8. Interlúdio (84b-85b)

PLATON. Phédon. Monique Dixsaut. Paris: GF-Flammarion, 1991.

Um longo silêncio de Sócrates, acompanhado pelos sussurros de Cebes e Símias, interrompe então o diálogo. A que ponto chegamos? Partimos do desejo de morte próprio dos filósofos autênticos e chegamos ao trabalho de Penélope da filosofia. Da conversa que os verdadeiros filósofos mantêm entre si ao discurso que a filosofia dirige à alma, o círculo se fecha. Uma coisa ficou clara: a alma desligada não é a mesma alma que aquela que está presa ao corpo. Cada uma delas, consequentemente, não tem nem a mesma vida, nem a mesma morte. Existe uma diferença entre as almas, e uma diferença radical entre a alma daqueles que filosofam corretamente e todas as outras. Que haja algo melhor para as almas boas, e que isso consista em pensar, é a única coisa da qual Sócrates parece absolutamente certo; é também a única coisa da qual ele não consegue persuadir seus interlocutores.

Em tudo o que precede, é importante perceber a celebração do invisível, a alegria da qual provém o pensamento, a afirmação de seu poder e de sua liberdade — o canto, não os “argumentos” (84d-85b). Cada “raciocínio” pode ser entendido de duas maneiras: como ocasião de reminiscência ou como tentativa frustrada de demonstração. Pois, no que diz respeito à demonstração, Sócrates não está mais satisfeito do que seus interlocutores (84c-d): que sentido, de fato, pode a relatividade do viver e do estar morto ter para aqueles que acreditam que vivem quando vivem e que estão mortos quando estão mortos? Que força pode a reminiscência ter para aquele que não tem reminiscência? Que parentesco pode ser reconhecido, e com o quê, por quem não faz o esforço de se relacionar? Nada é mais fraco do que um argumento que recorre a uma experiência, sobretudo quando os outros não têm essa experiência: o discurso, de repente, parece retórico e incantatório. A experiência é, no entanto, a do pensamento, que só pode afirmar sua diferença sabendo muito bem que ela não será reconhecida. De todo modo, não dessa maneira.

Símias e Cebes estão ansiosos para fazer suas perguntas, mas temem ser “importunos” ao prolongar a discussão em tal circunstância (84d). Sócrates, em sua resposta, retomará o mesmo termo: refletir e dialogar constituem as únicas maneiras de não ser “incômodo” para os outros, de não tornar o tempo que antecede a morte — a vida — uma desgraça, ocasião de incessantes lamentações (91b). Esse tempo é medido pelos deuses e, às vezes, pelos homens (por “esses representantes dos atenienses, os Onze”). O uso que se pode fazer dele, assim como a interpretação que se dá a esse emprego do tempo, são sintomas. A vida é ocasião de canto, mas o canto pode ser entendido de duas maneiras opostas: como lamentação de uma condição, ou como celebração de um outro lugar. A natureza da interpretação é indício de sua origem: se ela provém do entusiasmo, da força e do prazer de pensar, todo canto, mesmo o do cisne ou do rouxinol, da andorinha, da abelha, é canto de alegria e de presciência; se, ao contrário, for fruto do sofrimento, da privação, do esgotamento, todo canto se torna canto de lamentação. Antes de Nietzsche, portanto, Platão nos diz que é a superabundância que faz pensar e não a dor da falta.