Servidão e Liberdade

Carta VIII

Eis, portanto, o que meu discurso recomenda a todos, mais uma vez: àqueles que almejam a tirania, que se afastem dela e fujam desesperadamente daquilo que consideram um objeto de felicidade os homens cuja ganância é insaciável e que são insensatos; que, ao contrário, se esforcem por se transformar em reis e se tornarem escravos das leis reais, considerando como honras supremas apenas os homens livres e as leis; àqueles que, pelo contrário, buscam instituições livres (354d) e fogem do jugo da escravidão como um mal, eu aconselharia a ter cuidado para não cair, um dia, em consequência de um desejo insaciável por uma liberdade intempestiva, na doença de seus antepassados, aquela de que sofreram as pessoas daquela época em consequência dessa total falta de autoridade que resultou de sua paixão sem medida pela liberdade. De fato, antes de Dionísio I e Hiparino exercerem o poder, os sicilianos daquela época imaginavam viver felizes, porque viviam na luxúria e eram chefes para seus chefes; eles que chegaram ao ponto de apedrejar até a morte os dez generais que precederam Dionísio I, sem, no entanto (354e), ter submetido nenhum deles a um julgamento legal, justamente para não serem subjugados a nenhum senhor, mesmo que respeitassem a justiça e a lei, a fim de serem livres em todas as coisas e de todas as maneiras; foi essa, para eles, a origem das tiranias. De fato, servidão e liberdade, quando excessivas, representam cada uma o mal absoluto, mas, moderadas, são o bem absoluto. A servidão em relação a um deus é uma questão de medida, mas é à falta de medida que se deve a servidão em relação aos homens. Ora, para os homens sábios, Deus é a lei, (355a) enquanto que, para os insensatos, é o prazer. (Platão Brisson Carta VIII)