A Música Astrológica de Ficino

Livro final da obra De Triplici Vita, o De Vita coelitus comparanda, concentra-se em questões astrológicas, especialmente em métodos para temperar influência melancólica de Saturno ao atrair influências benéficas de Júpiter, Vênus, Mercúrio e, sobretudo, do Sol. Atitude de Ficino frente à astrologia, embora por vezes flutuante, fundamenta-se em dois pilares: crença sincera na realidade e importância das influências astrais, e rejeição, como católico, de determinismo astrológico que englobe alma e intelecto, limitando assim ação das estrelas à esfera do espírito humano.

No tratado De Vita coelitus comparanda, conceito de espírito é expandido muito além dos limites técnico-médicos de sua definição inicial. Ficino adota teoria de influência astrológica de origem estoica, que postula existência de um espírito cósmico, o spiritus mundi.

Estratégia fundamental para saúde do intelectual é nutrir e purificar seu próprio espírito atraindo e absorvendo o spiritus mundi. Para tanto, espírito humano deve tornar-se o mais semelhante possível ao espírito cósmico, ou seja, “tornar-se também celestial”. Métodos para captação do espírito cósmico e influências planetárias específicas.

Eficácia da música astrológica fundamenta-se em dois princípios convergentes. Primeiro princípio: teoria da harmonia universal, de raiz pitagórico-platônica.

Segundo princípio: teoria mimética da música, já explorada anteriormente.

Formulação de regras práticas para composição de música astrológica eficaz. Ficino precede suas regras com advertência de que intenção não é cultuar estrelas, mas imitá-las e captar suas emanações naturais através da imitação. Regras para adaptar cantos aos corpos celestes.

Descrição dos caracteres musicais apropriados a cada planeta benéfico.

Prática de cantar frequentemente essas harmonias imprime seu caráter no espírito do cantor, que, por simpatia natural, atrai espírito planetário correspondente.

Primazia do Sol na música e na prática ficiniana. Toda música está sob primazia de Apolo, tendendo a captar influência solar e solarizar músicos, resultado considerado altamente desejável. Preocupação com Sol é típica de toda obra de Ficino, que vê astro como imagem visível de Deus supremo.

É altamente provável que música astrológica de Ficino fosse dirigida sobretudo ao Sol.

Prática musical concreta de Ficino e sua natureza. Ficino costumava cantar acompanhando-se de um instrumento que chamava de lyra ou lyra orphica.

Primazia do texto sobre a música na concepção ficiniana. Para Ficino, como para outros humanistas músicos, texto era elemento mais importante.

Textos utilizados por Ficino em seus cantos astrológicos. Evidências sugerem que Ficino praticava o canto órfico, uma renovação dos “antigos cantos à lira órfica”. Sua música astrológica identificava-se provavelmente com este canto dos Hinos Órficos.