Harmonia
Abel Jeannière
O movimento traz em suas criações uma harmonia que os sentidos nem sempre discernem, mas que o pensamento deve se aplicar a descobrir.
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Citação do fragmento 30: O fogo sempre vivo se acende com medida e se apaga com medida.
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Coloca-se a questão de saber se essa harmonia é a de um conjunto apreendido em sua totalidade ou de uma lei que vale em cada ser desse conjunto, e se é a história do mundo que torna harmonioso o terremoto ou a onda gigante, ou antes a harmonia das leis físicas que produziram esses cataclismos.
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A harmonia depende do jogo dos opostos.
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Se a unidade não é um verdadeiro nascimento dos extremos um pelo outro, mas uma simples mistura proporcionada de contrários, permanece-se no nível da experiência sensível, como quando se afirma que é a doença que torna agradável e boa a saúde, a fome a saciedade, o cansaço o repouso.
Os graus da harmonia
A harmonia de contrários que se complementam mutuamente não tem mais nada de dialético, sendo aquela do encaixe que se adapta à caixa.
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Dizer que o mal apimenta o bem não é mais afirmar que lhe é idêntico.
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O que é talhado em sentidos contrários se ajusta.
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Citação do fragmento 8: Do que difere nasce a mais bela harmonia; e é a discórdia que produz todas as coisas.
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Às vezes,
Heráclito distingue nitidamente dois planos: uma harmonia que exige o concurso do justo e do injusto (não se saberia nem mesmo o nome da justiça, se não houvesse injustiças) e outra harmonia que aparece aos olhos de quem sabe a identidade do justo e do injusto (para Deus, tudo é belo e bom e justo; os homens tomam certas coisas por justas, outras por injustas).
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Ele nomeia esses planos: uma harmonia invisível é superior à harmonia visível, e a harmonia dinâmica vale melhor que a harmonia estática, pois o dinamismo, sendo o próprio ser, faz aparecer a passagem de um oposto no outro.
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A harmonia existe sempre, mesmo lá onde é invisível, como a harmonia da batalha de Waterloo escapa a Fabrice que não pode seguir seu desenrolar em sua totalidade.
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Para aquele que não olha o mundo com os olhos de Zeus, o mais belo ordenamento do mundo é como um monte de lixo reunido ao acaso.
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Basta pensar que o ser é movimento para que todos esses aforismos resplandeçam em outra luz.
A oposição dos contrários e a teodiceia
A oposição dos contrários engendra uma harmonia superior àquela que a concórdia estabelece entre os seres que se assemelham.
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É a primeira vez que aparece na história uma ideia que presidirá a concepção de muitas teodiceias, quando a providência divina (que
Platão já defende nas
Leis) se chocar com o problema do mal e a experiência do mal e da injustiça.
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Duas sentidos permanecem sempre possíveis, e as teodiceias optarão com demasiada frequência por uma harmonia de contrastes, uma harmonia de luz e sombra onde a sombra sublinha a luz e se guarda bem de negá-la.
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Equilibrado como um quadro de mestre, o universo cheio de conflitos e desastres dá mais glória ao criador que o fez harmonioso através de todas essas contradições, mas isso pode ser um refúgio ilusório para uma razão que não quer se resignar ao absurdo.
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A ideia de
Heráclito é que a concórdia está no conflito que engendra a harmonia ao mesmo tempo que as contradições, o que já é amplamente suficiente para escapar ao senso comum.
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Citação do fragmento 51: Eles não compreendem como o discordante se acorda consigo mesmo, acordo de tensões inversas, como no arco e na lira.
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A flecha parte, a frase musical se desenrola, quando as mãos do arqueiro tendem em sentido inverso o arco e a corda, quando os dedos do músico afastam umas das outras as cordas da lira.
O movimento como imagem da harmonia
É preciso dizer ainda, para além da ambiguidade (seja uma verdadeira dialética ou um jogo de contrários relativos), que o movimento é pelo menos a imagem da harmonia.
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Mesmo que se permanecesse no plano empírico, não seriam os sentidos que perceberiam essa harmonia do sensível.
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Mesmo como mistura e dosagem, a harmonia heraclítica só poderia desabrochar no dinamismo e no movimento; aqui, os sentidos só podem ser causas de ilusões, pois têm uma propensão a se deter nos termos do movimento.
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Ver o movimento apenas por seu termo conduz a fixar o ser que o movimento engendrou e a conceder um valor absoluto à posição desse termo.
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Ao contrário de
Protágoras,
Heráclito vê o conhecimento ali onde os sentidos são causa de erro, pois eles dão às coisas a aparência da duração e da unidade.
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Citação do fragmento 107: Maus testemunhas são os olhos e os ouvidos dos homens, se eles têm almas bárbaras.