O Bem além da Vida e da Beleza
GARCÍA BAZÁN, Francisco. Plotino y la mística de las tres hipóstasis. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: El Hilo De Ariadna, 2011.
Sob a sombra de Platão, Plotino formula dois grandes enunciados filosóficos (Tratado 1): a plenitude da alma está no Bem/Beleza como Causa primeira e final, e o método apropriado para alcançá-lo é uma reunificação interior, não uma fuga física.
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O Bem é a meta de toda aspiração porque dele provém toda realidade múltipla — essência, vida e conhecimento — e, por isso, não pode confundir-se com o que lhe é subordinado: se o derivado é plural e distinto, o Bem será Único, Solo e Simplicidade.
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A exigência intrínseca que o alma deve cumprir para experimentar a Realidade mais elevada é despojar-se de tudo o que lhe impede de se oferecer ao Único — libertar-se dos estratos interiores complexos, das apetências do exterior e de tudo o que a torna composta e plural.
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Plotino usa a comparação dos cultos de mistério: o caminho anagógico impõe ao iniciado a purificação do profano (remoção dos vestidos), a subida despido até os pequenos mistérios (entrada no templo) e o ingresso no santuário (grandes mistérios) com a detenção epóptica ou da visão.
A “fuga” não admite interpretação física — trata-se de uma separação que é reunificação ou concentração — e o episódio homérico de Ulisses preferindo Ítaca aos encantos ilusórios de Circe e Calipso oferece analogia adequada para o método de retorno ao Bem, princípio inesgotável.
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O retiro-retorno exige abandonar a sensibilidade efêmera e suas sombras de beleza corporal e artística.
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Reclama despertar o reconhecimento da beleza das almas cujo comportamento é honesto, cujas ocupações são elevadas e cuja existência é exemplar — pois essas almas anunciam que suas aspirações dependem de um bem mais elevado.
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A concentração governada pelo objetivo ascensional é exemplificada também pela operação de esculpir a própria estátua: método que permite uma “fuga” que é reencontro do encoberto, não fuga material do mundo.
Já nessa lição inicial de sua carreira como mestre de filosofia, Plotino entregou elementos suficientes para demonstrar a orientação de seu pensamento metafísico e para inspirar inextinguivelmente toda a vertente interiorista da filosofia ocidental.
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Três peculiaridades técnico-doutrinárias merecem destaque nessas palavras.
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A utilização do simbolismo dos mistérios para representar uma concepção filosófica que admite hierarquia dos graus da realidade em seus aspectos ontológico, estético-ético e gnoseológico, dependente do Bem último.
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O emprego de pasagens particulares da literatura homérica, interpretadas mítica e alegoricamente, descobrindo nelas valores espirituais em relação ao ascenso místico.
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A identificação Bem/Beleza no nível supremo: a Primeira Hipóstase aparece simultaneamente como causa única — agente, formal, final e possibilidade da matéria — e como móvel de toda aspiração, autossuficiente e a nada aspirando.
A identificação Bem/Beleza é algo menos claro do que a afirmação do Bem como o mais elevado, e explica-se pelo fato de Plotino, nesse momento, estar imerso no interesse pelo simples despojamento anímico e seguir a interpretação sugerida por Platão no Banquete, sem ainda considerar com rigor o Parmênides em sua segunda parte.
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Plotino acompanha a área mais ampla de apetência humana correspondente à beleza: do amante comum ao contemplador da beleza natural, artística, virtuosa e inteligível, até quem considera saciar seu desejo de beleza com a experiência do Bem sumo como divindade enquanto Bem/Beleza.
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Essa, porém, não será sempre a opinião do filósofo neoplatônico, como se advertirá adiante.
