A primeira pessoa a pensar sobre o tempo filosoficamente, ou seja, de uma forma mais ou menos abstrata e buscando compreender a causalidade do tempo, foi provavelmente Anaximandro. Ao postular “o Ilimitado” (juntamente com seu movimento) como o único elemento “eterno” do universo, esse filósofo grego antigo postulou o tempo (χρόνος), que, ao contrário do princípio ilimitado de todas as coisas, é gerado, como aquilo que determina a geração e a corrupção dos seres. A noção de tempo de Anaximandro estava obviamente ligada ao entendimento comum do tempo como aquilo em virtude do qual os seres vivos, uma vez nascidos, passam por vários estágios da vida, envelhecem, definham e, eventualmente, morrem. Pensava-se que todo ser vivo tinha suas “idades”, ou seja, seus períodos de vida, cuja soma era coextensiva e, portanto, de alguma forma reguladora da duração de sua vida. Essas “idades” eram medidas pelo “tempo”, por exemplo, pelo ciclo anual das estações ou pelo próprio ano. O conceito filosófico posterior de tempo como um “número” (ἀριθμός) determinante da existência de alguma coisa, um conceito proeminente na filosofia grega desde Platão, tem origem nessa intuição arcaica sobre o tempo. (Golitsis, 2023)
Cornford (1957:7-10)
Anaximandro foi o segundo e o maior dos três milesianos que presidiram, sucessivamente, à primeira escola de filósofos gregos. O principal objeto de reflexão para todos eles não era o homem nem a sociedade humana, mas a “Natureza” (physis). Os escritos filosóficos dos séculos VI e V eram comumente intitulados “Sobre a Natureza” (Περί Φύσεως).
“Natureza” — a natureza das coisas — era o nome que davam à única substância última, da qual, segundo acreditavam, surgiu o mundo das coisas que vemos e na qual ele perecerá novamente. É imediatamente evidente que não temos uma tradução satisfatória para physis; “substância primária” carrega conotações aristotélicas e escolásticas; “matéria” sugere algo em contraste com a mente ou a vida, enquanto o significado primário de physis é “crescimento”, e suas primeiras associações são de vida e movimento, não de quietude e morte. O mero uso desse termo já implica a famosa doutrina que rendeu à escola de Mileto a designação de “ilozoísta” — a doutrina de que “o Todo está vivo”. O universo “tem alma em si”, no mesmo sentido (seja lá o que isso signifique) em que há uma “alma” no corpo animal. Não devemos esquecer que o significado de physis, nesta fase, está mais próximo de “vida” do que de “matéria”; é tanto “em movimento” quanto “material” — em movimento por si mesmo, porque vivo.
À história anterior, pré-científica, dessa fonte viva de todas as coisas, devemos nos dedicar mais tarde. Por enquanto, nos preocuparemos mais com as formas ou limites impostos à sua atividade espontânea — as concepções gêmeas de Destino e Lei.
Tales, o primeiro da escola, identificou a matéria viva e em constante transformação do mundo com a água. Anaximenes, o terceiro, sustentava que era “ar” ou névoa. Anaximandro chamou-a de “coisa indefinida” ou “coisa ilimitada” (τό άπειρον). Foi Anaximandro quem primeiro formulou uma teoria sistemática da Natureza do mundo — não apenas da matéria de que é feito, mas também do processo de seu crescimento a partir da “coisa ilimitada” para a multiplicidade de coisas definidas. Não nos preocupamos com os detalhes, mas apenas com a concepção mais geral desse processo de crescimento, tal como é descrito no que é quase o único fragmento sobrevivente dos escritos de Anaximandro:
“As coisas perecem e se transformam naquelas coisas das quais nasceram, de acordo com o que está determinado; pois elas se reparam mutuamente e pagam a pena de sua injustiça de acordo com a disposição do tempo.”
Otto Gilbert explicou essa afirmação da seguinte maneira. Temos a ver com três graus de existência.
Primeiro, há as “coisas” (οντα) — a multiplicidade de coisas individuais que vemos ao nosso redor. Estas são declaradas como perecendo nas coisas das quais surgiram. O que são, então, essas coisas secundárias, das quais os objetos naturais surgiram? São os elementos primitivos dos quais todos os corpos são compostos — terra, ar, água, fogo. Esses elementos foram reconhecidos muito antes do início da filosofia. O mundo visível agrupa-se em massas de matérias relativamente homogêneas, cada uma ocupando uma região própria. Há, em primeiro lugar, a grande massa de terra; acima dela, e talvez também abaixo dela, as águas; depois, o espaço do vento, da névoa e das nuvens; e além disso, o fogo ardente do céu, o éter. Esses elementos são as matérias secundárias das quais as coisas individuais nasceram e nas quais se dissolvem novamente.
Mas os próprios elementos não são eternos; nem a separação deles em regiões distintas é mais do que um arranjo transitório. Eles próprios estão destinados a retornar àquilo de onde vieram — o terceiro e último estágio da existência, a “coisa ilimitada”, que só ela é chamada por Anaximandro de “incorruptível e imortal”.
Para resumir o processo de crescimento: a matéria informe e indefinida se separa primeiro nas formas elementares, distribuídas em suas regiões designadas; e então estas, por sua vez, dão origem às coisas e, quando morrem, as recebem de volta.
O primeiro fato importante sobre os elementos é que eles são limitados; o segundo é que estão agrupados em pares de opostos ou “contrários”: o ar é frio, o fogo quente, a água úmida, a terra seca. Esses contrários estão em guerra perpétua entre si, cada um buscando invadir o domínio de seu antagonista. Esse fato em si parece ter sido usado por Anaximandro como prova de que cada um dos elementos deve ser limitado, pois (se algum deles fosse infinito, os demais já teriam deixado de existir a esta altura), pois teriam sido consumidos e destruídos.
A separação dos elementos em suas diversas regiões foi causada pelo “movimento eterno” — que talvez devêssemos conceber como um movimento “giratório” (δίνε) de todo o universo, que separa os opostos da mistura primária, indiscriminada ou “ilimitada”, na qual eles voltarão a se fundir e confundir quando perecerem naquilo de onde surgiram.
Essa cosmologia contém, portanto, três fatores ou representações principais: (1) uma matéria primária (physis); (2) uma ordem, disposição ou estrutura na qual essa matéria é distribuída; (3) o processo pelo qual essa ordem surgiu. No presente capítulo, nos ocuparemos principalmente da segunda dessas representações — o esquema de ordem, que inclui todo o universo em uma classificação primária simples. O ponto que esperamos destacar é que esse esquema não foi inventado por Anaximandro, mas por ele adotado a partir de uma representação pré-científica, e que esse fato explica aquelas de suas características que parecem mais obscuras e gratuitas.
Costa, Alexandre. O caráter trágico da sentença de Anaximandro. ANAIS DE FILOSOFIA CLÁSSICA, vol. 3 nº 6, 2009
A Natureza Inaugural e Ontológica da Sentença de Anaximandro
O Apeiron como Princípio Indeterminado e a Alteridade da Linguagem
A Tensão Dialética dos Contrários e a Unidade do Cosmos
A Necessidade do Devir e a Transitoriedade dos Entes
O Caráter Trágico da Existência e a Ordem do Tempo
O Conhecimento como Auge da Tragédia e a Redenção pela Arte