Tzamalikos

TZAMALIKOS, Panayiotis. Anaxagoras, Origen, and Neoplatonism: the legacy of Anaxagoras to classical and late antiquity. Berlin: De Gruyter, 2015.

A distinção moderna entre filosofia e ciência é anacronicamente imposta ao pensamento antigo, pois Heráclito e Tales seriam hoje classificados como cientistas, assim como o próprio Newton se considerava filósofo ao intitular sua obra magna Philosophiae Naturalis Principia Mathematica.

Anaxágoras se distinguia dos demais pré-socráticos por buscar responder não apenas o que e como as coisas são, mas por que são o que são, como funcionam e qual foi a causa última para que tudo começasse — fato reconhecido imediatamente por todos os intelectuais antigos que exploraram a evolução das ideias.

Anaxágoras é reportado como o primeiro a expor suas teorias em um livro, ao passo que Temístio atribuiu a Anaximandro o mérito de ter sido o primeiro a registrar um tratado sobre a natureza por escrito, já que até então expor um relato escrito sobre a natureza era considerado vergonhoso entre os gregos.

Anaxágoras ficou amplamente reputado como o filósofo que se preocupou em responder à questão da causa criadora das coisas, e Diógenes Laércio abre sua biografia de Anaxágoras reportando que ele foi o primeiro a colocar a Mente acima da matéria, tendo sido por isso apelidado de Nous.

Olimpiodoro de Alexandria, contemporâneo de Simplício, também creditou a Anaxágoras ter sido o primeiro a introduzir a Mente como governante supremo de todos os seres, que, porém, não era ele mesmo um dos seres deste mundo.

Eusébio não poupou elogios a Anaxágoras, descrevendo-o como o primeiro de todos os gregos a introduzir a Mente como Causa do universo e o primeiro a compor um tratado organizado sobre os primeiros princípios.

Os testemunhos sobre o livro de Anaxágoras convergem ao reportar que se tratava de um tratado Sobre os Primeiros Princípios, e Alexandre de Afrodísia, ao relatar as análises de Aristóteles sobre os que consideraram os primeiros princípios antes dele, designou a obra de Anaxágoras com esse título — designação adotada pelos filósofos mais familiarizados com sua obra, de Teofrasto até o século VI.

Alguns autores reportaram que teria sido Hermotimo quem primeiro mencionou a Mente como primeira causa antes de Anaxágoras — afirmação de Aristóteles reproduzida por seus comentadores, alguns dos quais não a reportaram sem reservas.

Anaxágoras e Empédocles foram os dois filósofos que toda a Antiguidade exaltou por terem se ocupado não apenas dos elementos materiais, mas também da causa criadora que deu origem ao universo — para Anaxágoras, o Nous; para Empédocles, a causa dupla de Filotes e Neikos.

Existem comentários à Metafísica de Aristóteles por Alexandre de Afrodísia, Siriano e Asclépio de Tralles; Siriano não deu grande importância à crítica de Aristóteles a Anaxágoras, mas Asclépio de Tralles não compreendeu Aristóteles e incorreu em erro ingênuo, que deve permanecer como monumento de até onde pode ir o prejuízo da leitura do grego.

Esse ponto é instrutivo por mostrar que a disseminação das teorias de um filósofo era muitas vezes questão de ouvi-las, não de leitura em primeira mão, e os testemunhos sobre o ensinamento de Anaxágoras são às vezes contraditórios — sendo Simplício o melhor testemunho.

Há um ponto característico que Aristóteles deturpou completamente — e não os tradutores modernos, mas o comentador Asclépio de Tralles —: ao explicar a Metafísica 989a31—34, Asclépio entendeu que Anaxágoras teria encontrado alguém disposto a renderizar seu pensamento em versão revisada e mais articulada, e que esse homem fez o trabalho por Anaxágoras, que não compreendia realmente o que o escriba escreveu.

Contra tudo isso, Alexandre de Afrodísia foi inabalável quanto às palavras de Aristóteles na Metafísica 989a: Aristóteles disse que o que Anaxágoras “parecia dizer” “parecia ser absurdo”, mas foi por causa dessas “absurdidades aparentes” que Aristóteles argumentou que Anaxágoras “pretendia dizer coisas diferentes”, tendo então se dedicado a contribuir para a restauração do ensinamento de Anaxágoras e a interpretá-lo segundo o que Anaxágoras realmente quis dizer.