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Cícero

Epicuro. Opere. UTET

CÍCERO, Do fim dos bens e dos males, I, 19, 63 (243 Us.).

Ele não reputou que na vossa dialética se possa encontrar alguma via para viver melhor ou também só para raciocinar mais oportunamente; mas atribuiu a maior importância à física. Por via de tal ciência pode-se compreender a eficácia das palavras, a natureza do discurso, a regra da consequência e da oposição. Com o conhecimento da natureza, depois, libertamo-nos da superstição, do medo da morte… Se portanto obtivermos uma sólida ciência do real, observando aquela regra que quase caiu do céu para nos dar o conhecimento de todas aquelas coisas à medida das quais deverão ser aferidos os nossos juízos, não poderemos jamais ser constrangidos a mudar de parecer, vencidos pelos discursos de quem quer que seja. Mas se não tivermos bem compreendido a natureza do real, de modo nenhum poderemos sustentar os nossos juízos baseados na experiência sensível. E certo tudo o que compreendemos com a mente tem a sua origem nas sensações; se depois, como quer a doutrina de Epicuro, estas são todas verdadeiras, poder-se-á, enfim, ter conhecimento e percepção segura de algo. Aqueles que suprimem a validade da sensação e afirmam que nada pode ser percebido, reduzem-se a não poder sequer provar, uma vez retirada a conhecimento sensível, sequer aquilo sobre o que estão raciocinando. Além disso, se se abolir o conhecimento e a ciência do real, cai juntamente toda regra da vida e das ações. Assim é pelo conhecimento da natureza que se extrai a força contra o temor da morte.., e, como expliquei há pouco, é por meio da regra do conhecer e do critério que se extrai desta que se ensina a distinção entre o verdadeiro e o não verdadeiro.

ibidem, I, 7, 22 (ibidem, Us.).

Já em outra parte da filosofia, aquela que concerne à arte do discurso e que se chama «lógica», este vosso Epicuro é, parece-me, absolutamente desprovido e inerme. Aboliu as definições, não ensina nada acerca da divisão e da articulação, não ensina de que modo um raciocínio se construa e se conclua, de que modo se resolvam os sofismos e se discirna a ambiguidade dos discursos: põe o critério da verdade nas sensações e retém que, se por estas uma única vez algo de falso fosse afirmado verdadeiro, não haveria mais alguma possibilidade de dar um juízo acerca da verdade ou da falsidade do objeto. Mas sobretudo dá relevo àquilo que, segundo ele, a natureza mesma decide e aprova, isto é, prazer e dor, e a estes reconduz o critério do que seja de escolher-se e de fugir-se.

CÍCERO, Lúculo, 25, 79 (251 Us.).

A tal ponto chega Epicuro, de dizer que, se uma sensação uma só vez na vida devesse induzir a erro, não haveria mais possibilidade de crer em nenhuma sensação.

IDÉM, Da natureza dos deuses, I, 25, 70 (ibidem Us.).

Epicuro temia que, se uma só sensação fosse revelada mentirosa, nenhuma mais se pudesse dizer verdadeira. E chamava os sentidos «núncios do verdadeiro».

IDÉM, Lúculo, 32, 101 (ibidem Us.).

Qual é o princípio de Epicuro? Se aparecer ser falsa uma alguma sensação, não se poderá mais ter percepção de nada.

CÍCERO, Lúculo, 7, 19 (252 Us.).

Não espereis que aqui eu me pronuncie sobre o remo dobrado ou sobre o colo da pomba. Não sou certo eu a dizer que tudo o que aparece é exatamente tal qual aparece.

CÍCERO, Da natureza dos deuses, I, 16, 43 (ibidem Us., 174 Arr.2).

Qual é aquele povo ou aquela estirpe humana que não tenha, mesmo sem a ciência, pelo menos uma antecipação acerca da existência dos deuses? Aquela que Epicuro chama prolepse, ou seja, a noção de algo anteriormente acolhida na mente sem a qual nada se pode compreender nem buscar nem discutir. Aprendemos a eficácia e a utilidade deste conceito daquele divino livro de Epicuro sobre a regra e o critério.

IDÉM, ibidem, 17, 44 (ibidem Us., 175 Arr.2).

Devemos admitir que também isto é noto, que nós temos uma antecipação ou prenoção, como já disse, acerca da existência dos deuses; já que é preciso pôr nomes novos às coisas novas, e assim Epicuro mesmo chamou «prolepse» àquela a que antes ninguém dera um nome.

CÍCERO, Do fim dos bens e dos males, I, 9, 30 (256 Us.).

E portanto ele nega que haja necessidade de raciocinar e discutir sobre o fato de o prazer ser de buscar-se e a dor de fugir-se; retém que isto seja objeto de sensação imediata, assim como o fato de o fogo dar calor ou a neve ser branca ou o mel ser doce, coisas todas que não necessitam de raciocínios específicos à sua prova; mas que é suficiente enunciar. Há muita diferença entre argumentação e conclusão do raciocínio de um lado, percepção comum e enunciação do outro: com as primeiras desvelam-se em certo modo coisas não claras e ocultas, enquanto com as outras dá-se juízo sobre coisas claras e evidentes. Mas pois que, retirada do ser humano a faculdade de sentir, não resta absolutamente nada, necessariamente é a própria natureza que deve julgar que coisa seja segundo a natureza e que coisa não o seja.

CÍCERO, ibidem, II, 2, 6 (257 Us.).

Epicuro… o qual diz frequentemente que cumpre exprimir com exatidão que substância real seja objeto da expressão verbal.

CÍCERO, Do fim dos bens e dos males, II, I, 3 seguintes (264 Us.).

Todo discurso que verte em torno de uma indagação deverá por primeira coisa, se quer proceder com método, dar indicações (acerca do objeto)… a fim de que os participantes na discussão estejam de acordo sobre o que se discute. Epicuro aprovou este princípio afirmado por Platão no Fedro, e foi cônscio que em cada discussão se deve assim proceder. Mas não viu o que é imediatamente consequente a isto; diz de fato que não aprova que se deem definições do objeto. Todavia sem isto não pode haver acordo entre os participantes na discussão, sobre que coisa verdadeiramente esta verte.


CÍCERO, Do fim dos bens e dos males, I, 6, 18 (281 Us.).

Epicuro depois, lá onde se ateve a Demócrito, pelo mais não cai em erro… as quedas são precisamente todas de Epicuro mesmo. De fato ele retém que esses corpos indivisíveis e sólidos se movam arrastados para baixo pelo seu peso a prumo, e que este seja o movimento natural de todos os corpos. Mas depois sobre este mesmo ponto aquele homem sagaz, já que compreendia que se todos os corpos se tivessem movido da região superior assim como disse, a prumo, não teria sido possível o encontro de algum átomo com um outro, … excogitou um artificioso expediente: afirmou que o átomo pode declinar um tantinho, com um deslocamento mínimo; e que assim se tornam possíveis o entrelaçar-se, o unir-se, o aderir um ao outro dos átomos, de onde se originam o universo e todas as suas partes e o que ele contém… Configura a seu prazer este mesmo desvio; afirma de fato que os átomos desviam sem alguma causa… Chega assim a retirar dos átomos sem razão, aquele movimento natural, que ele mesmo havia inicialmente postulado, de todos os corpos pesados os quais se dirigem dos seus lugares originários para o baixo, sem contudo conseguir o escopo para o qual havia excogitado tal expediente. Se de fato todos os átomos desviam, nem mesmo neste caso poderão encontrar-se; se alguns desviam e outros se movem perpendicularmente, por puro arbítrio, cumpre distribuir aos átomos quase zonas distintas segundo se movam em linha reta ou obliquamente; e, enfim, aquele turbinoso encontrar-se dos átomos, ao qual também Demócrito se mantém firme, não poderá decerto formar a ordem que vemos no universo.

CÍCERO, Do fado, 10, 22 (ibidem, Us.).

Epicuro reputou que a necessidade do fado se possa evitar com o desvio dos átomos. É assim que se origina uma terceira espécie de movimento, além daquele provocado pelo peso e daquele provocado pelo choque, com o desvio do átomo de um descarte mínimo (eláchiston, é a sua precisa palavra); que tal desvio não tenha uma causa, ainda que ele não o exprima com abertas palavras, admite-o implicitamente por necessidade, desde o momento em que neste caso o átomo não desvia do seu curso por choque com outros átomos. Como poderiam alguns átomos, de fato, chocar-se com outros, se os corpos indivisíveis se movem arrastados pelo seu peso a prumo por linhas retas, como ele afirma? Ninguém chocando-se com outro, segue-se que não poderia jamais entre eles haver encontro; e disto deriva que, mesmo que os átomos existam e sofram desvio, isto deve ocorrer sem alguma causa. Epicuro introduziu esta teoria porque temia que, admitindo que o átomo se mova sempre pela causa natural e necessária do seu peso, a nós não restaria liberdade alguma, já que a nossa alma se moveria assim como a constrangeria a mover-se o movimento dos átomos. Demócrito, o primeiro introdutor da noção de átomo, preferiu invés aceitar isto, que tudo ocorra por necessidade, antes que retirar aos corpos indivisíveis o seu movimento natural.

CÍCERO, ibidem, 20, 46 (ibidem, Us.).

Deste modo deve ser discutida esta causa, e não pedindo socorro aos próprios átomos errantes e desviantes do seu caminho. Ele afirma: «o átomo sofre desvio». Em primeiro lugar, por quê? Por Demócrito os átomos haviam sido concebidos como dotados de uma outra força motriz, aquela que ele chamava «força de choque»; para ti, Epicuro, o movimento depende exclusivamente da gravidade e do peso. Qual é portanto a razão extraordinária na natureza que provoca o desvio do átomo? Talvez eles mesmos tirem a sorte entre si quais devam desviar e quais não? E por que desviam de um só intervalo mínimo, e não de dois ou três intervalos? Tudo isto é a expressão de uma veleidade e não uma posição doutrinal. Não dizes de fato que o átomo se desloque do seu lugar e desvie porque empurrado do exterior; nem que naquele espaço vazio em que o átomo se move existam causas tais que lhe impeçam o movimento perpendicular do alto para o baixo; nem que no átomo mesmo se tenha verificado uma mudança tal que o faça abandonar o movimento natural consequente ao seu peso. Portanto, embora não tendo aduzido alguma causa capaz de dar lugar a este desvio, Epicuro retém ter formulado uma teoria importante, enquanto na realidade faz uma afirmação que a razão universalmente desdenha e repele.

CÍCERO, ibidem, 9, 18 (ibidem, Us.).

Nem… se vê por qual motivo Epicuro deva temer o fado, e peça socorro aos átomos fazendo-os desviar do seu caminho, e ao mesmo tempo chame a si duas dificuldades inextricáveis: a primeira, que haja algo que acontece sem causa, o que leva à consequência de que algo possa nascer do nada… a outra, que, de dois corpos indivisíveis que caem igualmente através do espaço vazio, haja um que caia ao longo da perpendicular, o outro que desvie desta.

CÍCERO, Da natureza dos deuses, I, 25, 69 (ibidem, Us.).

Epicuro, apercebendo-se que se os átomos caíssem para o baixo em virtude do próprio peso, nós não teríamos liberdade alguma, pois que neste caso o seu movimento seria determinado e necessário, estudou um expediente para evitar a necessidade, aquele expediente que Demócrito não havia querido adotar: disse que o átomo, no seu cair para o baixo perpendicularmente por via da gravidade, sofre um leve desvio.

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