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Se só o Uno tivesse existência...

GARCÍA BAZÁN, Francisco. Plotino y la mística de las tres hipóstasis. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: El Hilo De Ariadna, 2011.

No curso de 257-258, em Enn. IV,8 (6) 6, Plotino esboça uma primeira tentativa de solução ao problema da processão, partindo da observação de que, se o Uno tivesse apenas existência isolada, tudo permaneceria oculto sem distinção possível — mas é justamente sua natureza imutável e sempre igual que está na origem do desenvolvimento dos seres.

  • O Uno é indicado indiretamente como Realidade não manifesta (ekékrypto), carente de forma, inmodificável, anterior aos seres e à multiplicidade (to pléthos) e como origem da processão.
  • Todo ser em estado de perfeição produz algo mais fraco: o antecedente é em relação ao efeito “um princípio indivisível, como uma semente”, da qual parte o desenvolvimento.

Ao refletir sobre a Primeira Hipóstase em relação ao Intelecto, Plotino apresenta o argumento completo sobre a natureza do Uno a partir da necessidade lógica de um Princípio simples anterior a tudo.

  • “Se há algo depois do Primeiro, é necessário que proceda imediatamente dEle ou que se lhe permita através de intermediários, remetendo-se o segundo ao primeiro e o terceiro ao segundo.”
  • “Antes de todas as coisas deve existir algo — o que é simples — e que seja diferente de todas as coisas que vêm atrás dEle, sendo em si mesmo não misturado ao que lhe segue.”
  • “De Ele não há discurso nem ciência e se diz que está mais além da essência.”
  • “O Primeiro é perfeito, inclusive o mais perfeito de tudo, e a potência primeira tem que ser mais poderosa que todos os seres… Sempre que algo chega à sua perfeição vemos que engendra e não suporta ficar em si mesmo, mas produz outra coisa.”
  • “Como o mais perfeito e o primeiro Bem poderia permanecer fixo em si, acaso por zelo ou por impotência, tratando-se da Possibilidade Universal?”
  • “Verdadeiramente deve ser venerandíssimo (tímiótaton) o que engendra o que lhe segue imediatamente; desse modo também o engendrado deve ser muito venerável e como segundo em relação àquele, melhor que os demais.”
  • “Aquilo estava 'mais além da essência'. Ele é Possibilidade universal, mas o segundo é o Todo. Mas se o Intelecto é o aludido, então há algo mais além do Intelecto.”

O Primeiro, como Princípio, é necessariamente simples e diverso de tudo o mais — não se mistura com o que lhe segue, mas nos seres provenientes dEle se revela como natureza diferente e oculta, pois os produtos manifestam o produtor último como necessariamente simples e outro que eles.

  • O Uno não é um ser que seja semelhante e depois uno, mas Uno pura e simplesmente — razão pela qual é incorreto afirmar que seja “o Uno”, pois isso implicaria agregar-lhe o atributo da unidade.
  • De lo Uno, com total rigor, nada pode saber-se nem dizer-se, pois nenhum conhecimento é possível dEle, rehusando todo possível conhecimento ideal e sobrepujando a essência — fundamento de todo saber em si.
  • Sua realidade é também única ou exclusiva: havendo outra igual, não seria outra, mas ela mesma; e contra a interpretação corporalista do estoicismo, tampouco se trata de um corpo, pois este é engendrado e composto, e o Uno é inengendrado e simples.

Plotino introduz pela primeira vez, com soberana eficácia expressiva, a denominação afirmativa de Possibilidade Universal (dynamis pánton) ou Grande Potência (megáles dynamis) para o Princípio, que designa com alta precisão a natureza inesgotável e interior em si mesma do divino.

  • Essa Potência está acima de toda atualização, por mais perfeito que se imagine o ato — pois qualquer ato já recorta ou limita o Poder sumo.
  • Trata-se de uma ilimitação por próprio excesso, que rejeita logicamente toda tentativa de compreensão ou circunscrição pelo intelecto ou nos seres.
  • Essa Potência não deve confundir-se com a concepção plotiniana da matéria como o “em potência” em si mesmo: a Potência do Uno é, por sua riqueza intrínseca, firme em si, fonte inigualável, sem diminuição e inextinguível; a possibilidade deficiente da matéria, ao contrário, nada possui de seu, de tudo necessita sempre, como condição ontológica necessária que possibilita a realidade a meias do que não é simples.

Com vocabulário progressivamente mais exato e sugestivo, Plotino vai perfilando sua doutrina sobre a Primeira Hipóstase, incorporando o léxico técnico e positivo de “Uno” e “Primeiro” e adiantando os conceitos que tocam sua natureza de Princípio: autossuficiência necessária, perfeição e móvel de produção.

  • Platão é em ambos os casos o inspirador textual — tanto nas denominações de sobreeminência quanto ao referir-se ao Primeiro como “o mais perfeito e o Bem primeiro”.
  • O pensador helenístico refere-se sempre ao divino em sentido próprio e estrito, não por extensão, utilizando terminologia aristotélica ao chamar de venerandíssimo (tímiótaton) o que engendra o que lhe segue imediatamente.
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