Identificação de Charmides e
Crítias: Charmides, filho de Gláucon, irmão de Perictione (mãe de
Platão), é um jovem notável por sua beleza, nascimento ilustre e dotes para a filosofia e poesia, que pereceu na guerra civil em 403 a.C. sob a tutela de seu primo
Crítias.
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Crítias, também parente de
Platão, é apresentado não apenas como político aristocrata, mas também como homem letrado, amigo dos sofistas e poeta.
Definição do termo grego “sophrosyne” e sua relação com Charmides: o termo grego “sophrosyne” (traduzido como “sabedoria”) designa um conjunto de qualidades intelectuais e morais ligadas ao equilíbrio da alma e ao autodomínio, sentido que difere do uso corrente em francês e se relaciona ao uso grego familiar.
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Charmides, sendo sophron, é examinado por Sócrates sobre a sophrosyne, revelando a diferença entre o bom senso instintivo e a ciência conforme entendida por Sócrates.
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A escolha de Charmides como exemplo de sophron por
Platão é justificada pela possibilidade de que reconhecesse nele virtudes privadas, à maneira de Tucídides ao elogiar Antífon, apesar de sua atuação no partido oligárquico.
Forma narrativa e composição do diálogo: o diálogo é narrado pelo próprio Sócrates a um ouvinte anônimo, forma narrativa que, embora criticada por
Platão no “
Teeteto”, é utilizada aqui com arte e vantagens.
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O diálogo inicia com um preâmbulo na palestra de Tauréas, que introduz os interlocutores em meio a jogos de cena.
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A discussão propriamente dita segue uma série de definições propostas e refutadas, cuja dialética abstrata se adapta à diversidade dos caracteres e os ilumina.
Progressão da discussão conforme os caracteres: Charmide oferece definições simples e cora, recorrendo posteriormente a uma definição de
Crítias; ao ser refutada, um olhar de Charmide convida
Crítias a defender-se.
Conclusão aparente e significado filosófico: o diálogo conclui-se com uma aparente negativa, pois não se define a sophrosyne, embora Sócrates afirme que Charmides a possui e que isso é um bem;
Crítias aconselha Charmides a não abandonar a companhia de Sócrates.
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A aparência negativa da conclusão não indica ceticismo, pois a filosofia de
Platão sustenta que a explicação última das coisas está na teoria das Ideias, e a certeza de Sócrates sobre a posse da sabedoria como causa da felicidade afasta qualquer suspeita de ceticismo.
Refutação de interpretação alternativa sobre a intenção do diálogo: rejeita-se a interpretação de que
Platão teria pretendido refutar o próprio Sócrates no “Charmides” ao combater o “conhece-te a ti mesmo” e a doutrina que reduz toda virtude à ciência.
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Tal interpretação exigiria demonstrar que a interpretação do “conhece-te a ti mesmo” no diálogo corresponde à do verdadeiro Sócrates e que a ciência à qual ele reduzia a virtude era a “ciência das ciências” tal como definida por
Crítias, demonstração ainda não feita.
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É mais provável que, ao fazer Sócrates falar,
Platão visasse completá-lo em vez de contradizê-lo, considerando sua própria filosofia como continuação legítima do pensamento socrático.
Estabelecimento do texto: a edição do texto baseia-se principalmente no manuscrito Bodleianus (B), cujas lições são corrigidas com auxílio do Venetus T e do Vindobonensis W, este último cuidadosamente colacionado.