PLATON. Phédon. Monique Dixsaut. Paris: GF-Flammarion, 1991.
Será possível descobrir, nesse “labirinto” que é o Fedón, uma estrutura capaz de satisfazer o espírito da geometria? A complexidade do diálogo deve-se, em primeiro lugar, à diversidade das formas de discurso. Entrelaçam-se, de fato, palavras na primeira pessoa: uma apologia, uma autobiografia; exercícios de hermenêutica: um sonho e sua interpretação, um ditado a ser esclarecido, citações sagradas e sua exegese; e também de ficção: uma fábula que se compõe, mitos aos quais se faz referência, um mito que se constrói — tudo isso envolto em um relato que ora é relato de eventos, ora é reprodução de diálogo, e que é interrompido e, portanto, designado como tal em duas ou até três ocasiões. A complexidade reside também no fato de que vemos o diálogo se desligar progressivamente de sua forma banal, a conversa, para que o discurso se reflita e estabeleça as condições de sua possibilidade.
O Fédon oferece, portanto, uma escrita excessivamente trabalhada. Mas a diversidade dos ângulos de abordagem e das formas de expressão não são sinais de domínio; pelo contrário, servem para evidenciar a impossibilidade do discurso de se tornar senhor de seu objeto. Nem a morte nem a imortalidade são questões sobre as quais a dialética possa livre e tranquilamente desdobrar seu poder. Diante delas, o discurso se fragmenta, refletindo assim as contradições e as reviravoltas desconcertantes das almas; Sócrates começa, entre outras coisas, a compor versos; aquele que não é fácil de convencer, Cebes, abriga em si uma criança que tem medo; aquele que se mostrou, ao longo de tudo, mais dócil e menos incrédulo, Símias, não consegue dissimular a dúvida que, no fim das contas, persiste. A isso há que acrescentar olhares trocados em todas as direções, risos que mudam de lado, silêncios, choro e sussurros.
Compreende-se que um comentarista sério se sinta tentado a levar em conta apenas os momentos lógicos: provas ou demonstrações. Uma vez que se rejeita nas trevas exteriores da retórica ou da literatura tudo o que não é argumentação, resta cerca de um terço do diálogo. Mesmo admitindo que Platão tenha produzido obra filosófica apenas nesse terço restante, as coisas não se tornam, por isso, nem mais claras nem mais simples. Segundo os comentaristas, o número de argumentos varia, de fato, de um a onze, tendo cada posição intermediária encontrado adeptos. Os antigos contavam cinco — considerados complementares ou, ao contrário, independentes e todos conclusivos⁸⁷. Os modernos retêm quatro, com exceções notáveis: onze argumentos reduzidos a seis; ou três argumentos culminando em uma prova que os integra como uma única grande onda; ou dois encadeando-se na primeira metade do diálogo, sendo a segunda metade considerada puramente negativa⁸⁸. A discordância não se refere apenas ao número de argumentos, mas ao seu valor respectivo: ou se enfatiza a parte “positiva” e a reminiscência; ou se estabelece uma estrutura ascendente correspondente a graus sucessivos de conhecimento, ou ainda a hipóteses cada vez mais elevadas89.
Diante dessa cacofonia, o que concluir, senão que, ao suscitar respostas tão discordantes, as questões colocadas ao texto não devem ser as corretas? Mesmo em suas partes demonstrativas, o Fedão não se insere na banalidade homogênea de um espaço lógico: os discursos situam-se em planos diferentes, em alturas ou profundidades diferentes. Atribuir a certas passagens uma finalidade “protreptica” — converter a alma à filosofia — apenas reforça a impressão de que o diálogo é uma justaposição de “fragmentos” sem ligação interna.
Nem dialético, nem protreptico, nem retórico, o Fedão é talvez simplesmente um diálogo reflexivo: nele se “reflete” e se “examina” muito. E o discurso que reflete encontra ali a oportunidade de se definir como “aquilo no interior do qual se examina a verdade dos seres” (99) e de enumerar as condições de seu uso. Entre essas condições figura a posição das realidades em si: o ser deve ser tal que possa revelar-se na verdade em um logos e ser detectado por ele. É preciso acrescentar o “risco” que o filósofo deve correr: separar-se o mais possível do corpo, na esperança de que a fuga para os “raciocínios” não conduza a nada, e também a coragem que Sócrates demonstra diante da morte, coragem que tem o pensamento como princípio.