A tarefa do mago é árdua e perigosa, pois um oráculo da Necessidade, selado por poderosos juramentos, condena ao extravio por 30.000 estações aqueles que mancharam as mãos de sangue, e
Empédocles confessa ser um deles, um “vagabundo exilado dos deuses”.
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Não se pode trazer Deus ao alcance dos olhos nem segurá-lo com as mãos, conforme o fragmento 133.
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O fragmento 115 menciona o oráculo da Necessidade e o juramento que condena ao exílio os daimones que mancharam as mãos com sangue.
O exílio e a vagabundagem de
Empédocles foram uma peregrinação ontológica na qual ele pôde conhecer as transmigrações existenciais e as metempsicoses, permitindo-lhe adquirir o conhecimento de todo o ciclo dos seres.
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O fragmento 117 declara: “… Já fui um garoto, uma garota, uma planta, um pássaro e um peixe mudo que salta sobre o mar.”
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A lenda de sua morte no Etna pode expressar o desejo de completar essa gesta metafísica, pois o fogo foi o único elemento que não o acolheu em suas reencarnações.
O saber de
Empédocles implica uma translocalização e uma trans-temporalização que lhe permitem falar da mistura da qual todas as coisas nascem e para a qual retornam.
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Conhecer é nascer com, e aquele que percorreu o ser tornando-se sucessivamente as negações vivas que são todos os indivíduos pode falar do ciclo dos elementos.
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A morte e o nascimento são apenas associações e dissociações, e o homem é apenas um momento do jogo dos elementos.
Empédocles, como um grande alquimista da existência, percorreu todo o “vinculum substantiale” que serve de veículo ao ser que se mistura a si mesmo, provocando a admiração dos românticos e de Nietzsche.
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O fragmento 111 promete que ele ensinará todos os medicamentos contra a doença e a velhice, permitindo que se detenha a fúria dos ventos, se crie secas ou chuvas e se traga de volta do Hades a alma de um homem já morto.
Empédocles era considerado um taumaturgo que libertou a cidade de Selinunte de uma epidemia de peste, desviando o curso de dois rios para que suas águas vivas levassem os miasmas pestilenciais.
Os gregos não desenvolveram uma técnica evoluída porque consideravam que modificar a ordem da natureza era uma violência passional, um crime destinado a se voltar contra seu autor.
No domínio médico,
Empédocles teria realizado ressurreições, como a de uma mulher que não respirava há trinta dias e que ele teria trazido de volta à vida.
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Heráclides do Ponto relatava que
Empédocles reanimou uma mulher que estava em profunda letargia, sem sopro nem pulso, diferindo de um cadáver apenas por um pouco de calor no meio do corpo.
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Jâmblico relata que
Empédocles usava os encantos da música para exorcizar as paixões mais violentas, tendo acalmado um jovem furioso entoando versos da Odisseia sobre o “nepenthès”, a droga que acalma a dor e a cólera.
As proezas de
Empédocles fizeram dele um verdadeiro deus aos olhos de seus contemporâneos, sendo representado com uma cabeleira espessa coroada de louro, uma roupa púrpura com um cinto de ouro, bandas sagradas de Delfos e sandálias de bronze.
Empédocles foi também um cidadão que participou ativamente dos assuntos da cidade, defendendo a democracia após o restabelecimento das instituições aristocráticas com a morte de seu pai Méton.
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O título de rei lhe foi proposto, mas ele o recusou, permanecendo próximo daqueles que o reverenciavam como um profeta.
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Suas opções políticas podem ser vistas como um prolongamento de suas concepções filosóficas, expressando a Amizade que une e deve se opor ao Ódio que divide.
Diferentes anedotas relatam seu desprezo pelo desejo de distinção social e privilégio injustificado, como quando fez citar em justiça e condenar à execução um anfitrião e um senador que haviam agido com tirania em um festim.
Empédocles deixou Agrigento para visitar várias cidades, tendo sua passagem assinalada em Olímpia, onde fez cantar suas “Purificações” pelo rapsodo Cléomenes.
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Ao retornar por volta de 440 a.C., sua popularidade havia caído e seus inimigos impediram seu retorno, sendo condenado ao exílio.
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Provavelmente compôs sua obra sobre a natureza durante os últimos anos de vida, seguido por seu discípulo Pausânias.
A morte de
Empédocles é incerta, mas a lenda mais grandiosa é a de sua desaparecimento sobrenatural, tendo sido arrebatado da terra para conduzi-lo aos céus após um banquete.
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Outra lenda, que fascinou os românticos, diz que
Empédocles teria se lançado no Etna para se consumir no fogo purificador e retornar ao ciclo das coisas.
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Muitos, como Horácio e Luciano, viram nessa morte uma simples supercheria motivada pela vaidade, orgulho e loucura, sendo provado que ele morreu de morte natural quando o Etna rejeitou uma de suas sandálias de bronze.
A leitura das “Purificações” e do livro “Sobre a Natureza” leva a questionar se
Empédocles foi um filósofo do Ser ou da substância, e se ele imaginou o mundo como uma história que expressa uma Justiça divina e uma Pangenese.
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Busca-se saber se ele quis narrar a odisseia do cosmos em uma gesta ontológica que inicia ao gigantesco amálgama existencial presidido pela vida do organismo chamado Mundo.
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Outra possibilidade é que ele tenha querido estudar a mistura dos elementos primeiros para apreender o princípio das transformações das substâncias umas nas outras.