65A-66A — Corpo só faz perturbar

Phédon, 65a-66a, trad. M. Dixsaut, GF-Flammarion, 1991, p. 214-216.

— Bem. E quando se trata de começar a pensar? O corpo constitui ou não um obstáculo quando, ao prosseguir uma investigação, nos ocorre associá-lo a ela? Quero dizer, mais ou menos isto: a visão, ou ainda a audição, representam para os homens alguma verdade? Ou, pelo menos, não será que acontece exatamente como os poetas não param de nos repetir: não ouvimos nada, não vemos nada com exatidão? Ora, se, entre as percepções do corpo, essas duas não são nem exatas nem claras, nem falemos das outras. Pois todas elas são, imagino, mais imperfeitas do que essas. Não é essa a sua opinião?

— Sim, com certeza, disse ele.

— Em que momento, então, disse Sócrates, a alma compreende a verdade? Pois, de fato, sempre que ela se serve do corpo para tentar examinar alguma coisa, é evidente que é totalmente enganada por ele.

— É verdade.

— Então? Não é no ato de raciocinar, e em nenhum outro lugar, que se manifesta para ela o que realmente é a coisa em questão?

— Sim.

— E, suponho, a mente raciocina mais perfeitamente quando não é perturbada nem pela audição, nem pela visão, nem pela dor, nem por qualquer prazer; quando, ao contrário, ela se concentra o máximo possível em si mesma e gentilmente manda o corpo passear; quando, rompendo tanto quanto é capaz de qualquer associação ou contato com ele, ela aspira ao que é? — Sim, é assim.

— E é, portanto, também nesses momentos que a alma do filósofo dá menos importância ao corpo, se afasta dele e procura concentrar-se em si mesma? — Sim. — Bem; e agora, Símias, ainda isto: afirmamos que existe algo de justo em si mesmo, ou negamos isso? — Por Zeus, certamente.

— E algo de belo, de bom…?

— Sem dúvida alguma.

— Na verdade, algo desse tipo, você já viu alguma vez, com seus próprios olhos?

— De forma alguma, disse ele.

— Mas essas coisas, então, você as captou por meio de uma percepção diferente daquelas que têm o corpo como instrumento? Refiro-me ao que, para cada coisa (por exemplo, a grandeza, a saúde, a força, enfim, todas as coisas sem exceção), constitui sua essência: o que cada uma é. É por meio do corpo que se considera o que há de mais verdadeiro nela? Não seria antes assim: aquele de nós que estiver melhor preparado, e com o maior cuidado pela precisão, para refletir sobre o que é, em si mesma, cada uma das realidades que examina, não estaria ele, então, no caminho certo e mais próximo de conhecer cada uma dessas realidades?

— Sim, absolutamente.

— É, portanto, ele quem conduziria essa atividade da maneira mais pura, recorrendo, tanto quanto possível, apenas à reflexão para se aproximar de cada realidade, sem, ao refletir, deixar que o que vê interfira, sem carregar consigo nenhuma sensação de qualquer tipo quando está raciocinando? (…)