates assevera que a única ciência capaz de conferir felicidade e tirar proveito real de todos os outros conhecimentos é a ciência do bem e do mal, a qual é excluída da definição de sabedoria quando esta se encerra na ideia pura da ciência como tal, resultando na conclusão de que tal faculdade, se possível, permaneceria essencialmente inútil para o bem comum e para o sucesso da espécie humana. * O encerramento do diálogo conduz à aporia e ao reconhecimento, por parte de Cármides, da extrema dificuldade em se definir a virtude submetida a exame após a queda de quatro definições tão especiosas, culminando na sua submissão ao mestre para o aprendizado e a aquisição da verdadeira sabedoria; assim, a obra cumpre seu papel de demonstrar que a busca pela definição é um processo contínuo de depuração intelectual, onde o silenciamento das pretensões de saber abre caminho para a verdadeira investigação filosófica, permitindo a Sócrates desarmar as acusações de Meleto e preparar o terreno para a reflexão moral profunda que caracteriza o pensamento de Platão.