FRAGMENTO 2

Eudoro

2. «Pois bem; vou dizer — e tu acolhe as minhas palavras depois de as escutar — quais são os caminhos da inquirição, os únicos pensáveis. Um caminho: 'que é' e não é possível não ser. Esta é a via da persuasão (e a persuasão acompanha a verdade). Outro caminho: 'que não é' e necessariamente (existe) o não-ser. Por esta via, digo-te eu, nada se pode aprender; pois nem poderias tu conhecer o não-ente (porque não é possível) nem dizê-lo.»

Brun

«Vem agora, vou-te dizer — e tu presta atenção às minhas palavras e guarda-as em ti mesmo — as duas únicas vias de procura que se podem conceber. A primeira, a saber, que o ser é e que é impossível para ele não ser, é a via na qual se deve confiar, pois segue a Verdade. A segunda, a saber, que o ser não é e que o não-ser é necessário, esta via, eu to digo, é um caminho onde não se encontra nada em que se possa confiar.»

Gredos XII

«Pues bien, te diré, escucha con atención mi palabra,
cuáles son los únicos caminos de investigación que se puede pensar;
uno: que es y que no es posible no ser;
es el camino de la persuasión (acompaña, en efecto, a la Verdad);
el otro: que no es y que es necesario no ser.
Te mostraré que este sendero es por completo inescrutable;
no conocerás, en efecto, lo que no es (pues es inaccesible)
ni lo mostrarás.»

Cassin

Vem que enuncio — mas tu, encarrega-te do relato que terás ouvido —
quais vias de investigação são únicas a pensar:
uma que é e que não é não ser,
é o caminho da persuasão, pois ele segue a verdade;
outra que não é e que é necessidade de não ser,
esta, eu te indico que é uma trilha de que não se pode nada saber
pois tu não poderias conhecer isto que, em todo caso, não é (pois não se pode chegar à conclusão)
nem exprimi-la

Kingsley

Farei a fala; e cabe a ti
levar minhas palavras uma vez as tenha ouvido.
O que te direi é que caminhos de inquirição,
e que caminhos somente, existem para o pensar.
O único caminho, que é, e não é possível não ser,
é o caminho da Persuasão; pois a Persuasão é
o atendente da Verdade. E quanto ao outro,
que não é, e é necessário não ser:
este, posso te dizer, é um caminho do qual nenhuma notícia
retorna. Pois não há maneira que possas reconhecer
o que não é — não há nenhum viajar este caminho —
ou dizer algo sobre ele.

Comentários

Brun

Parmênides fala, portanto, explicitamente de duas vias: a via da verdade, que diz como o ser é, e que é impossível que ele não Seja; a segunda, que diz que o ser não é e que o não-ser é necessário, via que não oferece qualquer saída.

Os intérpretes tradicionais (o que não quer dizer que sejam os menos perspicazes) dizem que não havia outro meio para Parmênides de se recusar a pensar o não-ser senão afirmar que não se deve pensar nele. Mas, na Introdução à Metafísica, Heidegger pretende que, afinal, dizendo que não é preciso pensar o não-ser, Parmênides pensa-o e eleva, assim, o pensamento do não-ser a uma espécie de conhecimento. Para Heidegger, devemos ter um conhecimento desta via intacta, que não podemos pisar, nisto, que ela conduz ao não-ser. Eis, segundo Heidegger, o mais antigo ensinamento da filosofia acerca do facto de que, ao mesmo tempo que a via do Ser, a via do Nada deve ser pensada e, sempre segundo Heidegger, ignora-se tudo na questão do Ser, quando se diz que o Nada não é nada. Por mais interessante que seja, esta interpretação é discutível, mas tem o mérito de nos esclarecer sobre o pensamento do próprio Heidegger.

Um outro problema se pôs aos comentadores de Parmênides: não haveria ali lugar para uma terceira via? Na segunda parte do poema (i.é, a partir de VIII, 50), trata da via da opinião e tudo é apresentado sob a categoria da dualidade:

«Aqui ponho fim ao meu discurso digno de fé e à minha consideração que abarca a verdade», prossegue a Divindade, que acaba de falar da via do Ser, «aprende, a partir daqui, o que os mortais têm em vista, e presta atenção à ordem enganadora das minhas palavras. Os mortais têm, com efeito, dado a sua confiança à nomeação de duas formas, uma das quais não deveriam nomear, e é neste ponto que eles se afastam da verdade. Julgaram-nas opostas quanto à forma e deram-lhes sinais diferentes uns dos outros». É por isso que os homens pensam que todas as coisas estão cheias ao mesmo tempo de Luz e Treva.

Parece, pois, que nos encontramos perante uma terceira via, a da opinião, que não seria nem a via do Ser nem a do Não-Ser. Para numerosos comentadores, por exemplo Jean Wahl, esta terceira via seria apenas uma variante da segunda e seria, de qualquer modo, a via do erro. Para Nietzsche, esta segunda parte do poema corresponderia a uma primeira filosofia de Parmênides, próxima de Anaximandro. Zeller e Gompers pensam que nos encontramos em face de um desenvolvimento no qual Parmênides nos dá conhecimento do que seria a sua compreensão do mundo, se adotasse o ponto de vista do senso comum. Para Diels, tratar-se-ia da exposição de uma teoria que Parmênides criticaria, a de Heráclito, que pertenceria ao número dos pensadores bicéfalos de que se fala em VI, 5. Burnet pensa que Parmênides visa antes os pitagóricos. Uma interpretação original e que fez época na história do eleatismo é a de Karl Reinhardt , que recusa as leituras precedentes e faz da opinião o resultado de uma queda original. Daí viriam os erros das nossas representações, de que poderíamos isentar-nos contemplando a verdade.

Heidegger insiste na importância da interpretação de Reinhardt , o qual, em seu entender, compreendeu e resolveu o problema tão debatido da relação entre as duas partes do poema de Parmênides. Mas não teria posto em evidência o fundamento ontológico e a necessidade da relação entre a Verdade e a Opinião. Na Introdução à Metafísica , Heidegger retoma o problema e pretende que a via da opinião seria completamente diferente da segunda e constituiria uma terceira via, a do aparecer, que seria tudo menos a aparência. Esta via seria a do aparecer, enquanto via do ente que aparece de tal ou tal ponto de vista, seria a via dos pontos de vista, a via do aparecer, experimentado como pertença do Ser. Tal aparecer não seria mais que a Natureza, enquanto manifestação e eclosão do Ser. E pode afirmar-se do aparecer que pertence e não pertence ao Ser, porque, para Heidegger, o pensamento de Parmênides não seria afastado do pensamento de Heráclito, para quem «a natureza gosta de se esconder». Por conseguinte, ainda segundo Heidegger, o homem que verdadeiramente sabe seria aquele que percorre as três vias: a do Ser, a do Não-Ser e a do Aparecer. Importaria finalmente unir as três vias numa espécie de operação nietzschiana ou hegeliana.

Ainda aqui podemos dizer que Heidegger interpreta Parmênides em função das suas preocupações filosóficas e procura ver nele um dos seus precursores. Seja como for, atenta a ambiguidade de muitas passagens do texto de Parmênides e o estado mutilado em que nos chegou o poema, talvez não se possa fazer melhor que meditar nas reflexões que pôde sugerir a quantos o leram.

Kingsley

Sem sentido é o que este fragmento soa. E sem sentido é o que ele é, porque nada há aqui que tenha que ver com nosso mundo familiar dos sentidos. O que Parmênides está dizendo vem de outro mundo.

As pesquisas arqueológicas na cidade natal de Parmênides, Velia, indicam sua associação aos chamados iatromantis e aos procedimentos de iniciação destes curandeiros-profetas como seguidores de Apolo. A linguagem dos iatromantis é uma forma de expressão em charadas, assim como os oráculos de Apolo eram sempre sobre a forma de charadas.

Ao mesmo tempo era prática se utilizar expressões dos grandes do passado, como Homero ou Hesíodo. Assim a expressão “um caminho do qual nenhuma notícia retorna”, significaria algo muito específico para qualquer grego daquela época. Naqueles dias ouvir notícias sobre alguém era considerado prova de que a pessoa estava viva. O silêncio dizia morte; e na poesia de Homero qualquer um sobre “nenhuma notícia retorna” era simplesmente alguém que se assumia estar morto.

Por esta razão o caminho do “não é” de Parmênides, do qual nenhuma notícia retorna, é o caminho levando ao silêncio da não-existência e morte. Se a isto adicionarmos que para os gregos, assim como para nós, “não ser” é um modo velado mas autoevidente de referir à morte, e teremos a figura completa.

Parmênides foi conduzido ao submundo, pelo caminho da morte, e da deusa que o acolhe recebe a mensagem a ser trazida a respeito dos dois caminhos. Caminhos estes já reconhecidos pela antiga iniciação dos seguidores de Apolo: um caminho que conduz à vida real, à verdade (aletheia) e outro que conduz ao esquecimento (lethe) e morte, a se sucumbir no silêncio da não-existência.