A estrutura do diálogo é marcada pela diversidade de formas discursivas e pela complexidade, que não visa demonstrar maestria, mas evidenciar a impossibilidade do discurso de dominar seu objeto, a morte e a imortalidade.
O texto entrelaça falas em primeira pessoa, exercícios de hermenêutica, ficção e um relato que interrompe a si mesmo, refletindo as contradições e os retornos das almas, como a atitude de Sócrates, que compõe versos, e as reações díspares de Cebes e Simmias.
A cacofonia entre comentadores sobre o número e o valor dos argumentos demonstra que as perguntas feitas ao texto podem não ser as adequadas, sugerindo que o Fedão é um diálogo reflexivo onde se define o discurso como “aquilo dentro do que se examina a verdade dos seres”.
O prólogo estabelece o tema latente da identificação do “si-mesmo” através do uso corrente de termos que serão ressignificados, questionando se este se refere ao corpo, à alma ou à união de ambos.
A pergunta de Equécrates sobre se Fédon estava presente “ele mesmo” ou “ouviu de outro” anuncia a alternativa entre “descobrir por si mesmo” e “aprender com outro”, recusando a aprendizagem por tradição associada à autoridade do “ele mesmo disse” (autos ephà) dos pitagóricos.
O intervalo da execução devido ao peregrinar a Delos e a referência a Apolo como deus da purificação, adivinhação, música e arqueiro infalível preparam os temas da pureza e estabelecem os atributos que Sócrates manifesta como filósofo.
A introdução do relato destaca o caráter único de Sócrates através do espanto de Fédon e da sensação de alívio de Sócrates ao ser libertado das correntes, o que introduz o tema da sucessão de contrários.
O espanto de Fédon é expresso como uma estranha combinação de prazer e dor, enquanto Sócrates analisa a sucessão do agradável e do penoso, preparando o terreno para a doutrina da alternância dos opostos.
Sócrates explica seu início na poesia na prisão por uma injunção onírica, e Platão joga com a ambiguidade do termo philosophia para sugerir que o deus não exigia o abandono da filosofia, mas que Sócrates consentisse em pôr seu desejo em obra através da transposição de fábulas.
Na apologia, Sócrates define a morte como a separação da alma e do corpo e o filosofar como um exercício de morrer, fundamentado na esperança de que a morte não anula as diferenças entre bons e maus.
Cebes questiona o interdito do suicídio e Sócrates retifica que, mesmo sendo melhor estar morto, não cabe uma decisão, mas a espera de um sinal, pois a verdade do “é melhor” não se traduz em ação imediata.
O filósofo se distingue por não tomar a sério os prazeres do corpo, não por ascetismo, mas por uma orientação natural que hierarquiza os prazeres, considerando os corporais insignificantes diante do desejo de “aspirar ao que é”.
A separação do corpo é tanto consequência do desejo de conhecer os seres quanto condição para esse conhecimento, e o discurso do filósofo expressa uma opinião que identifica o filosofar como “tender a estar morto”.
O exame sobre o devir entre contrários estabelece que os vivos nascem necessariamente dos mortos, demonstrando que a alma existe após a morte, ao conceber a vida e a morte como momentos de um ciclo reversível.
Cebes solicita um discurso que o tranquilize sobre a consistência da alma, e Sócrates examina a antiga fórmula sobre o ciclo de nascimentos e mortos, baseando-se no princípio de que todo devir de um contrário se dá a partir de seu contrário.
Aplicando o princípio ao par “estar vivo” e “estar morto” por meio da comparação com “estar acordado” e “estar dormindo”, conclui-se que morrer e reviver são processos simétricos.
A conclusão abrupta sobre o melhor para as almas boas introduz a reminiscência, ligando o argumento ao Mênon, onde a imortalidade da alma, que morre mas não perece, fundamenta a doutrina da reminiscência e a possibilidade de retribuição.
O argumento da reminiscência demonstra que a alma pré-existe ao corpo, pois o saber que se recorda a partir de sensações só é possível se a alma já possuía esse conhecimento.
A sensação, que antes era um obstáculo, torna-se condição necessária para o aprender, desde que a alma deseje a realidade verdadeira e reflita sobre a deficiência do objeto sensível, constituindo-o como imagem imperfeita que aponta para a Forma.
Os exemplos da lira ou do retrato mostram que a reminiscência ocorre tanto a partir do semelhante quanto do dessemelhante, sendo necessária a reflexão sobre o que falta ao objeto em relação à realidade visada.
A necessidade de que as realidades em si existam leva à conclusão de uma “necessidade igual” de existência para a alma pensante, que passa a ter um modo de existência semelhante ao das Formas, transcendendo o tempo cronológico.
Após um interlúdio sobre a necessidade de uma “encantação” para afastar o medo infantil da morte, Sócrates estabelece uma alternativa para examinar se a alma está sujeita à dispersão, distinguindo entre coisas compostas e não compostas.
As realidades em si, sempre idênticas a si mesmas e invisíveis, são consideradas não compostas, enquanto as coisas sensíveis são compostas, e a alma pode se tornar semelhante a um ou outro tipo dependendo dos objetos aos quais se aplica.
A alma não é por natureza indissolúvel como as Formas, mas sua capacidade de se unificar ao se voltar para o inteligível a torna “quase indissolúvel”, e não há perigo de dispersão para a alma purificada.
A filosofia é o trabalho de desligamento da alma do corpo, um desejo de aprender superior aos apetites, e a diferença entre as almas que filosofam e as outras é radical.
Simmias apresenta a objeção da alma como uma harmonia, uma estrutura incorpórea resultante da combinação dos elementos corpóreos que perece antes do corpo, como a harmonia da lira.
Simmias argumenta que a alma, sendo uma harmonia, é algo incorpóreo e divino, mas que depende do corpo para existir, pois a “proporção conveniente” que constitui a vida é o resultado do justo tempero dos opostos que compõem o corpo.
A doutrina da alma-harmonia é um contraponto à hierarquia ontológica de Sócrates, uma vez que o incorpóreo e o divino não teriam existência separada, mas seriam inseparáveis dos elementos corpóreos.
A tese de Simmias é de inspiração médica, explicando a saúde como restauração de uma boa proporção entre qualidades opostas, e a morte como ausência completa de medida.
Cebes, em sua objeção, utiliza o paradigma do velho tecelão para argumentar que a alma, embora dure mais que o corpo, pode perecer por exaustão após muitas mortes e renascimentos.
Cebes concede que a alma pré-existe ao corpo e é naturalmente mais vigorosa, pois o corpo está em fluxo perpétuo, e a alma age como uma força de coesão e restauração, “tecendo” continuamente o corpo.
A incerteza reside em não saber qual morte será a definitiva, pois a repetição de uniões e separações pode levar à destruição da alma por esgotamento gradual.
Diferente de Simmias, Cebes concebe a vida como uma atividade dinâmica que se opõe à degradação do corpo, tornando a destruição da alma um evento possível, porém imprevisível.
Um longo interlúdio marca um ponto de virada onde Sócrates combate a misologia, a aversão aos raciocínios, e propõe um novo método baseado na análise dos lógoi.
A misologia é comparada à misantropia, ambas originadas na ignorância sobre a competência necessária para lidar com homens ou raciocínios, e o misólogo erra ao escolher falar sobre objetos em perpétuo devir.
Sócrates propõe um “pari”: se sua crença na existência da alma após a morte for verdadeira, ele estará bem; se for falsa, ele também estará bem por não ter perturbado os outros, sendo a melhor opinião aquela que liberta do medo.
Após resumir as objeções, Sócrates obtém o acordo de Simmias e Cebes sobre a validade do argumento da reminiscência, estabelecendo a pré-existência da alma como um ponto comum.
A refutação de Simmias mostra que a tese da alma-harmonia é incompatível com a da reminiscência, pois uma harmonia não pode preexistir aos elementos que a compõem.
Simmias, ao concordar com a reminiscência, abandona a tese da alma-harmonia, pois esta implicaria que a alma preexiste aos fatores corporais que a constituem.
Sócrates examina as consequências da tese, demonstrando que se a alma é uma harmonia, não haveria diferenças de grau entre as almas, e todas seriam igualmente boas, o que é falso.
A alma não pode ser uma harmonia porque ela exerce autoridade sobre o corpo, resistindo a seus apetites e medos, e dividindo-se em uma parte sensata que dialoga com a parte regida pelas afecções do corpo.
A autobiografia de Sócrates narra sua decepção com a ciência da natureza e com a filosofia de Anaxágoras, levando-o a empreender uma “segunda navegação” em busca da causa verdadeira, que ele encontra nas Formas inteligíveis.
O jovem Sócrates esperava que a ciência da natureza explicasse o “porquê” de cada coisa, mas se deparou com explicações contraditórias sobre crescimento, número e relações de grandeza.
A leitura de Anaxágoras despertou esperança de que o Intelecto (Nous) ordenasse tudo segundo o princípio do melhor, mas a decepção veio ao ver que o filósofo recorria apenas a causas materiais e mecânicas.
Sócrates decide então se afastar do contato direto com o sensível e “tomar o caminho dos raciocínios” (lógoi), considerando seguro postular a existência do belo em si, do bem em si e de outras realidades em si como causas verdadeiras.
O último argumento demonstra que a alma é imortal ao estabelecer que ela é a causa que traz sempre a vida e que, como o três, o fogo e a neve, não pode receber o contrário do que traz.
Ao estender o princípio de exclusão dos contrários, Sócrates mostra que certas coisas, como a neve que é essencialmente fria, excluem o seu contrário indireto, e a alma, que traz sempre a vida, exclui o seu contrário indireto, a morte.
A alma não pode se tornar morta, sendo imortal nesse sentido, e se o imortal for indestrutível, a alma também o será, pois a morte não seria um contrário que ela recebe, mas a possibilidade de sua própria destruição.
A demonstração se completa com a afirmação de que a alma, como princípio de vida, não pode participar da morte, e a conclusão é aceita por Cebes, embora a discussão sobre a indestrutibilidade dependa da aceitação de que a própria Forma da vida é indestrutível.
O mito final descreve a geografia da Terra e o destino das almas no Hades, onde elas são julgadas e enviadas a lugares que correspondem à vida que levaram, servindo como uma incantação para inspirar confiança.
A Terra é concebida como esférica e imensa, com os humanos habitando em cavidades, e a descrição alegórica da superfície e do interior com seus rios e o Tártaro serve como pano de fundo para a jornada das almas.
As almas dos mortos são julgadas e destinadas a diferentes lugares: os incuráveis ao Tártaro; os que cometeram crimes expiáveis, a rios como o Cocito ou Piriflegétonte; os que viveram uma vida mediana, ao lago Aquerúsia; e os que se purificaram pela filosofia, a regiões mais belas.
A crença nesse mito é apresentada como um risco que vale a pena correr, pois a confiança reside não em não temer a morte, mas em viver como se fosse imortal, purificando-se pela filosofia.