KAHN, Charles H. The art and thought of Heraclitus: an edition of the fragments with translation and commentary. Cambridge New York Port Chester [etc.]: Cambridge university press, 1989.
Cada época e perspectiva filosófica, de Crátilo aos neoplatônicos e aos Padres da Igreja, projetou seu próprio significado sobre o texto de Heráclito — fenômeno familiar na história das ideias, mas agudamente intensificado pela qualidade ambivalente e enigmática dos enunciados do Efésio.
A tarefa de recuperar o Heráclito autêntico, isto é, de atingir uma interpretação unicamente correta, é uma empresa que nunca pode ter êxito — além do problema do “cebola” em que retirar todas as camadas de interpretação pode não deixar nada, há o problema fundamental de que o leitor é ele próprio um ser histórico que só vê o que é visível de onde está.
O sentido histórico obriga a abandonar a ideia de um ponto de vista atemporal do qual uma imagem unicamente verdadeira de Heráclito pudesse ser obtida — qualquer abordagem lúcida será explicitamente hermenêutica.
A interpretação não é um jogo sem regras — antigas e modernas leituras de Heráclito foram profundamente equivocadas por não fornecerem um quadro conceitual apropriado para extrair o sentido do texto.
A ênfase recai sobre o duplo significado da obra de Heráclito: como artista literário e como pensador filosófico de primeira grandeza — e a contribuição da artística literária ao significado da doutrina, geralmente negligenciada, é o objeto primário do comentário.
A interpretação se apoia em três princípios: a densidade linguística dos fragmentos individuais e a ressonância entre eles são os dois fundamentais, sendo o terceiro — uma disposição significativa dos fragmentos — talvez apenas um dispositivo de conveniência expositiva.
A ressonância aparece em muitas formas diferentes — da repetição da mesma palavra, como as dez ocorrências de logos em nove fragmentos diferentes, até a recorrência de uma mesma imagem ou tema em palavras distintas.
O efeito da prolepse — brevíssima enunciação inicial de temas que se desenvolverão gradualmente, do enunciado enigmático à declaração clara, do enigma à solução — domina a estrutura da exposição de Heráclito como domina a Oresteia de Ésquilo, segundo Ana Lebeck.
O segundo princípio — a densidade linguística — é essencialmente o fenômeno da ambiguidade significativa: o uso da indeterminação lexical e sintática como dispositivo para dizer várias coisas ao mesmo tempo.
A leitura primária de um texto é a interpretação que parece mais natural na primeira leitura; uma ou mais leituras secundárias podem ser necessárias para resolver problemas levantados pela leitura primária, para considerar palavras ou construções equívocas, ou para evidenciar uma conexão de linguagem ou imagem entre esse texto e outros fragmentos.
A primeira sentença do livro de Heráclito — “deste logos que é, sempre os homens permanecem incapazes” — ilustra exemplarmente o método: o advérbio aiei — “sempre, eternamente” — pode ser construído com o que precede (“este logos é eterno”) ou com o que segue (“os homens sempre falham em compreender”).
O procedimento de reconhecer duas ou mais “leituras” distintas é apenas um dispositivo hermenêutico para esclarecer a densidade semântica do texto — e as leituras fragmentárias de frases ou sentenças particulares são melhor consideradas como instrumentos de trabalho para apreender e reconstruir o significado global, uma espécie de escada a ser abandonada uma vez que a meta da compreensão tenha sido alcançada.