Sócrates, que na Apologia só conseguiu manter-se filósofo na condição de se separar da Constituição religiosa de Atenas, renasce e transforma-se, neste diálogo, por uma espécie de compensação, em um cidadão inflexível na obediência às leis da república. Submeter-se às leis é uma obrigação absoluta; é o dever. Esse é o objetivo deste diálogo.
Os amigos de Sócrates, depois de terem convencido o diretor da prisão onde ele aguardava o dia de sua morte, enviaram-lhe um deles, Critão, para que lhe suplicasse veementemente que salvasse sua vida fugindo.
Todas as razões que uma amizade ardente pode inspirar para abafar os escrúpulos de uma alma reta. Critão as invocou com a mais afetuosa insistência. Mas a terna solicitude que se destaca em sua linguagem disfarça, sem atenuá-la, a fraqueza dos motivos que comumente inspiram, em circunstâncias críticas, a probidade acomodatícia da plebe. Assim o compreendeu Sócrates. Aos lamentos de Critão, em razão da desonra e do desespero que amargavam seus amigos, e do destino reservado a seus filhos condenados à orfandade, ele opôs esta alternativa inevitável: a fuga é justa ou injusta? Pois é preciso decidir em todos os casos, não por razões de amizade, de interesse ou de opinião, mas por razões de justiça. Mas a justiça lhe proíbe fugir, porque seria desobedecer às leis, ato injusto em si mesmo, exemplo funesto para a boa ordem pública, ingratidão, [90] enfim, para com essas leis que presidiram, como mães e amas, ao seu nascimento, à sua juventude e à sua educação. Existe um compromisso tácito entre o cidadão e as leis; estas, ao protegê-lo, têm direito ao seu respeito. Ninguém ignora esse pacto; ninguém pode subtrair-se a ele; ninguém se livra, ao violá-lo, dos remorsos de sua consciência, qualquer que seja o desvio que tenha tomado para enganar a si mesmo.
Tal é a doutrina inflexível pela qual Sócrates, destruindo pedra por pedra o frágil edifício da moral de Critão, que é a moral do povo, prefere o cumprimento rigoroso de seu dever à sua saúde. Poderia ser de outra forma? Que contradição resultaria se o mesmo homem que antes, na praça pública, na presença de seus juízes, se alegrara com sua morte como o maior bem que lhe poderia acontecer, tivesse renegado, fugindo, essa coragem e essas sublimes esperanças do dia de seu julgamento! Sócrates, o mais sábio dos homens, se tornaria um covarde e um mau cidadão. O próprio Critão foi reduzido ao silêncio pela firme razão de seu mestre, que se despede dele com estas palavras admiráveis: «Sigamos o caminho que Deus nos traçou. Deus é o próprio dever, porque é sua origem: cumprir o dever é inspirar-se em Deus.»