35 — Eis-me de novo, pronto a lançar-me sobre a rota que meus cantos já percorreram, prolongando por palavras o canal já cavado das palavras.
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Quando o Ódio atingiu no abismo o fundo do turbilhão e que o Amor eclodiu no coração da esfera do mundo, então tudo se confundiu, tendendo à unidade, não em uma só massa, mas segundo vontades e direções múltiplas.
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Assim, por aglutinação as miríades mortais se formaram, enquanto mais de uma espécie escapava à mistura, alternância disjunta nesse impulso em direção à unidade: o Ódio ainda as mantinha separadas, pois ele não se retirara ainda até os longínquos limites da esfera, cujas zonas certas ainda ocupava, todavia já saído dos elementos.
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Mas à medida que ele recuava — lançava-se o imortal Amor, toda doçura e pureza, e logo se tornavam mortais as coisas outrora imortais, misturava-se o que antes não era misturado; tudo mudava de rota.
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E enquanto se fazia a mistura, nasceram as miríades mortais, de formas sempre mais variadas, maravilhosa visão!
36 — Tudo se reunia relegando o Ódio aos extremos limites.
37 — O fogo nutre o fogo, a terra se aumenta de seu próprio corpo, o éter se ajunta ao éter.
38 — Vamos, quero agora revelar-te a origem primeira do sol, a causa que criou o mundo sensível de hoje, a terra e o mar inumerável, o ar úmido, e o éter-titã, que tudo estreita.
39 — Poderia ser que não houvesse fim para a profundidade da terra, e para a imensidão do éter, como tantos mortais o afirmam em um ilhéu de vãs palavras sem nada ver do grande Todo…
40 — Helios de flechas aceradas e, em sua doçura serena, a Lua.
41 — Mas ele rola pelo vasto céu, cercando-o em sua curso.
42 — E quando ele passa acima dela, a Lua lhe oculta seus raios, e recobre a terra de tanta sombra quanta pode portar seu claro rosto.
43 — Mal o brilho de Helios feriu o largo disco da lua…
44 — Helios ferindo o Olimpo, ilumina-o com seu olhar intrépido.
45 — Todo em torno da terra rola a lua, com seu reflexo de mentira.
46 — Ao mais longe do cubo, como a roda de um carro.
47 — A lua contempla face a face o disco sagrado do sol, seu suserano.
48 — A noite nasce da terra que opõe sua massa aos raios de Helios.
49 — A noite deserta de olhos de trevas.
50 — Íris traz do mar o vento e as chuvas abundantes.
51 — Rápido pelo que está aberto jorra o fogo.
52 — Numerosos fogos ardem sob a terra profunda.
53 — O éter em seu impulso revestia formas diversas.
54 — E sob a terra suas longas raízes se enterravam.
55 — Suor da terra — o mar!
56 — O sal se cristalizara, penetrado pelas flechas de Helios.
57 — Então começaram a germinar muitas cabeças sem pescoço e braços separados de seu corpo puseram-se a errar, sem ombros; e olhos privados de frontes, planetas (do mundo do Ódio).
58 — Privados de corpo, os membros, sob o império do Ódio, erravam cá e lá, disjuntos, desejosos de se unirem.
59 — Mas logo que uma divindade se uniu à outra mais estreitamente, viram-se os membros ajustarem-se, ao acaso dos encontros, e outros em grande número sem cessar continuaram a cadeia;
60 — Seres de pés girando durante a marcha, e de mãos inumeráveis.
61 — Outros nasciam com dois rostos, dois peitos, bois de face humana ou, ao contrário, homens de crânio de boi, e ainda os andróginos, de sexo ornado de sombra.
62 — Agora, como a raça dos homens e das mulheres votada às lágrimas germinou na noite sob a ação do fogo quando foi separado, aprende-o de minha boca, pois minha palavra é certeza, meu discurso, experiência. Primeiro, tipos inteiramente formados nasceram do seio da terra, participando ao mesmo tempo da umidade e da chama. O fogo, ávido de lançar-se em direção ao seu semelhante, os fazia crescer, sem que mostrassem em seu corpo a beleza e a graça, nem a voz também, ou o sexo de um homem…
63 — Um violento arrancamento criou os membros, nascidos do homem ou da mulher.
64 — Os olhares despertando sua memória fizeram nascer o desejo que os fundiu em uma mesma unidade.
65 — A semente do macho se espalha no porto cada mês purificado; a fêmea nasce do frio encontrado e do quente nascem os machos.
66 — Nos portos fendidos de Afrodite…
67 — No mais quente do ventre formam-se os machos: não são eles mais morenos, mais fortes e mais peludos que as fêmeas?
68 — Desde o décimo dia do oitavo mês forma-se o pus branco do colostro (do leite).
69 — Duas vezes doadoras de vida. (Ao sétimo e ao décimo mês.)
70 — (O feto), cordeiro aninhado.
71 — Se tua fé hesita ainda em compreender como a mistura da água, da terra, do fogo de Helios e do éter pôde criar as formas e os corpos mortais que nascem hoje tão numerosos dos pares de Afrodite…
72 — e como foram criadas as grandes árvores, os peixes do abismo marinho;
73 — como Kypris outrora, após ter molhado a terra de longas chuvas, deu ao fogo rápido o cuidado de endurecer os corpos que ela modelava…
74 — Afrodite que conduz os bandos cegos dos peixes fecundos.
75 — Bestas de massa compacta, recolhidas em sua concha, e todas moles quando delas saíram, que modelaram no úmido as mãos de Kypris.
76 — Assim as pesadas conchas marinhas, os búzios, as tartarugas de carapaça de pedra, cujo dorso deixa ver uma camada de terra.
77-78 — As árvores sem cessar expandiam suas folhas e seus frutos, guarnecidas de frutos todo o ano.
79 — Assim as árvores esguias põem seus frutos: as azeitonas primeiro.
80 — E as romãs tardias, depois as maçãs cheias de suco.
81 — Apodrecendo sob a casca, a água na madeira se transforma em vinho.
82 — Os cabelos, as folhas, as penas cerradas dos pássaros, as escamas são uma única e mesma substância que cresce sobre os membros resistentes,
83 — e, sobre o dorso eriçado dos ouriços, as cerdas aceradas.
84 — Como um que, meditando caminhar na noite de inverno, preparou sua lâmpada — chama do fogo brilhante acesa em sua lanterna —, eficaz contra o assalto dos ventos, e a luz saltando para fora, tão longe quanto pode, ilumina a sombra de seus raios inflexíveis, assim, prisioneiro das túnicas do olho, o fogo primitivo atravessa a redonda pupila de paredes tênues que retêm cativa a água de que o olho é banhado — e o fogo saltando através tão longe quanto leva para fora seu brilho…
85 — Esta chama alegre não recebeu senão uma parte irrisória de terra.
86 — A divina Afrodite modelou disso os olhos infatigáveis.
87 — Ela os ligou pelas amarras do amor.
88 — Para dois olhos, uma única visão.
89 — Sabe que tudo o que existe tem sua emanação.
90 — Assim o doce busca o doce, o amargo salta em direção ao amargo, o ácido vai em direção ao ácido e o quente é levado em direção ao quente.
91 — A água une-se melhor ao vinho que ao óleo que lhe repugna.
92 — Duros mulos nascidos de sementes moles, como na mistura de cobre e estanho.
93 — A tintura de cochonilha penetra o linho louro. (Ou: ao byssos é misturada a sebe do glauco sabugueiro.)
94 — O negro que se estende na sombria profundidade do rio aparece também nos antros da terra porosa.
95 — Nos primeiros dias, eles nasceram das mãos de Kypris.
96 — A terra bem-amada recebeu em seus vastos cadinhos dois oitavos da fluida e brilhante Nestis, e quatro de Hephaistos: brancos, os ossos formaram-se então, soldados pela Harmonia, maravilhosamente.
97 — A coluna vertebral dos animais que o acaso do nascimento quebrou e voltou em direção à terra.
98 — Mas quando a terra encontrou verdadeiramente em quantidade igual Hephaistos e a chuva e o éter abrasado de luz, ela lançou âncora nos portos perfeitos de Kypris em massas variáveis, e assim se fez o sangue e a carne das diferentes espécies.
99 — O ouvido, nó de carne onde vibra um sino.
100 — Eis como tudo inspira e expira: em todos os seres, canais desprovidos de sangue ramificam-se nas carnes até a superfície do corpo, e em suas embocaduras a superfície extrema da pele é por toda parte perfurada de poros estreitamente cerrados para reter o sangue, licor dos assassinatos — e por seus condutos franquear ao ar uma rota fácil.
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Também quando o sangue flexível recuou, o ar fervilhante precipita-se em ondas furiosas e quando o sangue aflui saltando, o ar é expirado como quando uma criança brinca com uma clepsidra de cobre cintilante: com sua mão graciosa ela tapa o orifício do tubo e o imerge no corpo prateado da água flexível; esta não sobe então no vaso que lhe interdita a massa de ar pressionando no interior contra os furos estreitos até que o fluxo comprimido seja libertado. Então, o ar mal escapado, pode subir a água em uma massa igual. Do mesmo modo, quando a água enche o cobre profundo e que uma mão humana lhe obstrui o orifício, toda passagem interdita, o ar exterior lançando-se cheio de desejo para dentro recalca a água até a estridente embocadura, cuja extremidade bloqueia, até que a mão se tenha retirado: então de novo pela ação do ar que aflui em sentido contrário, a água escorre em uma massa igual.
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Assim o sangue flexível que percorre os membros de seu fluxo violento, quando recua e se lança nas profundezas das carnes, o ar logo aflui por ondas impacientes; mas quando o sangue salta adiante, de novo em quantidade igual, o ar é expulso por ele.
101 — Buscando os abrigos das bestas feras, cuja pista farejam sobre a erva tenra.
102 — Assim tudo o que vive recebeu em partilha o sopro e o odor.
103 — Tudo seja dotado de pensamento — foi a vontade do Destino.
104 — Na medida em que as massas mais leves se tocaram ao cair.
105 — Nutrido pelas altas ondas do sangue estridente o coração traz aos homens o pensamento nas espirais de seu fluxo.
106 — O mundo que se apresenta aos homens aumenta sua sabedoria.
107 — Tudo o que vive construiu assim sua harmonia; assim tudo pensa, goza ou sofre.
108 — Para toda vida diferente o pensamento também se faz, em sonho, diferente.
109 — Pela terra, pela água, pelo ar em nós, conhecemos a terra, a água, e o éter divino, e pelo fogo, o fogo devorador, e o amor pelo amor, o ódio pelo ódio maldito.
109 a — Tudo de que o espelho acolhe a emanação, imagem em harmonia com as pupilas…
110 — Se na trama cerrada de teu pensamento compreendes claramente minhas lições, se, de um espírito puro, te deixas iniciar, então meus segredos serão teus para sempre, e muitos outros por eles te virão: pois deles mesmos eles aumentam no homem, cada um segundo sua natureza.
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Mas se tu queres conhecimentos diferentes, como aqueles que, por miríades, acabrunham os homens embotando sua atenção ansiosa, esses, enquanto se desenrolam os ciclos do tempo, te deixarão, pois desejam reunir-se à sua própria espécie.
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Tudo, sabe-o, possui a inteligência e sua parte de pensamento.
111 — Todos os filtros que aliviam doença e velhice, aprende-os. Para ti só os quero pôr em obra.
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Tu domarás os ventos potentes, infatigáveis, que, erguidos em tromba, acima da terra, devastam as lavouras; e de novo segundo teu querer, tu reconduzirás as brisas benfazejas.
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Tu darás aos homens após a sombria chuva a secura propícia, após o verão árido, as águas fecundas, nutrizes da árvore e das messes futuras.
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Tu reconduzirás a alma de um morto da casa das Trevas.