O furor divino ou entusiasmo é uma “certa iluminação da alma racional pela qual Deus faz com que a alma retorne das regiões inferiores às superiores, depois de ter descido das superiores às inferiores”.
Essa possessão, súbita, violenta e inesperada, acontece porque o possuído foi escolhido pela divindade como instrumento para alertar uma comunidade. Ele para por um momento, isola-se e começa a gesticular convulsivamente. Sua mente fica em branco, dominada pelo espírito divino. Em transe, ele enuncia augúrios e profecias em verso. Não sabe nem entende o que diz e, quando a possessão cessa e recupera o juízo, é incapaz de se lembrar de nada. Se lhe recitam o que acabou de dizer, não consegue decifrar os versos nem sabe continuar o poema.
Dado que na Antiguidade a arte era um trabalho consciente realizado seguindo regras estabelecidas que eram aprendidas, o poema furioso não era considerado uma obra de arte: o poema, fora de toda norma, era o fruto de um momento de êxtase, e sua beleza residia no conteúdo inédito e surpreendente, e no grau de verdade misteriosa que encerrava, mas não na forma versificada.
Platão foi o grande tratadista do furor divino. Ele definiu as características, efeitos e consequências da possessão em vários diálogos, entre os quais se destacam Ion, Menon, Fedro, o Banquete e a República.
No entanto, Tingerstedt demonstrou que Platão não se limitou a repetir um conceito cuja origem remontaria à Grécia arcaica, mas a partir de fenômenos psíquicos caracterizados desde Homero definiu um conceito inteiramente novo.