A oposição entre retórica, associada à ação política, e filosofia, vinculada à reflexão ética, era familiar aos contemporâneos de
Platão, como resume um fragmento de Antístenes: “Se queres que um rapaz viva com os deuses, ensina-lhe a filosofia; se é com os homens, ensina-lhe a retórica.”
A retórica torna a injustiça demasiado fácil e lucrativa para que a razão comum consiga evitá-la, fazendo que a escolha por uma vida de justiça apareça como desvantajosa e sem benefício imediato.
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É justamente para provar que tal vida representa o único bem real que o
Górgias se empenha.
A condenação da retórica e o estímulo à filosofia operam de modos distintos: a crítica se faz pela refutação das pretensões retóricas, evidenciando suas contradições e sua incompatibilidade com os valores correntes.
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Essa refutação se dirige sucessivamente a
Górgias, Polos e Calicles.
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O engajamento na filosofia toma a forma de uma exortação, de um protréptico, fundado em argumentos e destinado a orientar a vontade e o desejo do sujeito para o estudo da filosofia e a prática da justiça.
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Esse protréptico concentra-se nos conselhos de Sócrates a Calicles, na exortação a reconhecer a superioridade da justiça e no mito final do destino das almas.
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Toda resolução de orientar-se para o verdadeiro bem exige a denúncia dos falsos bens.
A unidade do
Górgias é dificilmente contestável: cada entretien radicaliza a discussão precedente, torna explícitas condições que o interlocutor anterior não havia formalmente enunciado, e a passagem das questões sobre a retórica às questões de ética política representa um aprofundamento da análise.
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A retórica faz uma tripla entrada em cena no
Górgias, estruturando-o em três atos, encadeamento único nos diálogos platônicos.
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No livro I da
República há revezamento de personagens semelhante, com Céfalo, Polemarco e Trasímaco, mas entre eles não existe vínculo definido.
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Os interlocutores de Sócrates no
Górgias são solidários entre si: partilham a mesma admiração pela retórica, e cada um precisa, ao intervir, que relação o liga ao predecessor.
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A lógica do
Górgias é ao mesmo tempo argumentativa, lógica dos problemas e lógica dramática.
Diante da retórica encarnada por três personagens, Sócrates faz a unidade do diálogo: formula as primeiras questões, narra a última história e é diretamente interpelado pelos interlocutores, tendo de se defender, justificar suas escolhas, evocar seu passado e pressentir seu futuro.
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A unidade do
Górgias apoia-se também na coerência de uma personalidade e na solidez de um engajamento de vida, cuja consistência e integridade só se confirmam à medida que os debates avançam.