3. Contratempo da Filosofia

MARGEL, Serge. Le tombeau du dieu artisan: sur Platon. Paris: Éd. de Minuit, 1995.

Para pensar uma promessa do Demiurgo — a de nunca querer aniquilar o mundo — são necessárias três condições simultâneas, todas reconduzindo a pensar a promessa antes do tempo.

Condição A: interpretar a vontade demiúrgica como promessa.

Condição B: reconhecer nesse querer demiúrgico um bom querer.

Condição C: uma promessa infinita permanece insustentável e divide assim a vontade, mesmo a boa.

A promessa insustentável do Demiurgo deve ser renovada por nós, pela raça humana que herda essa promessa de outro e dela se torna responsável.

Para analisar esse testamento sem precedente, seria preciso pensar o tempo além de todo conceito filosófico do tempo, além de uma tradição filosófica constituída desde o Fédon no horizonte da morte sacrificial herdada da promessa insustentável.

Os momentos mais determinantes da estratégia de análise da temporalidade desenvolvida por Margel são sete.

Pensar o tempo de uma perda absoluta, de uma despesa originária sem restituição possível, implica um duplo gesto audacioso em relação às análises husserliana e heideggeriana do tempo.

O que se poderia colocar à prova, como tarefa imensa, são os limites de uma tradução entre as aporias prometidas, a começar pelas da própria promessa, e as antinomias da razão pura em Kant.