A maior duração da alma, para Cebès, não se funda na natureza da alma, mas na fraqueza natural do corpo, cujo incessante escoamento a torna naturalmente inferior em vigor e resistência, sem que isso implique superioridade infinita da alma.
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A alma pode chegar ao esgotamento após muitas mortes, vidas e nascimentos, e uma dessas mortes pode muito bem significar sua destruição.
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O fato de o último vestido tecido poder se conservar por muito tempo não prova que “o homem”, isto é, a alma, deva durar ainda mais do que ele.
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Cebès combate em duas frentes: ataca o raciocínio de Sócrates, segundo o qual a conservação do corpo implicaria existência ainda mais longa da alma, e corrige Simmias, que errou ao negar a maior duração da alma, embora pela razão errada.
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Sócrates e Simmias cometeram o mesmo erro de pensar o corpo como coisa consistente, quando ele está em fluxo perpétuo.
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A corrupção do corpo não está ligada ao evento da morte; a separação da alma apenas revela sua fragilidade natural.
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Vivo ou morto, o corpo não se conserva, e o pouco de unidade e coesão que apresenta lhe vem da atividade da alma.
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É verdade que a alma não perece primeiro, mas ela pode perecer por esgotamento gradual, e a confiança de Sócrates não é afinal razoável (88a-b).
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As concepções de Simmias e Cebès são sensivelmente idênticas quanto ao que chamam alma: para ambos, ela é a vida; a diferença está no paradigma adotado.
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Simmias mencionou a harmonia presente na obra de todo artesão: uma vez concluída a obra, o artesão pode abandoná-la a seus modos próprios de decomposição.
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Cebès retoma a tese: a alma tem uma atividade “artesanal”, mas a arte do artesão, do tecelão, permanece de algum modo presente dentro da obra para sustentá-la na existência.
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Para
Aristóteles, essa concepção equivale a “a arte do carpinteiro descida nas flautas”.
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Para Simmias, a vida resulta de uma boa proporção entre os componentes corporais; para Cebès, é uma atividade que se opõe incansavelmente à degradação e à corrupção do corpo.
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A um paradigma estático de arranjo e composição de relações, o da lira, Cebès prefere um paradigma dinâmico de produção e reconstituição, o do tecelão.
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Cada objeção retomou um dos dois membros da alternativa formulada por Sócrates em 78b: Simmias sustenta que a natureza da alma a inclui na espécie das coisas destinadas a perecer mais rapidamente do que o corpo; Cebès não concede essa destinação natural, mas estima que há toda razão de temer que a energia vital chegue ao esgotamento.
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A alma pertence, segundo Cebès, à espécie das coisas das quais se pode temer que pereçam e às quais convém experimentar esse temor.
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Quando, já desgastada por múltiplos nascimentos, a alma sofre uma morte a mais, ela perece.
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A causa não está na natureza da alma nem no poder da morte em si mesma, mas numa longa série de uniões e separações com o corpo.
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O efeito dessa repetição é, no sentido estrito, incalculável: nenhum meio de saber se uma dada morte é ou não a última (88b).
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A destruição da alma é imprevisível, logo acidental, e é legítimo ter medo.