Carneiro Leão, “O pensamento originário”, Revista Tempo Brasileiro n°47
PENSAMENTO ORIGINÁRIO é o título de um questionamento que procura pensar o pensamento dos primeiros pensadores gregos. TALES, ANAXIMANDRO e ANAXíMENES, ZENAO e XENÓFANEs, HERÁCLITO e PARMÊNIDES viveram aproximadamente entre os fins do século VII e os meados do século V antes de Cristo.
1. Já foram intitulados de Pré-aristotélicos, Pré-platônicos e Pré-socráticos. Sob a correção cronológica do prefixo, pré-, se escamoteia numa perplexidade de pensamento. Em Sócrates, Platão e Aristóteles se inaugura uma decisão Histórica. A decisão das diferenças que, sendo já em si mesma metafísica, instala c domínio da filosofia em toda a História do Ocidente.
Trata-se de uma decisão que vive da perplexidade em pensar a identidade como identidade e não como igualdade, isto é, que vive da dificuldade de se encontrar com a identidade no próprio seio das diferenças. Esta decisão, ao instituir as dicotomias de um comparativo ontológico, se pronuncia pelo ser contra o nada, pela essência contra a aparência, pelo bem contra o mal, pelo inteligível contra o sensível, pelo permanente contra o mutável, pelo verdadeiro contra o falso, pelo racional contra o animal, pelo necessário contra o contingente, pelo uno contra o múltiplo, pela sincronia contra a diacronia. No poder de seu jogo é uma decisão que se decide pela filosofia contra o pensamento.
Esta decisão metafísica não é um presente para sempre passado nem se reduz a simples fato de um passado encoberto pela poeira de dois mil e quatrocentos anos. É mais do que objeto de curiosidade historiográfica. Mais do que uma relíquia no museu do Ocidente. É um passado tão vigente que constitui a fonte donde vivemos hoje, a tradição, que nos sustenta. Seu vigor Histórico promoveu as transformações, as experiências e as interpretações de quase 25 séculos. Deu lugar a motivos orientais. Concebeu o Cristianismo. Provocou o Humanismo, o Esclarecimento e a Ciência Moderna.
É esta mesma decisão que estabelece até hoje a filosofia de Sócrates, Platão e Aristóteles como critério na escolha, interpretação e avaliação dos primeiros pensadores gregos. Os problemas, as concepções e os conceitos de Sócrates, Platão e Aristóteles, transformados pelas ciências modernas, servem de parâmetro para se medir o nível filosófico de todos os gregos de antes e depois da segunda metade do século V. Em pacientes pesquisas filológicas, historiográficas e lingüísticas busca-se reconstruir a lógica, a ética e a física arcaicas sem se levar em conta que só há uma lógica, uma ética e uma física na tradição de ensino das escolas clássicas. Não se permite, que os primeiros pensadores gregos sejam pensadores. Têm de ser filósofos, iguais a Sócrates, Platão e Aristóteles, ainda que só o sejam de forma arcaica, isto é, primitiva. Por isso mesmo só podem ser pré-socráticos ou préplatônicos ou pré-aristotélicos. Assim, nestes títulos, o pré- não possui apenas sentido cronológico mas sobretudo axiomático. É o axioma de implantação da filosofia na decadência do pensamento.
2. Não é possível pensar o pensamento dos primeiros pensadores gregos só com os recursos da ciência e da filosofia. Toda historiografia já é sempre uma filosofia da história, quer o saiba ou não. Uma investigação de pensamento, que não pretender negar-se a si mesma como pensamento, tem necessariamente de ser uma restauração da mesma empresa. “Mesma”, no entanto, não diz aqui igual. Diz idêntica nas vicissitudes de mundos diferentes. Quem na interpretação de um pensamento se ativer exclusivameme aos textos e se limitar apenas ao sentido objetivo, destruirá precisamente o que constitui o vigor de seu esforço de pensar. As palavras e os textos são função do pensamento, como este é função do que, provocando a pensar, o toma possível como pensamento. Não há outra maneira de se interpretar um pensamento do que pensá-lo nas relações de identidade e diferença com a coisa de suas próprias virtualidades. Apreender-lhe o .vigor Histórico será sempre um esforço de abrir, através do diálogo, horizontes diferentes para um novo principiar do mesmo mistério. Por isso a História do pensamento é uma tarefa exclusiva de pensadores. [109]
Neste sentido a presente investigação não quer ser uma obra de historiografia filosófica. Pretende levar a sério que os primeiros pensadores gregos são pensadores e não filósofos. O destino Histórico de seu pensamento não provém da objetividade dos conhecimentos mas do vigor do pensamento. Por isso o caminho a seguir é o caminho de um diálogo a partir da própria coisa do pensamento. Procurar-se-á atingir o centro do diálogo para da perspectiva central entender e interpretar os fragmentos. Pois, de que outra maneira poder-se-ia apreender-lhes o pensamento senão pensando?
No horizonte deste questionamento o pensamento dos primeiros pensadores gregos revela uma profundidade atual em que as questões arroladas e as preocupações moventes acenam para o mistério vigente de sua verdade, de outro modo imperceptível. Em consequência, se encolhe a distância cronológica de mais de dois mil e quinhentos anos, que deles nos separa. A estranheza destes pensadores deixa de nos ser externamente estranha para afirmar-se como nossa própria estranheza. É então que nos sentimos conosco quando estamos com eles. Pensar o pensamento dos primeiros pensadores já não equivale a pesquisar nos fragmentos legados as ideias que passaram pelo cérebro de gregos dos séculos VI e V antes de Cristo. Será experienciar a decadência planetária de pensamento em que hoje nos debatemos. Trata-se de uma decadência tão decadente que grande é o risco de perdermos até as condições de identificar a decadência e apreciá-la como decadência.
3. No século VI a religião, a política, a educação gregas exercem determinada consciência da poesia e mitologia. Όμηρος την Ήλλάδα πεπαίδευκε [Houmeros ten Hellada pepaideuke]. Prisma e espelho, nesta consciência se refletem e analisam as peripécias de verdade e não verdade da existência grega. Denunciando a miopia da consciência vigente, os primeiros pensadores se lançam a pensar reciprocamente as diferenças de religião e política, de educação e habilidade, de poesia e mito pela identidade do pensamento, pensando a compertinência de ser e pensar. Para nós, filhos do petróleo e da técnica, tardos em pensar, se tomou ainda mais difícil este mistério da identidade numa época de poluição e consumo. E por quê? — Porque temos os ouvidos tão poluídos de ciência e filosofia, temos os olhos tão consumidos pelas utilidades que já não podemos ver o mistério da pobreza nem ouvir a voz do silêncio no alarido do desenvolvimento. Desconhecemos o [110] paradoxo da revolução do pensamento. Já quase não temos sensibilidade para as vibrações de nosso destino. E isso, não tanto porque, absorvidos pelas solicitações do consumo, quase não pensamos, mas sobretudo porque, quando pensamos, quase inevitavelmente o fazemos nos moldes da filosofia e da ciência.
Bornheim, BORNHEIM1967
Se compreendermos a Filosofia em um sentido amplo — como concepção da vida e do mundo —, poderemos dizer que sempre houve Filosofia. De fato, ela responde a uma exigência da própria natureza humana; o homem, imerso no mistério do real, vive a necessidade de encontrar uma razão de ser para o mundo que o cerca e para os enigmas de sua existência. Neste sentido, todo povo, por primitivo que seja, possui uma concepção do mundo. Mas se compreendermos a Filosofia em um sentido próprio, isto é, como o resultado de uma atividade da razão humana que se defronta com a totalidade do real, torna-se impossível pretender que a Filosofia tenha estado presente em todo e qualquer tipo de cultura. O que a História nos mostra é exatamente o contrário: a Filosofia é um produto da cultura grega, devendo-se reconhecer que se trata de uma das mais importantes contribuições daquele povo antigo ao mundo ocidental.
A Filosofia teve o seu inicio nas colônias da Grécia, nos séculos VI e V a.C. Assim, a filosofia grega se desenvolve da periferia para o centro, concentrando-se em Atenas somente mais tarde, com os sofistas e os filósofos chamados socráticos. E aqui devemos acenar a um primeiro problema importante: o da origem da filosofia grega e a influência do Oriente. A florescente navegação e a rica atividade comercial das colônias jónicas da Ásia Menor punham-nas em contato com os povos do Egito, da Fenícia e da Mesopotâmia, e a influência destes povos vizinhos sobre o processo de formação da filosofia grega não pode ser ignorada
A opinião dos autores sobre este problema, sobretudo no século passado, debatia-se entre duas teses extremas: a primeira afirma que a Grécia trouxera do Oriente todos os principais conteúdos de sua cultura, e assim sendo, seria ela destituída de originalidade maior, mesmo em relação à Filosofia. E a segunda tese faz o elogio do “milagre grego”, defende a independência do gênio helénico, considerando-o uma espécie de produto exótico dentro do panorama bárbaro dos povos antigos. São teses exacerbadas, que hoje vêm sendo substituídas por uma visão mais equilibrada.
Sem dúvida, os gregos sofreram a influência de outros povos. Todo povo desenvolve certas ideias sobre a vida e o mundo, desdobra certas concepções sobre a alma, sobre a origem do mundo a partir do caos, sobre os ciclos cósmicos e a unidade do universo, etc. Estas ideias, sob a forma de mitos, estão presentes nas mais antigas religiões. Povos mais adiantados, como o do Egito e de outros países do Oriente Médio, chegaram até mesmo a desenvolver uma matemática, uma astronomia, uma medicina. Que o contato com todos estes povos não poderia deixar os gregos imunes, é óbvio. Muitos dos temas que vão ocupar os filósofos gregos estão longe de poderem ser considerados originais. Mas a despeito disto, pode-se dizer que os gregos constituem uma exceção e que nos legaram uma cultura altamente original
Esta originalidade pode ser constatada em dois pontos básicos: a) se certos elementos “bárbaros” penetraram na Grécia, isto não autoriza a inferir que todo o conteúdo do pensamento grego seja alienígena. Receberam, sem dúvida, certas ideias gerais, mais ou menos comuns de resto aos povos primitivos; dos povos mais adiantados, receberam certa ciência — mas seria absurdo pretender que se tenham limitado ao recebido de fora. Estes conteúdos todos funcionaram mais como um ponto de partida, que de forma alguma é incompatível com a rica contribuição do próprio povo grego. Se compararmos a cultura grega com as outras culturas da época, as diferenças revelam-se mais acentuadas do que o que possam ter de comum, b) Por maior que tenha sido o impacto do não-grego sobre o grego, o surto da Filosofia jamais se poderia explicar pela simples coincidência de conteúdos. O que importa. salientar é que se instaura na Grécia um tipo de comportamento humano mais acentuadamente racional. É este maior respeito à dimensão especificamente racional do homem, sem o qual é impossível pensar o surto da Filosofia, que caracteriza o povo grego. Evidentemente, neste ponto também se devem evitar categorias absolutas; não se trata de contrapor os gregos aos outros povos, como se estes fossem destituídos de racionalidade. Mas diante do real, os ‘gregos não se limitaram a uma atividade prática ou a um comportamento religioso; ao lado disso, souberam assumir um comportamento propriamente filosófico: a pergunta filosófica exige uma postura mais puramente intelectual. Sem esta maior autonomia do comportamento racional, não se poderia compreender o surto da filosofia grega. Por isto, em seu sentido forte e específico, a Filosofia ê um produto original da cultura grega. Cremos que Nietzsche resumiu o problema através de uma frase famosa: “Outros povos nos deram santos, os gregos nos deram sábios.”
Mas a instauração deste comportamento racional coloca ainda outras questões não menos complexas e difíceis de serem resolvidas. Devemos fazer também uma breve referência ao problema dos pressupostos religiosos do pensamento grego, ou ao problema das relações entre Religião e Filosofia na Grécia.
Mais uma vez, o surto da Filosofia só pode ser compreendido através de certas características muito peculiares à religião grega. Não se trata de afirmar que a Religião tenha sido a causa da instauração da Filosofia; também não se trata tão-só de reconhecer a coincidência de certos conteúdos. O problema consiste muito mais em compreender como estes conteúdos foram transferidos de um contexto mítico para o domínio da pergunta racional. Quando Tales afirma que a água é o elemento primordial de todas as coisas, há nisto uma clara ressonância do mito homérico, que mergulha por sua vez nas mais primitivas crenças religiosas. Mas tal ressonância não autoriza a dizer que a afirmação do mundo natural implica a recusa de uma realidade sobrenatural. Sem dúvida, as colônias em que se desenvolveu a filosofia pré-socrática não se caracterizavam pela intensa religiosidade da Grécia peninsular — que se extasiava, na mesma época, com a tragédia. Não é, contudo, a falta de religiosidade que explica o surto da Filosofia. Trata-se muito mais de outro tipo de religiosidade, que obrigava o homem das colônias a viver mais por si mesmo e a desenvolver uma certa ousadia intelectual. O itinerário do pensamento pré-socrático não se desdobra do “mito ao logos”, mas de um logos mítico para a conquista de um logos mais acentuadamente noético.
Por outro lado, se quisermos explicar tal ousadia devemos atentar a um rasgo fundamental da religiosidade grega: o homem grego não compreende os seus deuses como pertencentes a um mundo sobrenatural; deparamos com uma religião que desconhece o dogma ou qualquer tipo de verdade que não encontre os seus fundamentos na própria ordem natural. Os deuses gregos apresentam-se com uma evidência que os prende à ordem natural das coisas. Não existe o exclusivismo do Deus hebraico ou muçulmano, que só reconhece o homem quando este se converte. Longe de se limitarem a uma igreja ou aos privilégios de um povo escolhido, os deuses gregos são reconhecidos em sua presença puramente natural na ordem do mundo. E é esta presença natural que empresta aos deuses gregos uma universalidade ímpar. Os deuses existem assim como existem as plantas, as pedras, o amor, os homens, o riso, o choro, a justiça.
A partir de tais pressupostos religiosos compreende-se que aos poucos uma atitude filosófica diante do real se tornasse viável, que o homem passasse a afirmar-se como um ser que por suas próprias forças questiona o real. Claro que a autonomia da pergunta filosófica só pode surgir ao cabo de um longo itinerário. Se em Homero o poeta se esconde, anônimo, atrás dos feitos dos deuses e dos heróis, já Hesíodo se apresenta como homem, e quase que constrói a seu modo uma teogonia. Desta forma, a atividade racional do homem se afirma com uma intensidade crescente, até atingir, ao tempo dos pré-socráticos, o seu primeiro momento de maturidade. Burnet chama a atenção para o fato de que os primeiros filósofos usam até mesmo a palavra deus em um sentido não-religioso. Se o pensamento filosófico é em certa medida condicionado pela Religião, esta passa agora a sofrer o impacto da Filosofia.
A maioria dos Pré-Socráticos é oriunda da Ásia Menor e muitos historiadores pensam que teriam sofrido considerável influência das religiões ou das filosofias orientais. Que pensar disso?
São muito poucos os documentos que permitem refazer a pré-história da Ásia Menor. Sabe-se que os Aqueus, vindos da Ásia por volta do 2.° milênio antes da nossa era, foram povoar a península helênica. Cerca de 1180, perseguidos pelos Dórios, fogem para a Ásia Menor com os Jônios e os Eólios e fundam cidades gregas. Fócida, Clazómenas, Téos, Eritreia, Quíos, Lébedos, Cólofon, Éfeso, Samos, Mionte, Mileto e Esmima são, com Naxos e Lesbos, as cidades principais. Apertadas entre o mar e os Bárbaros, estão sob permanente ameaça dos Medos e mais tarde dos Persas, enquanto os Gregos da Hélade e da Sicília têm de se haver com os Cartagineses. As cidades jônicas estiveram em contacto com a civilização grega, de que provinham, e ainda com povos que, através da guerra ou do comércio, tinham relações com o Oriente. Por essa razão se podia com pertinência levantar o problema de saber se as filosofias pré-socráticas não deveriam o melhor de si a ideias provenientes do Oriente. Pensou-se que tais influências podiam enraizar numa época muito antiga, quando a Grécia recebeu da Ásia os Aqueus, a quem a língua e mitologia gregas deveriam a substância. Por outro lado, das relações dos colonos gregos da Ásia Menor com o Oriente e com os Egípcios teriam surgido a escrita, o cálculo e a astronomia. Digamos de imediato que muitas lendas e interpretações descabeladas correram neste domínio.
Os Orientais procuraram antes de mais fazer acreditar a ideia de que os Gregos lhes deviam tudo. Possuímos sobre o assunto os romances históricos de um sacerdote egípcio do século III d.C., Manéton, que escrevia em grego e para os Gregos, e de um sacerdote caldeu, Berosso, que escrevia para o mesmo público. Os sacerdotes egípcios pretenderam igualmente fazer do Egito o berço da civilização ocidental. No século V a.C., Heródoto afirma, no livro II das Histórias, consagrado ao Egito, que a religião grega proveio do Egito. Ora, Heródoto não sabe ler as inscrições nem os papiros e fia-se na tradição popular, sem se pôr o problema das fontes. Os próprios Gregos exageraram, sobretudo quando começaram a duvidar da sua própria força e esperaram a salvação de uma revelação vinda de algures. A ideia da origem oriental do pensamento grego será muito desenvolvida pelos neopitagóricos e pelos últimos neoplatônicos.
Que pretendem, então, estas tradições tardias e suspeitas? Enumeremos algumas de suas teses. Segundo Plutarco e Jâmblico, Tales de Mileto seria de origem fenícia, teria viajado pela Ásia e recebido as suas ideias dos sacerdotes egípcios. Isócrates fala-nos de viagens de Pitágoras ao Egito e afirma que teria edificado a sua filosofia sobre tradições orientais. Heráclito ter-se-ia inspirado nos Egípcios e nos Persas, mais particularmente em Zoroastro. Segundo Possidônio, os atomistas gregos deveriam tudo a um fenício de nome Mochoss que vivera antes da guerra de Troia. Aristóxenes, autor de uma vida de Sócrates repleta de falsidades, afirma que Sócrates teria recebido a sua doutrina de um viajante indiano que aportara em Atenas. Quanto a Pirro, teria encontrado os gimnosofistas por ocasião de uma viagem às índias. O próprio Platão viu-se qualificado de «Moisés aticizante» por Numênio.
Estas ideias foram retomadas no século XIX, quando, sob a influência do romantismo, o Oriente surgiu como o continente exemplar onde se originara todo o pensamento. Creuzer e Schlegel estudaram as semelhanças e analogias das ideias. Numerosos estudos fantasistas surgiram então, mas o mais ousado foi provavelmente o de Augusto Gladitsch, que, por volta de 1850, relaciona Pitágoras com os Chineses, os Eleatas com os Indianos, Empédocles com os Egípcios, Heráclito com os Persas, Anaxágoras com os Judeus. Os primeiros a reagir contra tais abusos foram dois historiadores alemães da filosofia, Heinrich Ritter e Eduardo Zeller, na primeira metade do século XIX.
No estado actual dos nossos conhecimentos, parece podermos fazer nossas as conclusões prudentes e matizadas de Aram-M. Frenkian, expostas em L'Orient et les origines de l'idéalisme subjectif dans la pensée européenne (t.I, Paris, 1946). Se procurarmos argumentos de críticas externas em favor de uma influência do Oriente no pensamento grego, temos de concluir que não possuímos nenhum. Os testemunhos que possuímos são muito tardios. Aristóteles nunca fala de tais influências nem das pretensas viagens empreendidas pelos primeiros pensadores gregos. Mais ainda, se lermos Platão, que provavelmente foi ao Egito, veremos que ao espírito dos Egípcios e Fenícios, voltado para o proveito e a capacidade técnica, opõe o espírito dos Gregos, inclinado ao saber. Quanto aos argumentos de crítica interna, são altamente suspeitos, porque as aproximações que se operam podem, por certo, traduzir semelhanças de pensamento, sem que por isso se deva concluir tratar-se de verdadeiras influências. Tudo o que pode dizer-se a tal respeito é que as semelhanças no domínio da mitologia derivam provavelmente de uma comum origem pré-histórica indo-europeia; que o alfabeto grego é de origem fenícia e pode aproximar-se do alfabeto dos Hebreus; que a metrologia, a técnica da agrimensura e a medida do tempo, que encontramos entre os Gregos, provieram da Caldeia, bem como certos conhecimentos de astronomia e alguns instrumentos musicais.
Para além destas conclusões, está aberta a porta para o arbitrário e para as deduções incontroláveis.