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Platão de Heidegger

Andrew Fuyarchuk. Gadamer’s Path to Plato. A Response to Heidegger and a Rejoinder by Stanley Rosen. Eugene: Wipf & Stock, 2010

1. Platão I: Metafísica (1909–1920)

1. A relação inicial de Heidegger com a teoria platônica do Ser que transcende os entes foi ambivalente, pois, desde o início de seu desenvolvimento filosófico, ele buscou descobrir um sentido de significado intrínseco a um dado estado de coisas, em vez de recorrer a um fundamento de significado independente da coesão da vida cotidiana, sendo a metafísica, segundo sua compreensão inicial, uma linguagem sobre a realidade que, a exemplo das hipóteses (Hypothesen) científicas, não possui maior domínio sobre a verdade do que a linguagem falada por cientistas e epistemólogos.

  • A influência inicial de Heidegger incluiu as obras de Husserl e Aristóteles, além de Franz Brentano e Carl Braig, que o alertaram para as múltiplas formas de manifestação dos entes e para a questão de sua unidade.
  • Em sua conferência de 1915, Heidegger equipara a metafísica à ciência quantitativa de Galileu, ao citar a noção platônica de hipótese para ilustrar que tanto as causas científicas quanto as metafísicas são hipóteses, ou seja, modos de dar sentido ao mundo, não independentes de um contexto linguístico.
  • A avaliação da metafísica como “Rainha das ciências” levou Heidegger a desenvolver uma teoria geral, que é metafísica em um sentido não convencional, pois “Ser” (Sein) não é uma causa suprassensível apreendida apenas pela razão, mas sim algo que se busca em uma experiência não mediada e não sujeita à interpretação.
  • Antes mesmo da Primeira Guerra Mundial, Heidegger já desafiava o cientificismo, embora a partir de uma posição confessional, buscando acesso não adulterado à experiência religiosa, o que se refletiu em sua fase católica antimodernista e na valorização das experiências místicas de autores como Agostinho, Kierkegaard e Lutero.

2. Aristóteles e Desconstrução (1920–1928)

2. Na década de 1920, a relação de Heidegger com a filosofia grega sofreu uma mudança dramática em relação a Aristóteles, mas não a Platão, cujos ideais metafísicos permaneceram um obstáculo, enquanto Heidegger desenvolvia seu método de “destruição fenomenológica” (phänomenologische Destruktion) para desenterrar a situação motivadora original a partir da qual as experiências básicas da filosofia surgiram.

  • O método de destruição, cujas primeiras indicações surgem em 1915, foi desenvolvido nas lições de 1919-1920 e articulado no ensaio sobre Jaspers, visando uma reconstrução radical e autêntica dos conceitos tradicionais.
  • A investigação de Heidegger sobre Aristóteles teve dois lados: o epistemológico e o religioso; no primeiro, ele argumenta que Aristóteles criticava a teoria da verdade como correção (adequação), associando-a ao “vulgar”, e que a verdade como desocultamento (Unverborgenheit, aletheia) e o sentido de ousia (Seiendheit) como tornar-se-presente estão ligados ao discurso cotidiano (legein) e à comprovação fundamental do ser-verdadeiro que o Dasein é.
  • No lado religioso, Heidegger se voltou a Aristóteles para superar a “greguização” do pensamento, que, como na teologia neoplatônica de Agostinho, abstraía da luta temporal da existência fáctica, e encontrou em Aristóteles, especialmente na noção de phronesis, as ferramentas conceituais para compreender o tempo kairológico paulino e a experiência cristã da vida fáctica.
  • Durante o período de Marburgo, Heidegger prestou pouca atenção a Platão, subsumindo-o, na maioria das vezes, a uma agenda aristotélica e moderna, como quando, nas lições de 1921-22, menciona Platão para destacar a ética da phronesis, ou quando iguala a dialética de Platão à de Hegel, considerando-a inferior à theoria de Aristóteles.

3. Platão II: Platonismo (1929–1935)

3. Do final dos anos 1920 ao início dos anos 1930, Heidegger passou a pensar a ideia platônica do Bem nos mesmos termos de qualquer outra ideia da consciência humana, alinhando Platão com a história da Cristandade e, após a Segunda Guerra Mundial, com a tecnologia do século XX, responsabilizando-o por transformar a experiência grega primitiva da verdade (aletheia) e do Ser (physis) em correção da representação e ideia, respectivamente, fundando assim a tradição metafísica ocidental e o esquecimento do sentido do Ser.

  • A nova direção tomada por Heidegger após “Ser e Tempo”, anunciada em “Introdução à Metafísica” (1935), para superar a metafísica, foi apoiada por ideias de Nietzsche, Natorp, Jaeger e Aristóteles, sendo Nietzsche o catalisador para a argumentação de que Platão é o fundador da tradição metafísica.
  • Heidegger foi levado a Nietzsche, cujo significado para a história da filosofia ele reconheceu tardiamente, por três vias de cruzamento com Platão: a identificação de Platão como cristão por valorizar o suprassensível em detrimento do sensível, a crença de que a história do platonismo está encerrada e a consideração dos pré-socráticos como decisivos para reverter a tradição platônico-cristã.
  • Tanto Nietzsche quanto Heidegger concordam que Platão é um metafísico por sua teoria das ideias desvalorizar o reino sensível, que a história da filosofia chegou ao fim, ainda que por razões distintas (exaustão do espírito do tempo versus autodesvalorização dos valores supremos), e que os pré-socráticos (como Aristóteles para Heidegger) são uma fonte de inspiração para traçar um novo destino para o Ocidente.
  • Heidegger, no entanto, distingue-se de Nietzsche ao argumentar que, ao elevar o sensível ao status do suprassensível, Nietzsche é ele próprio um metafísico, um platonismo invertido, e não é ele quem marca o fim da história, mas sim Heidegger, que desloca Zaratustra como profeta de uma nova era.

4. Platão III: Apropriação de Platão

4. Apesar de Heidegger insistir em uma ruptura histórica entre os pré-socráticos e Platão, sua relação com o passado não é unívoca, e ele também se apropria positivamente da tradição, revisitando a filosofia de Platão e modificando suas interpretações, o que revela que seu conceito de fim da filosofia inclui uma repetição original da história da filosofia da qual novas possibilidades de pensamento são descobertas.

  • Robert Bernasconi argumenta que o fim da filosofia para Heidegger significa que a tradição nos fala de uma maneira diferente, e que há uma apropriação do que foi pensado, uma vez que a tradição permanece rica em verdade e a destruição fenomenológica é uma apropriação positiva da tradição.
  • Heidegger revisita Platão e modifica suas interpretações, isentando-o dos modernos ao afirmar que a noção contemporânea de valor não se aplica ao bem platônico, retratando sua própria afirmação sobre a transformação da verdade em Platão, e sugerindo que Platão não pode ser responsabilizado pela história da metafísica, pois o pensador apenas responde ao que se lhe dirige.
  • Em uma reversão de sua caracterização da visão, Heidegger argumenta que a atitude teórica é um tipo de práxis na qual o ser humano pode ser autenticamente humano, e credita Platão por ter vislumbrado o que em “Ser e Tempo” se chama de temporalidade primordial, além de distinguir Platão dos sofistas e considerar seu comportamento iluminativo como mais apto a compreender o horizonte autêntico da vida fáctica.
  • Heidegger tanto critica Platão por obscurecer dimensões cruciais da existência quanto o solicita para novas possibilidades, encontrando concordância entre Platão e Aristóteles, seja ao apontar que ambos rompem com os pré-socráticos ao igualar o Ser com o simplesmente dado (Vorhandenheit), seja ao ensinar que ambos começam a filosofar a partir do que é mais conhecido para nós, evitam a dicotomia sujeito-objeto e fundamentam a compreensão dos fenômenos na alma (Sorge), tendo Platão descoberto que o falso e aparente também é ser.

Conclusão

5. A relação de Heidegger com Platão tem dois lados que coincidem com as condições da vida fáctica – lembrar e esquecer –, de modo que algo positivo da filosofia de Platão é revelado no próprio ato de criticá-la, sendo a relação entre eles dialética, embora a imagem de Platão que foi legada à história da filosofia seja, em grande parte, aquela alimentada pela invectiva de Lutero contra a razão, pela crítica de Aristóteles a Platão e pela fenomenologia de Husserl, tendo Nietzsche como catalisador para o foco em uma relação não dialética.

  • A imagem de Platão que prevalece é a de um metafísico, logocêntrico, racionalista, etc., contrastada com o lado fenomenológico do pensamento de Heidegger.
  • Gadamer critica essa imagem não dialética, sugerindo que a resistência de Heidegger a Platão tem mais a ver com Aristóteles do que com Nietzsche, embora o poeta Nietzsche não seja suficientemente rigoroso para sustentar a análise heideggeriana, sendo os fundamentos conceituais para essa identidade encontrados nas lições de Marburgo sobre filosofia clássica.
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