Trasímaco define a justiça como a vantagem do mais forte, e Sócrates decompõe essa definição em sucessivas refutações que conduzem à tese oposta.
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Se o mais forte pode enganar-se sobre seu próprio interesse e legislar mal, o governado que obedece agiria contra o interesse do mais forte: Trasímaco responde que o técnico verdadeiro é por definição infalível, cometendo falha apenas quando deixa de ser técnico.
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Sócrates replica que nenhuma técnica busca seu próprio bem, pois este lhe é intrínseco quando sã e perfeita; ela busca apenas o bem do sujeito a quem se aplica, de modo que o médico, o piloto e o governante visam ao bem dos governados, não ao próprio.
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Trasímaco compara os governantes a pastores que engordam ovelhas para seu próprio proveito, concluindo que a justiça é vantagem real do forte que manda e prejuízo do fraco que obedece, sendo o tirano, realizador da injustiça integral, invejado até por quem o censura.
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Sócrates demonstra que toda técnica exige remuneração suplementar, pois sua eficácia própria é consagrada ao bem do sujeito; governar é exercido no interesse dos governados, e os honestos só aceitam o poder para evitar ser governados por maus.
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Numa cidade de pessoas honestas, ser simples governado suscitaria tanta disputa quanto hoje ser governante.
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Trasímaco sustenta que a injustiça é sabedoria e virtude, especialmente quando subjuga cidades e nações, mas Sócrates retorque que nenhum técnico age para superar todos os outros: o músico não tensiona as cordas além do ponto que o técnico perfeito tensionaria.
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Uma cidade, um exército ou uma quadrilha de ladrões só alcança seus fins injustos se preserva entre seus membros suficiente justiça para mantê-los em harmonia: a justiça é condição indispensável de harmonia e poder no grupo e em cada um de seus membros.
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Cada coisa tem sua obra própria e necessita da virtude adequada para realizá-la: a obra própria da alma é pensar, deliberar e viver, e sua virtude própria é a justiça; portanto, a alma injusta vive mal e infeliz, enquanto a alma justa vive bem e é ditosa.
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Essa conclusão é declarada prematura pelo próprio Sócrates: antes de decidir se a injustiça é mais vantajosa, era preciso responder à questão deixada sem solução em que consiste a justiça.