DUCLOW, Donald F. Engaging Eriugena, Eckhart and Cusanus. London New York (N.Y.): Routledge, 2024.
Obra De Ludo Globi (1462-63) utiliza jogo de bola com seção côncava como estrutura alegórica para explorar questões metafísicas, cosmológicas e cristológicas.
Foco específico desta análise: relação entre tempo, eternidade e o perpétuo, engajando controverso tópico da eternidade do mundo e refinando cosmologia esboçada em De Docta Ignorantia.
Distinção platônica entre redondeza absoluta e redondeza contraída aplicada ao cosmos.
Redondeza absoluta: identificada com eternidade, causa e exemplar da redondeza do mundo.
Redondeza do universo: imagem da redondeza absoluta, sendo “maximamente redonda” no sentido de que nenhuma outra redondeza é atualmente maior.
Universo como máximo contraído: em continuidade com De Docta Ignorantia, universo é um “máximo contraído”, imagem real do máximo absoluto divino, “infinito privativamente” por carecer de limites espaciais.
Transição do espaço para o tempo: em De Ludo Globi, Cusa desloca foco da extensão espacial ilimitada para relação do universo com tempo e eternidade.
Mundo como imagem da eternidade através de sua duração perpétua.
Aproximação lexical: redondeza absoluta é eternidade; redondeza do mundo é imagem da eternidade.
Participação na eternidade: mundo pode ser chamado eterno porque existe por participação (participatione) na Eternidade, derivando dela.
Modo específico de imagem: mundo imagina eternidade divina em sua duração “nunca terminável ou perpétua”.
Adequação formal: forma da redondeza é mais adequada ao movimento perpétuo; universo, ao aproximar-se desta forma, move-se naturalmente “sem violência e fadiga”.
Dupla imagem do infinito divino: universo espelha infinito divino tanto em extensão espacial ilimitada quanto em duração sem fim.
Posição liminar do universo perpétuo entre tempo e eternidade.
Análise a partir do lado da eternidade.
Eternidade do mundo em Deus: “eternidade do mundo, já que é eternidade do mundo, também existe antes (ante) do mundo eterno”. Eternidade do mundo identifica-se com Deus, existindo virtualmente n'Ele antes de seu desdobramento no mundo eterno.
Eternidade criadora do mundo é Deus: “A Eternidade criadora do mundo é Deus, que fez todas as coisas como quis”.
Análise a partir do lado do tempo.
“Tempo eterno” do profeta Baruc: citação de “preparou a terra no tempo eterno” (in aeterno tempore). Preparação ocorre na mente ou Sabedoria divina, vinculando tempo à origem eterna.
Fluxo a partir da eternidade: “Tempo é chamado eterno porque flui da Eternidade”.
Início ontológico, não temporal: começo (initium) do mundo não é temporal, mas ontológico, na eternidade de Deus, embora dure para sempre como imagem dessa eternidade.
Correção de equívocos linguísticos e imaginativos sobre criação e tempo.
Ilusão do “antes” temporal: imaginação projeta um tempo antes da criação, mas “Deus não é propriamente dito ter existido antes das criaturas”, pois “ter existido” é um tempo passado e tempo é criatura da eternidade.
Definição relacional: tempo é “criatura da eternidade”, sua imagem, pois existe em sucessão, enquanto eternidade é “totalmente simultânea” (tota simul).
Dificuldade epistemológica: não concebemos eternidade sem duração, e não podemos imaginar duração sem sucessão. A sucessão manifesta-se quando nos esforçamos para conceber eternidade.
Discernimento da mente (mens): afirma que duração absoluta, que é eternidade, precede naturalmente duração sucessiva. Duração livre da sucessão (absolutus) aparece na duração sucessiva como em uma imagem.
Prioridade conceitual do universo em relação ao tempo.
Argumento a partir da medida do movimento: se movimento dos céus e tempo (sua medida) cessassem, mundo não deixaria de existir. Mas se mundo cessasse, tempo cessaria. Logo, é mais apropriado chamar mundo de eterno do que tempo.
Consequência: duração do mundo não depende do tempo. Tempo depende do mundo e de seu movimento.
Exploração dos temas subjacentes ao movimento: criação, possibilidade e devir.
Distinção crucial entre posse-facere e posse-fieri.
Posse-facere (poder-fazer): poder criativo infinito de Deus, idêntico ao ser divino, portanto eterno. É onipotência divina.
Posse-fieri (poder-ser-feito / poder-devir): possibilidade de ser feito ou de devir, da qual todas as criaturas provêm. É criada, restrita, análoga à matéria aristotélica, mas não eterna.
Dinamização do conceito: parte de desenvolvimento terminológico em obras tardias, culminando em Deus como Posse ipsum (Poder mesmo) em De Apice Theoriae.
Processo criativo descrito com analogia do artesão.
Mente divina concebe mundo dentro de si.
Deus cria a possibilidade (posse-fieri) de o mundo ser feito belo e o movimento pelo qual mundo seria conduzido da possibilidade à realidade.
No mundo, a “possibilidade de ser mundo” (possibilitas essendi mundum) é determinada atualmente conforme intenção divina e conforme podia devir.
Posse-fieri não é reservatório de mundos possíveis infinitos, mas capacidade criada para devir este universo particular.
Força do mundo (vis mundi) e movimento perpétuo.
Identificada com alma do mundo ou natureza: nutre, une, conecta, aquece e move todas as coisas de dentro.
Movimento perpétuo, circular, que envolve todos os outros movimentos.
Este movimento circular torna duração perpétua apropriada à esfera do universo.
Esquema tripartite das durações em De Venatione Sapientiae.
Eternidade: marca duração absoluta e poder criativo ilimitado (posse-facere) de Deus.
Tempo: duração sucessiva das criaturas terrestres mutáveis, que vêm a ser e perecem.
Duração perpétua: característica do posse-fieri criado e das criaturas que participam mais plenamente dele (ex.: força do mundo, movimento celeste). Tem começo, mas não pode ser aniquilado, sendo seu ponto final seu começo.
Hierarquia de participação: criaturas celestes e inteligentes realizam plenamente suas capacidades criadas, movendo-se perpetuamente. Criaturas terrenas jamais são constantes, perecem, são temporais.
Conclusão antropológica: a alma medidora e o tempo como seu instrumento.
Alma cria instrumentos para discernir e conhecer (ex.: astrolábio, lira).
Medidas de tempo (ano, mês, hora) são instrumentos de uma medida temporal criada pelo homem.
Tese inversiva: tempo, como medida do movimento, é instrumento da alma que mede.
Independência da alma em relação ao tempo: alma não está sujeita ao tempo, existe anteriormente a ele. Tempo depende da alma que o mede.
Posição liminar da mente: ao medir movimento usando tempo como instrumento, alma habita limiar entre tempo e eternidade, numa espécie de “tempo eterno” ou “tempo atemporal”, de onde pode conceber tempo, criar suas medidas e refletir sobre suas relações com eternidade e perpétuo.