Livro final da obra De Triplici Vita, o De Vita coelitus comparanda, concentra-se em questões astrológicas, especialmente em métodos para temperar influência melancólica de Saturno ao atrair influências benéficas de Júpiter, Vênus, Mercúrio e, sobretudo, do Sol.
Atitude de Ficino frente à astrologia, embora por vezes flutuante, fundamenta-se em dois pilares: crença sincera na realidade e importância das influências astrais, e rejeição, como católico, de determinismo astrológico que englobe alma e intelecto, limitando assim ação das estrelas à esfera do espírito humano.
No tratado De Vita coelitus comparanda, conceito de espírito é expandido muito além dos limites técnico-médicos de sua definição inicial.
Ficino adota teoria de influência astrológica de origem estoica, que postula existência de um espírito cósmico, o spiritus mundi.
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Natureza do spiritus mundi: fluido sutil que percorre todo universo sensível, servindo como via de influência entre corpos celestes e mundo sublunar.
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Base metafísica: universo é concebido como um único animal vivo, cuja alma, análoga à humana, necessita de um “primeiro instrumento” para transmitir seu poder ao corpo.
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Diferença em relação ao espírito humano: este espírito cósmico, embora análogo ao nosso, não é composto das quatro humores ou elementos, mas pode ser identificado com a quinta essência, o éter aristotélico incorruptível.
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Atributos: é um corpo muito sutil, intermediário entre corpo e alma, cujo poder não é terrestre, mas aquático, aéreo e, sobretudo, ígneo e estelar. Vivifica todas as coisas e é causa imediata de toda geração e movimento.
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Identificação literária: é o mesmo spiritus referido por Virgílio no verso “Spiritus intus alit…”.
Estratégia fundamental para saúde do intelectual é nutrir e purificar seu próprio espírito atraindo e absorvendo o spiritus mundi.
Para tanto, espírito humano deve tornar-se o mais semelhante possível ao espírito cósmico, ou seja, “tornar-se também celestial”.
Métodos para captação do espírito cósmico e influências planetárias específicas.
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Consumo de substâncias impregnadas: vinho, açúcar muito branco, ouro e odores de canela ou rosas são citados como carregados de espírito cósmico puro.
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Uso de seres sob regência planetária: para atrair influência de um planeta específico, podem-se utilizar animais, plantas ou pessoas sob seu domínio, através de alimentação, odores ou relações sociais.
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Emprego de talismãs: as
imagines recebem atenção considerável, embora
Ficino se mostre cauteloso e hesitante quanto ao seu uso.
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Aplicação de música adaptada: a música é recomendada como o meio mais poderoso para esta captação.
Eficácia da música astrológica fundamenta-se em dois princípios convergentes.
Primeiro princípio: teoria da harmonia universal, de raiz pitagórico-platônica.
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Postulado fundamental: universo e homem, macrocosmo e microcosmo, são construídos segundo mesmas proporções harmônicas.
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Tripla divisão da música: música mundana (das esferas), música humana (do corpo, espírito e alma) e música instrumental (de vozes e instrumentos).
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Princípio de ressonância: uso de qualquer coisa com proporções numéricas semelhantes às de um corpo celeste imprimirá proporções similares ao espírito do usuário, atraindo influxo de espírito celeste correspondente, analogamente a uma corda que faz vibrar outra afinada na mesma nota.
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Aplicação ampla: princípio não se restringe à música, aplicando-se também a alimentos, remédios e talismãs, cujas figuras geométricas atuam por movimento e raios harmônicos de modo análogo à música.
Segundo princípio: teoria mimética da música, já explorada anteriormente.
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Conexão com caráter moral: planetas possuem caráter moral dos deuses que nominam, caráter este que pode ser imitado pela música.
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Efeito sobre o espírito: ao executar música que imita caráter jovial, solar ou venusiano, espírito do executante e do ouvinte tornam-se mais receptivos à influência desses planetas.
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União dos princípios: música mimética é um espírito vivo, e céu é também espírito musical, estabelecendo conexão profunda.
Formulação de regras práticas para composição de música astrológica eficaz.
Ficino precede suas regras com advertência de que intenção não é cultuar estrelas, mas imitá-las e captar suas emanações naturais através da imitação.
Regras para adaptar cantos aos corpos celestes.
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Primeira regra: identificar poderes, efeitos, posições e aspectos de estrela específica, inserindo essa compreensão na significação do texto poético, aprovando o que a estrela produz e rejeitando o que ela retira.
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Segunda regra: considerar qual estrela governa essencialmente determinada região ou pessoa, observando modos e cantos usualmente empregados nesse contexto, para aplicar similares às palavras destinadas a essa mesma estrela.
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Terceira regra: observar posições e aspectos diários das estrelas, identificando discursos, cantos, movimentos, danças e ações morais aos quais maioria das pessoas é levada sob tais aspectos, para imitá-los nos cantos e assim sintonizar-se com disposição celeste.
Descrição dos caracteres musicais apropriados a cada planeta benéfico.
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Júpiter: música grave, apaixonada, doce e alegre com constância.
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Vênus: música voluptuosa, com leveza e suavidade.
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Sol (Apolo): música venerável, simples e apaixonada, aliando graça e elegância.
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Mercúrio: música um pouco menos séria que a apolínea devido à sua alegria, porém vigorosa e variada.
Prática de cantar frequentemente essas harmonias imprime seu caráter no espírito do cantor, que, por simpatia natural, atrai espírito planetário correspondente.
Primazia do Sol na música e na prática ficiniana.
Toda música está sob primazia de Apolo, tendendo a captar influência solar e solarizar músicos, resultado considerado altamente desejável.
Preocupação com Sol é típica de toda obra de Ficino, que vê astro como imagem visível de Deus supremo.
É altamente provável que música astrológica de Ficino fosse dirigida sobretudo ao Sol.
Prática musical concreta de Ficino e sua natureza.
Ficino costumava cantar acompanhando-se de um instrumento que chamava de lyra ou lyra orphica.
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Razão do nome “órfica”: instrumento era ornamentado com pintura de Orfeu encantando animais e rochas.
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Identificação provável do instrumento: tratava-se provavelmente de uma lira de braccio, instrumento de arco associado às representações renascentistas de Orfeu e considerado pelos humanistas como herdeiro da lira antiga.
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Caráter da performance: música provavelmente monódica, com acompanhamento, assemelhando-se à prática dos improvisadores sobre a lira.
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Estilo vocal: descrições de performances contemporâneas sugerem um recitar cantando, uma forma de psalmodia expressiva e modulada, intermediária entre fala e canto, que adaptava inflexões ao conteúdo emocional e intelectual do texto.
Primazia do texto sobre a música na concepção ficiniana.
Para Ficino, como para outros humanistas músicos, texto era elemento mais importante.
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Limitação da música pura: música desprovida de texto só pode atingir espírito, sensibilidade e sentimentos, ou, no máximo, através dele, partes interiores da alma como fantasia e imaginação.
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Poder do canto com texto: combinação de música e texto atinge homem em sua integralidade, influenciando intelecto através do significado, além de espírito e corpo.
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Posição hierárquica na lista dos sete níveis: música ocupava posição mediana crucial, pois, unida ao texto, afetava a totalidade do ser humano.
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Relação com a doutrina dos quatro furores: furor poético e musical, embora a mais baixa categoria, possui posição privilegiada de acompanhar e completar as outras três, explodindo em hinos e canções.
Textos utilizados por Ficino em seus cantos astrológicos.
Evidências sugerem que Ficino praticava o canto órfico, uma renovação dos “antigos cantos à lira órfica”.
Sua música astrológica identificava-se provavelmente com este canto dos Hinos Órficos.
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Finalidade mágica dos Hinos Órficos: conforme atestado por
Pico della Mirandola, os Hinos de Orfeu são extremamente eficazes na magia natural quando aplicados com música adequada, disposição da alma e outras circunstâncias conhecidas pelos sábios.
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Método de aplicação: comentário de
Ficino sobre Plotin explica que, para captar influências planetárias, deve-se dirigir afetos com veemência para a estrela desejada, aplicando-lhe canto, luz e odor adequados, tal como feito nos Hinos Órficos, que especificam fumigações para cada divindade cósmica.
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Vantagem teológica: Orfeu era considerado um
priscus theologus, um teólogo antigo na linhagem que vai de Zoroastro e Hermes Trismegisto a
Platão, o que legitimava uso de seus hinos numa prática aceitável de magia natural.
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Repertório ampliado: além dos Hinos Órficos planetários, é provável que
Ficino também cantasse outros fragmentos órficos, orações antigas ao Sol, o Salmo 18 de Davi e o chamado “Orfeu judeu”, que ecoava o tema do tabernáculo divino no Sol.