Heráclito (Jeannière)

Abel Jeannière

«Heráclito realiza a gigantesca síntese com que sonhavam seus antecessores. Nenhuma oposição é tão bem respeitada quanto superada. A Unidade suprema é, para ele, tão transcendente quanto o Ápeiro de Anaximandro, sem, no entanto, ser estranha à inteligência como o deus de Xenófanes, e não é menos imanente aos seres da experiência do que a água de Tales ou o ar de Anaxímenes. O movimento que Anaximeno utilizava no plano fenomênico para uma explicação ao mesmo tempo mítica e mecânica do mundo torna-se aqui uma realidade metafísica; é um princípio da mesma forma que o fogo… Prometeu não passava de profeta desse fogo que Heráclito traz do céu. É o destino que o homem arrebata definitivamente a Zeus. A metafísica nasceu.

Ela nasceu, mas permanece ligada a um realismo exagerado. O pensamento de Heráclito está voltado para a coisa, inteiramente abandonado a um mundo inteligível, diluído, como o próprio fogo, nas coisas. Não se deve nem menosprezar Heráclito, nem heraclitizar a partir dos fragmentos. Heráclito não conhece verdadeiramente nem a liberdade, nem a pessoa, nem o homem, nem o deus, nem a consciência de si, nem mesmo o logos no qual ele envolve o espírito como em fraldas. Mas sua síntese comporta duas descobertas de valor extraordinário para o futuro da filosofia. Ele coloca o movimento fora do mundo sensível e chega assim ao verdadeiro sentido do Um; ele conhece o valor da negação no conhecimento, sem ainda distingui-la do não-ser relativo da coisa. (Abel Jeannière, O pensamento de Heráclito de Éfeso, Aubier, 1959, p. 92-93.)

A. Jeannière explica: «Não há outro pensamento senão a comunhão com o logos comum, diz Heráclito; é preciso que o conhecimento seja moldado ao ser, ora esse ser é movimento, esse ser é dialética, o não-ser também existe de certa forma, ou melhor, só existe esse equilíbrio fugaz entre ser e não-ser: o movimento. E porque o pensamento imita o ser, porque deve ser idêntico ao ser, todo julgamento inclui uma negação; é preciso negar para conhecer” (ib. 94-5).

Sem dúvida, tomou-se a precaução de escrever (mas teria sido uma precaução suficiente?): «Se é permitido projetar sobre Heráclito e sobre Parmênides a luz que nos chega dos pensamentos posteriores de Platão e de Aristóteles, é apenas na medida em que essa luz nos ajuda a decifrá-los em si mesmos e manifesta a extensão e o alcance de sua filosofia; mas é preciso guardar-se de toda deformação, é preciso guardar-se sobretudo de resolver… com princípios que eles desconhecem os problemas que eles mesmos se colocam ou que colocam aos seus leitores modernos” (p. 94).


Prefácio do autor

“O que consegui entender me parece fantástico; quanto ao resto, que não entendi, acredito que seja igual, mas precisaria de um bom nadador de Delos para me ajudar a interpretar.”

A datação da vida de Heráclito é situada no início do século V a.C., aproximadamente quarenta anos após Xenófanes de Cólofon, segundo Apolodoro.

Não se considera muito proveitoso buscar uma ordenação, mesmo parcial, dos fragmentos que chegaram até o presente.

A crença de que a realização de um projeto é mais assegurada quanto mais restrito e parcial ele é pode ser perigosa.

A análise dos fragmentos de Heráclito, comparada a uma análise química, é considerada necessária, mas apenas se conduzir à ressurreição de um pensamento vivo.

Não se considera uma ambição desmedida querer determinar as linhas principais do sistema e também reencontrar, se possível, a intuição fundamental.

Coincidir com Heráclito em sua própria linguagem seria uma aposta ilusória, sendo necessário arriscar uma transposição hipotética.

As palavras de Heráclito possuem uma riqueza de sentido que impede sua tradução em uma única palavra especializada, exigindo uma retomada do fragmento em diferentes planos.

O trabalho de tradução e estabelecimento do texto é tão amplamente empreendido que uma simples referência é frequentemente suficiente.