A temperança (sophrosyne) é um conceito grego central no Cármides, sem equivalente único em português, abrangendo moderação, modéstia, discrição e sabedoria ao mesmo tempo.
A palavra pode ser descrita como mens sana in corpore sano, a harmonia entre os elementos superiores e inferiores da natureza humana.
Na filosofia de Platão, a sophrosyne conserva um elemento intelectual, como também atestou Xenofonte nas Memorabilia, onde Sócrates a identificava com a sophia.
Em Aristóteles (Ética a Nicômaco, livro III), a sophrosyne já foi relegada à esfera da virtude moral, perdendo esse caráter intelectual.
Cármides, interrogado por Sócrates sobre o que é a temperança, oferece três definições progressivamente mais elaboradas, todas rejeitadas.
A primeira definição de Cármides é a quietude, refutada porque a rapidez e a agilidade podem ser tão nobres quanto a calma.
A segunda definição é a modéstia, derrubada por uma aplicação sofística de Homero: a temperança é boa além de nobre, e Homero declarou que a modéstia não é boa para o homem necessitado.
A terceira definição – fazer o que é seu – é atribuída por Sócrates a Crítias como seu provável autor, e é refutada porque o artesão que faz o calçado de outro pode ser temperante sem fazer o que é seu.
Crítias substitui Cármides no diálogo e propõe uma quarta definição, distinguindo fazer de agir com base em Hesíodo.
Crítias diferencia os termos gregos para fazer, agir e trabalhar, reservando ao trabalho e ao agir um sentido exclusivamente bom.
A definição resultante é que a temperança consiste em agir bem.
A quinta e sexta definições introduzem o elemento do conhecimento, culminando na ideia de temperança como ciência de si mesmo e do que se sabe e não se sabe.
Crítias, induzido por Sócrates, propõe que a temperança é o autoconhecimento.
Como toda ciência tem um objeto – a aritmética tem o número, a medicina tem a saúde –, questiona-se qual seria o objeto da temperança.
A sexta definição é que a temperança é o conhecimento do que se sabe e do que não se sabe.
A possibilidade de uma ciência da ciência é questionada por Sócrates com base na analogia das relações reflexivas.
Não há visão da visão, apenas de coisas visíveis; não há amor do amor, apenas de coisas belas.
O que é mais velho, mais pesado ou mais leve o é em relação a outra coisa, não em relação a si mesmo.
Mesmo que tal ciência reflexiva existisse, caberia ao grande metafísico determinar se o conhecimento do que se sabe implica necessariamente o conhecimento do que não se sabe.
Mesmo admitidas todas as concessões anteriores, uma ciência universal do conhecimento não produziria nenhum bem concreto, pois só o conhecimento do bem e do mal é capaz de gerar felicidade.
Crítias responde que a ciência do bem e do mal, assim como todas as demais ciências, seria regulada pela ciência superior do conhecimento.
Sócrates replica separando o abstrato do concreto e pergunta de que modo esse conhecimento conduz à felicidade da mesma maneira definida pela qual a medicina conduz à saúde.
A conclusão prática é que Cármides, por já ter descoberto a temperança, faria melhor em praticá-la do que se perder nas especulações de Sócrates.
O diálogo contém diversos elementos filosóficos e culturais de destaque que antecipam desenvolvimentos posteriores no pensamento de Platão.
O ideal grego da beleza e da bondade unidas – a bela alma no belo corpo – está realizado na figura de Cármides.
A medicina é concebida como ciência do todo e não apenas das partes, abrangendo a mente além do corpo, como sugerido na história do médico trácio.
A tendência da época às distinções verbais, atribuída a Pródico, e às interpretações paródicas de Homero e Hesíodo são características de Platão e de seus contemporâneos.
A noção de temperança como fazer o que é seu reaparece na República como definição de justiça, não de temperança.
A impaciência de Sócrates com qualquer definição de temperança que exclua o conhecimento percorre todo o diálogo.
Surgem aqui os primeiros esboços da metafísica e da lógica: a questão de se pode haver uma ciência da ciência, e a distinção entre o que se sabe e o fato de que se sabe algo (em grego, ha oiden e hoti oiden).
Platão já antecipa sua conclusão do Parmênides de que não pode haver uma ciência que seja ciência do nada.
A concepção de uma ciência do bem e do mal aparece aqui pela primeira vez, antecipando o Filebo e a República.
Cármides e Crítias são caracterizados de maneiras opostas, sem qualquer alusão às suas atuações históricas infames.
Cármides apresenta simplicidade e ingenuidade infantis, contrastando com os artifícios dialéticos e retóricos de Crítias.
Crítias é o homem de mundo com verniz filosófico, seguidor tanto de Sócrates quanto dos sofistas, e tem laços familiares com Sólon, como também aparece no Timeu.
O amor de Crítias pela reputação é descrito como tipicamente grego, contrastando com a humildade de Sócrates.
Segundo Xenofonte (Memorabilia, livro III), Cármides foi em certa época tão modesto que evitava falar na Assembleia – e tanto ele quanto Crítias viriam a se tornar dois dos trinta tiranos, embora nada disso transpareça no diálogo.
Cármides, com ingenuidade juvenil, frui a exposição de Crítias por Sócrates, percebendo que o guardião foi o verdadeiro autor da definição que tanto lhe interessa defender.
As definições de temperança progridem do popular ao filosófico, e nenhuma delas é mero jogo verbal.
As duas primeiras definições são simples e parcialmente verdadeiras, como os primeiros pensamentos de um jovem inteligente.
A terceira é uma contribuição real à filosofia ética, distorcida pela engenhosidade de Sócrates e mal resgatada por Crítias.
As definições restantes buscam introduzir o conhecimento e culminar na união de bem e verdade em uma ciência única – visão que não se realizará sob o nome de sophrosyne, mas no Filebo e na República.
Cármides já pratica a virtude do autoconhecimento que os filósofos tentam em vão definir com palavras – situação comparável à de um jovem perturbado por dificuldades teológicas a quem se diz: não se preocupe com essas questões, apenas leve uma vida boa.
O Cármides é situado entre os primeiros diálogos platônicos por razões de brevidade, caráter socrático e ausência de doutrinas maduras.
O Cármides, o Lisis e o Laquetes partilham brevidade, simplicidade e um papel central da juventude.
São diálogos de busca (peirastikai), sem conclusão, de caráter erístico ou socrático.
Neles estão ausentes noções caras a Platão como a doutrina da reminiscência, a teoria das ideias e a questão de se a virtude pode ser ensinada.
Têm uma beleza e graça juvenis que faltam aos diálogos dos períodos médio e tardio.
Nenhuma ordenação dos diálogos platônicos pode ser estritamente cronológica, sendo a ordem adotada destinada principalmente à conveniência do leitor.
A relação entre conhecimento e virtude atravessa outros diálogos platônicos, e a oposição entre conhecimento abstrato e particular no Cármides tem paralelos em obras posteriores.
As relações entre conhecimento e virtude reaparecem no Lisis, no Laquetes, no Protágoras e no Eutidemo.
A oposição entre conhecimento abstrato e particular no Cármides é comparável à oposição entre ideias e fenômenos nos prólogos do Parmênides, embora esta pareça pertencer a uma fase mais tardia da filosofia de Platão.