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Diálogos

Ilsetraut Hadot. Apprendre à philosopher dans l’Antiquité.

Épicteto não deixou escritos, sendo seu ensinamento conhecido apenas pela mediação de discípulos que tomaram notas de suas aulas.

  • Arriano foi o responsável pela redação dos Diálogos, repetindo o modelo já adotado por Musônio, mestre de Epicteto, cujo ensinamento chegou até nós por meio de dois discípulos: Lúcio e um certo Polião.
  • Epicteto pertencia à categoria de filósofos que optavam deliberadamente pelo ensino exclusivamente oral.
  • Longino, filósofo e filólogo citado por Porfírio na Vida de Plotino, enumera vários filósofos contemporâneos seus que tomaram a mesma decisão.

O papel de Arriano na redação dos Diálogos foi amplamente debatido, prevalecendo a conclusão de que o texto reflete fielmente as palavras de Epicteto.

  • A opinião tradicional sustentava que Arriano reproduziu fielmente as palavras de Epicteto — chegando-se a cogitar o uso de estenografia.
  • Alguns autores tentaram demonstrar que a parte de redação de Arriano era considerável e que ele teria inventado diálogos entre Epicteto e certas personagens.
  • O trabalho de B. Wehner sobre a estrutura do diálogo nos Diálogos, identificando todos os traços de oralidade na redação de Arriano, é suficiente para mostrar que os Diálogos refletem fielmente, em seu essencial, as palavras de Epicteto.
  • Os Diálogos situam-se a meio caminho entre simples notas e obra literária acabada: certas partes refletem o ensino oral, outras revelam um esforço de redação.

Ao redigir os Diálogos, Arriano renunciou a transmitir o ensinamento teórico de Epicteto, limitando-se aos diálogos e omitindo inteiramente os exercícios de exegese textual.

  • Nos Diálogos, Epicteto alude a explicações de textos ocorridas em momento distinto dos diálogos que constituem o grosso da obra — diálogos nos quais nunca aparecem exercícios de exegese.
  • Em I, 26, 1, Arriano relata que, após a explicação de um aluno sobre os silogismos hipotéticos, Epicteto aproveitou para desenvolver suas ideias sobre a lei da vida — mas nada diz sobre o conteúdo do exercício lógico que serviu de ponto de partida.
  • Em I, 10, 8, Epicteto confessa a sua própria preguiça ao acordar: ao amanhecer, pensa brevemente na explicação de texto que vai conduzir, mas logo se diz a si mesmo que mais vale dormir do que se preocupar com a maneira como alguém interpreta um texto.
  • Reproduzir ou resumir as exegeses dos textos de Crisipo, Antípatro ou Arquédemo relativos à física ou à lógica teria sido uma tarefa gigantesca e praticamente irrealizável, dado que Epicteto se situava pessoalmente nessa tradição do estoicismo.

A escola de Epicteto abrigava uma intensa atividade escolar totalmente alheia aos Diálogos, pois o ensino filosófico havia assumido, a partir do século I a.C., uma forma exegética baseada na explicação de textos.

  • Desde Sócrates e Platão até Arcesilau e Carnéades, o ensino havia consistido sobretudo na discussão dialética; a partir do século I a.C., passou a adotar a forma de explicação de textos — os dos fundadores da escola, como Zenão ou Crisipo, ou talvez de resumos e manuais.
  • A discussão não desapareceu totalmente: constituía uma segunda parte do curso.
  • Aulo-Gélio relata que interrogava Tauro — um platônico que ensinava em Atenas — durante o curso; após a leitura diária — que consistia na exegese dos diálogos de Platão —, Tauro dava a cada um a possibilidade de fazer-lhe perguntas sobre um tema de sua escolha.
  • Havia portanto duas partes no curso: a explicação de texto e, em seguida, as perguntas livres — e os Diálogos de Epicteto, sendo discussões com alunos ou visitantes, correspondem a essa segunda parte.

A obra de Arriano recebe designações diversas nos manuscritos e na tradição literária, todas remetendo aos cursos de Epicteto ou ao modo como foram registrados.

  • Títulos como Diálogos, Conversações, Discussões e Cursos indicam que o conteúdo se refere às aulas de Epicteto — sem que se deva entender “diatribe” no sentido de gênero fantasma inventado por certos historiadores da literatura e da filosofia no final do século XIX, que perdurou até o final do século XX e contribuiu para criar confusão na análise do discurso filosófico antigo.
  • Outras designações indicam que esses cursos foram registrados em notas ou que foram objeto de comentários e recordações.
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