Heráclito (Ramnoux)

Clémence Ramnoux

Prefácio (Maurice Blanchot)

Há uma moda dos pré-socráticos que consiste em se reunir em torno de seus escritos raros como crentes em torno da Escritura sagrada, e outra moda que consiste em denunciar essa moda, sem que tais movimentos pareçam muito perigosos.

A direção de pensamento à qual respondeu o projeto de tal livro é indicada.

Quando se traduz Dia Noite, Relâmpago Palavra com os nomes comuns dos modernos, já se vai contra o sentido, porque os nomes modernos não foram abstraídos da mesma maneira.

Quando aparece, por volta do século VI, entre as pessoas tradicionalmente habilitadas a falar, uma espécie toda nova de mestres em palavra, os inventores dos discursos da natureza, essa aparição seria menos inesperada e menos decisiva por estar em continuidade com o passado?

Clémence Ramnoux fala justamente de uma mutação, na qual nasce um homem, e essa mutação pode ser tecnicamente lida em alguns traços.

Com Heráclito, essa transformação é apreendida no momento em que carrega ao mesmo tempo toda a gravidade da linguagem sagrada a partir da qual se faz e toda a força de abertura da linguagem severa que ela entrega, de repente mas não sem reserva, a um futuro de verdade.

Se o homem desperto é aquele que não esquece de ler em parte dupla, seria ler Heráclito dormindo ver em suas palavras tão rigorosamente arranjadas apenas arranjos de palavras.

Que as coisas estejam lá, quando Heráclito está lá, disso se é constantemente advertido.

Em familiaridade com as coisas, não menos do que com as palavras, Heráclito o foi, e não teve preocupação de se enclausurar numa estética da palavra pela palavra.

Um médico antigo censurava Empédocles por ter emprestado da composição plástica sua maneira de conceber a composição cósmica.

Heráclito, sendo aí sua obscuridade e aí sua claridade, não recebe menos palavra das coisas do que das palavras, falando ele mesmo com umas como com outras e, mais ainda, mantendo-se entre os dois, falando por esse entre-dois e o afastamento dos dois, que ele não imobiliza, mas domina, porque está orientado para uma diferença mais essencial.

O que é linguagem, o que fala essencialmente para Heráclito, nas coisas e nas palavras e na passagem, contrariada ou harmoniosa, de umas aos outros, enfim em tudo o que se mostra e em tudo o que se esconde, é a própria Diferença, misteriosa, porque sempre diferente do que a expressa e tal que não há nada que não a diga e não se relacione a ela dizendo, mas tal também que tudo fala por causa dela, que permanece indizível.

Pela boca do poeta Baquílides, Apolo tinha dito a Ádmeto: Tu não és senão um mortal; também teu espírito deve nutrir dois pensamentos ao mesmo tempo.