O edifício sofístico foi demolido principalmente pelo recurso à analogia das artes: a justiça se assemelha às artes por não ter interesse externo, por não visar ao excesso, e por ser para a felicidade o que o instrumento do artesão é para sua obra.
-
O leitor moderno tropeça nisso por esquecer que
Platão escreve numa época em que as artes e as virtudes, como as faculdades morais e intelectuais, ainda não estavam diferenciadas.
-
Entre os primeiros investigadores da natureza da ação humana, as artes ajudavam a preencher o vazio da especulação; a geração seguinte esclareceu essas perplexidades, ou ao menos forneceu às épocas posteriores uma análise mais avançada delas.
-
Aristóteles formularia a distinção do senso comum: “a virtude diz respeito à ação, a arte à produção”, e “a virtude implica intenção e constância de propósito, enquanto a arte requer apenas conhecimento”.
-
Nas absurdidades que decorrem de alguns usos da analogia, parece haver a indicação implícita de que a virtude é mais que arte, o que está implícito na redução ao absurdo de que “a justiça é um ladrão” e na insatisfação que Sócrates expressa com o resultado final.
-
A expressão “arte do ganho”, descrita como “comum a todas as artes”, não está em conformidade com o uso ordinário da linguagem e não é empregada em nenhum outro lugar por
Platão ou por qualquer outro escritor grego.
-
Outro deslize linguístico está nas palavras “homens que são prejudicados tornam-se mais injustos”, pois os que são prejudicados não são necessariamente piores, mas apenas lesados ou maltratados.
-
O segundo dos três argumentos, de que o justo não visa ao excesso, tem sentido real ainda que envolto em forma enigmática: que o bem é da natureza do finito é um sentimento peculiarmente helênico, comparável à linguagem de escritores modernos que falam da virtude como adequação e da liberdade como obediência à lei.
-
A noção matemática ou lógica de limite passa facilmente para uma ética, e encontra até expressão mitológica na concepção da inveja; ideias de medida, igualdade, ordem, unidade e proporção ainda persistem nos escritos dos moralistas.
-
Quando os artesãos se esforçam por fazer melhor do que bem, confundem sua habilidade na ganância. (Rei João, Ato IV, Cena 2.)
-
A harmonia da alma e do corpo, e das partes da alma entre si, uma harmonia “mais bela que a das notas musicais”, é o modo helênico genuíno de conceber a perfeição da natureza humana.
-
No epílogo da discussão com Trasímaco,
Platão argumenta que o mal não é um princípio de força, mas de discórdia e dissolução, tocando levemente a questão da natureza negativa do mal, tratada frequentemente por teólogos e filósofos modernos.
-
No último argumento rastreia-se o germe da doutrina aristotélica de um fim e de uma virtude dirigida ao fim, novamente sugerida pelas artes; a reconciliação final da justiça com a felicidade e a identidade do indivíduo com o Estado também são insinuadas.
-
Sócrates reassume o papel de quem “nada sabe”, parecendo ao mesmo tempo não estar inteiramente satisfeito com a forma como o argumento foi conduzido; nada é concluído, mas a tendência do processo dialético, aqui como sempre, é ampliar a concepção das ideias e alargar sua aplicação à vida humana.