A imanência é fácil de apreender: pode-se dizer de Zeus o que se disse do fogo, ou seja, que é o deus que é conflito, discórdia, tanto quanto paz.
-
Na estrada de baixo, esse deus se esparrama e se dispersa na infinidade dos seres que participam de sua substância; na estrada de cima, ele se purifica, torna-se novamente fogo e passa, no limite, para uma perfeita unidade, o inteligível puro, o relâmpago que aceita o nome de Zeus.
-
O logos diz unificação, unidade, mais do que rassemblement, sendo um movimento de concentração do idêntico sobre si.
-
As alternâncias de saciedade e indigência são as duas fases de um movimento análogo ao sopro de um vivente que aspira e que exala: concentração até a conflagração universal, onde tudo coincide na plenitude do fogo, na instantaneidade do raio que governa o universo, e desconcentração onde se inscreve a história das metamorfoses do fogo no empobrecimento do múltiplo.
-
O fogo é perfeitamente imanente, não encerrado em nenhum dos seres do cosmos, mas perfeitamente idêntico ao todo, que se concentra, por alternâncias, no raio.
-
O fogo torna-se inteligível e chama-se então logos, mas a alma humana mesma, onde esse logos está presente, não o encerra em suas fronteiras, pois o logos que lhe é próprio é um logos que aumenta ele mesmo.
É justamente essa imanência do fogo que se revela então como transcendência.
-
O fogo transcende cada ser porque é imanente a todos, permanecendo ele mesmo ao ser todas as coisas, e como tal é o pensamento que governa o todo por meio do todo.
-
Se ele recusa o nome de Zeus quando percorre o ciclo, ele o aceita enquanto cria o círculo que traça em suas metamorfoses.
-
Ele é o fogo para o qual se elevam todos os seres e do qual eles descem, no círculo onde as duas estradas, de cima e de baixo, passam uma na outra.
-
O deus é a totalidade desse círculo, porque é a própria medida dele, sua tensão, seu limite, e essa medida é pensamento puro, logos supremo que vigia mais ciosamente os ciclos do fogo do que as Erínias a corrida do sol.
-
Ele é a causa que organiza e regulariza, absolutamente puro e separado de tudo, justamente porque idêntico a esse todo.
-
Substância inteligível, o deus de
Heráclito é ao mesmo tempo, e como substância, providência, pensamento regulador; ele é a inteligência que torna inteligível a identidade do diverso que se concentra nele.
-
Citação do fragmento 108: De todos aqueles que ouvi discorrer, ninguém chega a este ponto: dar-se conta que existe uma sabedoria separada de tudo.