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Hermes

VAN DEN KERCHOVE, Anna. La voie d’Hermès: pratiques rituelles et traités hermétiques. Leiden Boston: Brill, 2012.

II. HERMES, DO DISCÍPULO AO MESTRE

Se o narrador de CH I for Hermes Trismegisto, esse tratado documenta sua transição de discípulo a mestre, um tema central que fundamenta a legitimidade de toda a tradição hermética.

  • CH I narra como o narrador foi escolhido e instruído, de onde vem o saber e qual o propósito de sua transmissão, enquanto SH 23 também menciona, embora brevemente, a instrução de Hermes.
  • Os dois textos diferem em perspectiva: SH 23 é um ensino de Ísis muito posterior a Hermes, enquanto CH I é um relato em primeira pessoa do próprio narrador.

1. Hermes, o herdeiro de toda uma tradição

Tanto em CH I quanto em SH 23, o status de Hermes e do narrador como recipientes da instrução divina é resultado de uma escolha divina baseada em suas aptidões e preparação.

  • Em SH 23.5, Ísis afirma que Hermes foi escolhido por possuir “o vínculo de simpatia com os mistérios celestes”, ou seja, os astros.
  • Em CH I 1, o autor descreve a escolha divina pela epifania de Poimandres, que chama o narrador pelo nome, como resposta à sua atitude de separar o espírito do corpo e colocar os sentidos em segundo plano.
  • O chamado nominal pelo divino significa que o narrador é pessoalmente reconhecido, uma ideia enraizada nas concepções antigas do nome próprio como suporte da essência da pessoa.
  • Ao contrário de outros discípulos, o narrador recebe todo o conhecimento em uma única lição apocalíptica, como indicado pela fórmula de Poimandres em CH I 26: “tendo tudo herdado”.
  • O uso do verbo παραλαμβάνω, que significa “herdar” no contexto intelectual, define o narrador como herdeiro e depositário do saber, proclamando sua dependência e confiança em Poimandres.
  • A relação entre Poimandres e o narrador não é afetiva (não se chamam de “pai” e “filho”) e é de curta duração, destacando o caráter excepcional do ensino e do narrador como depositário terrestre único da revelação.
  • Em CH I 26, Poimandres atribui ao narrador a missão de se tornar um guia para os homens dignos, para que o gênero humano seja salvo por Deus por seu intermédio, estabelecendo a urgência da instrução como meio de salvação.
  • A citação de Poimandres em CH I 26: “Este é o bom fim para aqueles que possuem o conhecimento: tornar-se deus. Agora, que tardas? Tendo herdado tudo, não te tornaras um guia para os (homens) dignos para que o gênero da humanidade, por tua intermediação, seja salvo por Deus?”.
  • Este é o único trecho da literatura hermética que vincula diretamente a necessidade de instruir os homens, a recepção do saber pelo narrador e seu papel como guia para o salvamento do gênero humano.
  • Em CH XIII 15, Hermes relembra a Tat que Poimandres lhe transmitiu tudo por escrito, usando o termo παραδίδωμι, reafirmando sua posição de intermediário único e herdeiro para legitimar sua capacidade de ensinar.

2. Hermes missionário

Por meio da instrução e da ordem divina, o narrador de CH I passa da condição de discípulo à de missionário, um papel que serve de fundamento e justificativa para a posição privilegiada de Hermes em quase todos os outros tratados.

  • A ordem de Poimandres para instruir os homens serve como justificativa para a situação privilegiada de Hermes como instrutor em quase todos os outros tratados e fragmentos.
  • A revelação de Poimandres funciona como a “Revelação primordial” que funda o círculo religioso dos hermetistas, razão pela qual o compilador tardio do Corpus hermeticum a colocou em primeiro lugar.
  • Comentadores modernos aproximaram a missão do narrador em CH I 26-27 da tradição judaico-cristã, especialmente dos textos paulinos, como Atos dos Apóstolos 1.6-9, onde Jesus envia seus discípulos em missão.
  • A comparação com Atos 1.6-9, embora não indique dependência direta, revela especificidades herméticas: Poimandres é um ser divino de dimensões indefinidas, enquanto Jesus é o filho de Deus encarnado.
  • Enquanto Jesus fala a um grupo de discípulos, Poimandres se dirige a um único discípulo, o narrador, reduzindo o alcance geográfico e humano da mensagem hermética em comparação com a cristã.
  • O narrador deve ser um “guia” (καθοδηγός) apenas para os “dignos” (ἄξιοι), que não são predestinados, mas possuem disposições morais para prestar atenção, ao passo que os discípulos de Jesus devem ser “testemunhas” (μάρτυρες) para toda a terra.
  • A universalidade hermética é coletiva (um pequeno número de homens dignos basta para salvar o gênero humano), divergindo da universalidade cristã individual e universalizante.
  • A missão hermética tem características próprias: seu alcance é universal e coletivo, dirige-se a um pequeno número e seu conteúdo concerne a Deus, o mundo, o homem, suas origens e seu devir.

3. Hermes, autoridade e modelo dos hermetistas

Se a identificação do narrador de CH I com Hermes Trismegisto for aceita, ele se torna uma figura ambígua entre o mundo divino e humano, um ser humano divinizado que serve de autoridade e modelo para todos os hermetistas.

  • Como herdeiro da “Revelação primordial” e missionário, Hermes oscila entre o mundo divino e o humano, tendo se beneficiado de uma visão que o colocou em contato com o divino.
  • Em CH XIII 15, subentende-se que Hermes alcançou a Ogdóade, e em SH 23, Ísis o apresenta como uma alma que existia antes do gênero humano e que remontou aos astros.
  • O narrador sofre modificações internas e definitivas em CH I 30 que lhe conferem um caráter divino e o aproximam de Poimandres, cuja função de “guardião das portas” (πυλωπός) é similar à de “guia” (καθοδηγός) assumida por Hermes.
  • Tanto Poimandres quanto Hermes compartilham características com o deus grego Hermes e com o deus egípcio Thot, reforçando o vínculo e a continuidade entre a revelação primordial e a instrução a ser transmitida.
  • A epiclese Trismegisto, atribuída a Hermes, concretiza a síntese entre Hermes e Thot e acentua seu prestígio e status divino, sendo atestada em toda a literatura hermética e em documentos papirógicos e epigráficos.
  • A origem egípcia da epiclese “três vezes muito grande” é avançada desde Champollion, e pesquisas posteriores confirmam que o equivalente egípcio seria “3 3 3 wr”, encontrado em um fragmento de um naos de Moscou do final do século II a.C.
  • O nome de Hermes é ligado a múltiplas funções divinas: o aspecto “comum” (Κοινός) refere-se à eloquência, invenções e magia, enquanto “condutor” (ἡγεμόνιος, πομπαῖος, ψυχοπομπός) refere-se ao seu papel de guia dos mortos e mensageiro dos deuses.

4. CH I: um ritual de investidura?

Se Hermes é um modelo a ser imitado, o tratado CH I pode ser interpretado como um guia para um ritual de investidura, onde o destinatário hermética se identifica com o narrador e, sob a orientação de um mestre, passa pela mesma experiência de instrução e transformação.

  • O anonimato do narrador, a narração em primeira pessoa e o estilo direto facilitariam a identificação do destinatário hermética com o narrador, permitindo-lhe viver as mesmas visões, instrução e transformações internas.
  • No ritual proposto, o mestre assumiria o papel de Poimandres, e o discípulo tomaria o lugar do narrador, recebendo um lembrete dogmático dos fundamentos herméticos.
  • O nome do discípulo seria inserido no lugar do nome suspenso do narrador, um procedimento análogo ao uso da fórmula “um tal” (δεῖνα) em receitas e fórmulas mágicas.
  • Ao final do ritual, o discípulo se tornaria um mestre, um sucessor do narrador ou um novo Hermes, adquirindo a mesma autoridade e legitimidade dentro de seu círculo por meio das experiências vividas.
  • Uma cadeia hermética se estabelece, remontando a Poimandres como fonte do ensino e a Hermes Trismegisto como primeiro elo humano, que age como os ritualistas egípcios que imitam a ação divina.
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