O intelectualismo radical de Sócrates, que sustenta que o conhecimento é suficiente para a virtude, leva
Górgias a uma incoerência fatal: se ele ensina valores morais ao retórico, este, por conhecer o justo, não pode cometer injustiça, contradizendo a alegação inicial de que o aluno poderia perverter a retórica.
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Sócrates articula a hipótese contra-intuitiva de que o conhecimento é suficiente para a virtude, extraindo de
Górgias a concordância de que quem aprende o justo se torna justo e, portanto, age justamente.
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Górgias, como campeão da dynamis (poder/capacidade), não pode admitir que seu logos seja impotente para reformar valores, mas ao insistir que pode ensinar a moral, compromete-se com a conclusão de que seu aluno treinado não pode abusar de sua dynamis.
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A inconsistência final é que
Górgias defendia-se como um professor íntegro ao conceder que seus alunos poderiam usar a retórica para fins pervertidos, mas agora emerge que o retórico treinado, por conhecer os valores próprios, não pode abusar de seu poder.
A refutação dialética socrática opera por meio da coerção lógica, distinta da compulsão retórica, e visa ao bem comum do conhecimento, mas é frequentemente mal interpretada por seus interlocutores como uma forma de violência pessoal e humilhação, devido à sua adesão a valores convencionais.
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Sócrates afirma que a refutação retórica, que usa testemunhas hostis de boa reputação, é inútil para a verdade, enquanto a refutação dialética se submete apenas à força do argumento, que liberta ao invés de aprisionar, confinando o indivíduo dentro dos limites da verdade.
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Cálicles acusa Sócrates de ser um “demagogo” e acusa Polus de ter sofrido (pathos) o mesmo que
Górgias: ser forçado (anankasthēnai) a se contradizer, percebendo a argumentação como uma armadilha que amarra e amordaça o indivíduo passivo, em vez de preservar a segurança da verdade.
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A vergonha (aidos) desempenha um papel crucial nas refutações, levando interlocutores como Pólo e Cálicles a cederem, não por convicção lógica, mas por constrangimento social, o que levanta a questão sobre se o elenchos (exame refutativo) pode ser viciado por sentimentos que deveriam ser racionalmente ignorados.
Sócrates é retratado por
Platão como possuindo poderes mágicos de encantamento através de seus logoi, uma ambiguidade não resolvida que ecoa a caracterização gorgiana do logos como feitiço, mas que é redimida por seu compromisso com a verdade e a melhoria da alma.
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Embora Sócrates se esforce para negar a analogia entre a medicina somática e a retórica psíquica, classificando esta última como mera lisonja (463B1), ele é frequentemente acusado por seus interlocutores, como
Mênon e
Alcibíades, de exercer magia e feitiçaria sobre eles.
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Alcibíades compara Sócrates ao sátiro Marsias, afirmando que ele alcança o mesmo efeito de encantamento (215C1) com seus logoi nus, jogando sua psique em completa perturbação emocional, correspondendo à descrição do Encomio sobre os efeitos do logos sobre Helena.
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Platão não emite uma condenação direta dessa dynamis ambígua e sedutora que ele retrata como magia, deixando uma ambiguidade que o leitor ativo deve resolver, em vez de fornecer uma resposta doutrinária pronta.
Sócrates apresenta a si mesmo como o único político verdadeiro de Atenas, pois seu compromisso inabalável com um logos capaz de fazer o bem aos cidadãos, através da dialética privada, subverte completamente a concepção convencional de poder político baseada na retórica.
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Sócrates argumenta que políticos atenienses bem-sucedidos, como Péricles e Temístocles, foram na verdade fracassos abjetos porque não melhoraram os cidadãos, ao contrário, sofreram a hostilidade popular, o que prova que não dominavam nem mesmo a retórica falsa.
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A conclusão chocante é que Sócrates, talvez sozinho entre os atenienses, é um verdadeiro político (521D6-E1), pois é único em seu compromisso com um logos capaz de fazer o bem aos seus concidadãos, legitimando o discurso privado da dialética como o único tipo autenticamente político.
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Se a ideia de
Górgias sobre o “logos, o grande déspota” tornou questionável a base retórica das instituições democráticas atenienses, a apresentação platônica da política filosófica é um desafio não menos radical, legitimando o discurso privado da dialética como o único tipo de conversa autenticamente política.