A doutrina exposta por Simmias tem inspiração antiga: para
Empédocles, nascimento e morte eram apenas palavras que recobriam misturas e separações;
Parmênides afirmava que ao “misto que se encontra a cada momento nos membros de muitos movimentos” correspondem as “mudanças de estado de espírito” dos homens.
-
A doutrina pré-socrática da mistura de elementos se inflectiu, provavelmente sob influência médica, para explicar doença e morte em termos de desequilíbrio.
-
Essa inflexão do físico e do cosmológico em direção ao médico se marca pela predominância das qualidades sobre os elementos e pela multiplicação das oposições no misto, que passam a incluir o ácido e o doce, o fluido e o viscoso, “e outros pares do mesmo tipo” (86b).
-
A tese de Simmias está mais próxima desse contexto médico recente do que da grande doutrina heraclitiana da unidade dos opostos.
-
Erximaco, no
Banquete, objetava que “é impossível harmonizar o que diverge e não se concorda” (Banq. 187a-b): para entrar num misto, as propriedades devem se conciliar, não manter sua oposição.
-
Um discípulo de
Aristóteles, Menão, atribui a Filolau uma teoria ilustrativa: o calor está na origem do corpo vivo, mas o ar inspirado ao nascer vem resfriá-lo, e a respiração é condição de vida por temperar a oposição entre quente e frio.
-
Assim como as justas relações de tensão entre as cordas não podem existir sem a lira, a combinação bem temperada que é uma vida não pode existir independentemente das qualidades que compõem um corpo, sendo a noção de harmonia de Simmias tão ambígua quanto a noção pitagórica de “número”.
-
A harmonia é uma norma organizadora, uma causa formal? É o resultado para o qual tendem as tensões do corpo, uma causa final? Ou é redutível a seus componentes corporais, simples causa material?
-
Se é necessário um artesão para que haja harmonia, a alma é assimilável a esse artesão ou à sua arte, sendo uma causa eficiente?
-
É impossível aplicar à definição proposta por Simmias a teoria das quatro causas, porque a alma não é pensada como causa ou atividade, mas como uma propriedade substantivada.
-
De
Aristóteles a Filópono, passando por Galeno e
Plotino, os textos dedicados à teoria da alma-harmonia trazem menos esclarecimentos do que reclamam.
-
O que chamamos alma, diz Simmias, é a vida, que possui uma realidade mais frágil do que o corpo do qual é apenas uma propriedade, desaparecendo de uma só vez, muito antes dos “despojos do corpo” (86c).