Jacques Derrida

MARGEL, Serge. Le tombeau du dieu artisan: sur Platon. Paris: Éd. de Minuit, 1995.

— Mais uma vez o Timeu, é verdade, mas um outro Timeu, um novo Demiurgo, prometido.

Com o risco que o pensamento corre, o belo risco, de um terremoto anacrônico: como uma onda de choque com efeito retardado desde a pré-história absoluta do mundo, nada menos. E, para a terra dos homens, pensamos ainda nos deslocamentos do terreno que se seguiriam a um abalo imemorial, um tremor arquitetônico…

— Caramba! O Timeo de Platão é, no entanto, considerado um dos livros mais antigos da humanidade! Sempre se reserva para ele um lugar à parte na obra platônica — e até mesmo na biblioteca filosófica. Será que ele pertence, aliás, à história da filosofia? À filosofia como tal? Nada é menos claro. Pois esse antigo livro da humanidade, que também fala da origem do homem, esse livro de arqueologia pura, é também um monumento das Humanidades. Desde seu primeiro aparecimento, eis uma das obras mais citadas do mundo, sem dúvida entre as mais sobrecarregadas de inscrições eruditas. Sempre se tem a sensação de que ele está ficando mais pesado e se enterrando, até a ilegibilidade, sob a sobreposição das glosas. Será ainda um livro, essa estela que se afunda na terra, para desespero dos arqueólogos? Será um livro entre tantos, esse arquivo pesado demais e quase “canonizado”? — Ora, por que não resistir à tentação de dizer logo, antes de tudo, “canonizado”?

— Por mais de um motivo, esse estranho Timeu já foi outrora tão popular, se é que se pode dizer isso de tal enigma, quanto a Bíblia. Foi, à sua maneira, uma espécie de Bíblia antes mesmo de existir… — De onde vem, então, a tentação de associá-los novamente?

— Não seria a primeira vez. Essa associação, como veremos, não se justifica apenas porque, nos dois casos, trata-se da origem do mundo, em suma, do que vem antes de tudo (ante, abante), do Xantécédant absoluto, de um antecessor sem idade que antecederia até mesmo a proveniência, e talvez a própria promessa, e a aliança…

— Você fala disso como se fosse uma corrida entre ancestrais. Ancestrais anteriores à idade estariam envolvidos em uma corrida de velocidade, em uma competição entre velocidades puras, sem outro desafio, sem outro gasto ou sobrelance além da própria velocidade. Eles seriam, como nós, mais de um; seríamos mais de um na origem do mundo. Haveria então essa competição a cada instante e em todas as instâncias para saber de antemão [o que] vem “antes” — e quem dá o avanço, quem empresta ou quem promete a quem, para atrair ou para envolver o outro. Haveriam, a princípio, apenas avanços. Feitas as avançadas, esgotar-nos-íamos a contar: promessas, dívidas, devedores, credores, crentes. A quem dar crédito? Em quem acreditar? Quem presta contas? Se bem entendi, três avanços interferem ao mesmo tempo, no tempo de uma competição, entre diferentes sujeitos: um motor toma a frente (no sentido crono-cinético), um credor concede um adiantamento e endivida o outro (no sentido econômico-fiduciário), um sedutor faz avanços (no sentido estratégico ou retórico de uma erótica). O que fazemos, então, quando avançamos assim? — É também apostar. Apostemos: que, doravante, não leremos mais o Timeo “como antes”, mas de maneira totalmente diferente. Quase em silêncio, aqui mesmo, com a construção deste Túmulo…, a paisagem acaba de mudar neste instante.

— Mas existe alguma vez uma paisagem natural, sobretudo para um discurso sobre a origem do mundo?

— Não, o que acaba de ser perturbado seria antes o cenário instituído, o nó e o desfecho sem fim de uma ação dramática. Pois o livro de Serge Margel descreve uma dramaturgia silenciosa antes do primeiro ato do mundo. E, de repente, uma nova interpretação — entendamos essa palavra como no teatro — nos permite decifrar os traços de um personagem desconhecido, ou mesmo de outra pessoa sob a máscara palimpsesta de um ator familiar. O Demiurgo do Timeu era, sem dúvida, apenas uma personagem, um “personagem”, traduziríamos do inglês, uma persona teatral e pouco mítica. Talvez ele tenha se tornado alguém, agora, ao mesmo tempo um dramaturgo — duas vezes o sujeito de um trabalho (ergon) e de uma ação (drama), o produtor de um evento — e um ator do drama. É alguém que, como seu nome indica (demiourgos), trabalha, age, produz, cria para o povo, o público, o universal, mas também, seguindo a extraordinária demonstração de Margel, um sujeito inativo, finito, impotente e submetido a leis tão contraditórias quanto implacáveis, um sujeito central, mas também estranhamente passivo. Tudo parece acontecer por meio dele, e, no entanto, tudo lhe acontece. Ele sofre o que lhe acontece, ou seja, nosso mundo, nada menos… — Ousaria você ver nele o sujeito de um Mistério ou de uma Paixão?