Esses juízos não podem vir da sensação, pois a sensação está encerrada inteiramente na impressão orgânica feita sobre cada sentido em particular.
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A menor comparação entre essas impressões ultrapassa os limites de cada sensação particular e supõe a intervenção de um novo elemento: cada sensação, limitada a si mesma e cerrada no instante fugitivo em que aparece, não sai de seus próprios limites para perceber a sensação que a precede ou a que se segue, não pode apreender nenhuma relação com outra sensação, e, como não se conhece a si mesma, sabe ainda menos tudo o resto.
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Transitória e móvel, como geraria a ideia de algo igual a si, idêntico e uno? Ela, cujo caráter próprio é o arbitrário e a contingência, como constituiria o da necessidade e da universalidade que distingue certas noções que se elevam irresistivelmente na inteligência do homem?
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Como teria imprimido de obrigação absoluta a distinção do bem e do mal moral? E ela, cuja destinação é aparecer e passar, cuja natureza é toda fenomenal, cuja essência é não ter nenhuma, como seria a fonte da noção misteriosa de essência, existência, substância, da qual o espírito humano não pode se separar mais do que pode se separar de si mesmo?
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“Há ser em toda proposição”, diz Leibniz — e de fato há ser em todo pensamento; todo pensamento, todo ato, todo fenômeno interno se ligando e não podendo deixar de se ligar a um sujeito, a um princípio ativo e pensante, centro e foco de toda existência; ora, essa majestosa ideia da existência não se pode pedir à sensação, que devém sem cessar sem jamais ser.
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Em resumo: a ciência se refere à verdade; toda verdade só se encontra na essência; se, portanto, a essência e a sensação se repelem, a ciência não está na sensação.