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Monique Canto-Sperber
PLATON. Gorgias. Traduction, introduction et notes de Monique Canto-Sperber. Paris: Flammarion, 1993.
Estrutura
1. Górgias e Sócrates: como definir a retórica? (449a-461b)
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Górgias define a retórica como a arte dos discursos destinados a persuadir tribunais e assembleias sobre o justo e o injusto, levando Sócrates a propor que ela seja entendida como produtora do sentimento de convicção.
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A convicção produzida pela retórica resulta de crença, não de saber.
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Górgias admite que a retórica persuade sem que o orador precise conhecer aquilo sobre o qual faz crer.
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Górgias ressalva que tal poder não deve ser usado abusivamente e que usos injustos não comprometem a retórica nem seus mestres.
Sócrates distingue o diálogo dialético da retórica, exigindo que as respostas sejam dadas com verdade e precisão, sem recorrer a discursos longos.-
Górgias invoca o tédio dos ouvintes para resistir a prosseguir, mas o público insiste e o diálogo continua.
A questão dos vínculos entre retórica e justiça leva Górgias a afirmar que ensina a justiça a quem ainda não a conhece.-
Sócrates expõe a contradição: se todo orador conhece a justiça, como pode fazer uso injusto da retórica?
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Polos interrompe bruscamente, acusando Sócrates de induzir Górgias ao erro.
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Sócrates aceita que Polos responda no lugar de Górgias, desde que renuncie às longas tiradas retóricas.
2. Polos e Sócrates: a retórica é uma adulação; o único bem é a justiça. (461b-481b)
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Sócrates afirma que a retórica não é uma arte, mas um procedimento empírico de adulação que imita artes verdadeiras sem visar ao bem de seu objeto, apenas ao prazer.
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A culinária e a arte da maquiagem são adulações do corpo, contrafações da medicina e da ginástica.
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A retórica e a sofística adulam a alma e são os falsos semblantes da justiça e da legislação.
Polos opõe à tese socrática o poder político absoluto dos oradores, que Sócrates contesta ao argumentar que esse poder não é vantajoso para quem não reconhece seu verdadeiro bem.-
Sócrates recusa invejar quem pratica livremente ações injustas, pois cometer a injustiça é o maior dos males.
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O único bem é a justiça; o homem injusto não pode ser feliz.
Polos invoca a trajetória do tirano Arquelau, que chegou ao poder por meio das piores injustiças e parece ser, ao mesmo tempo, injusto e feliz.-
Sócrates recusa esse exemplo e o tipo de prova que ele representa: testemunhos externos não valem; apenas o testemunho do próprio interlocutor importa.
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O homem injusto que permanece impune é ainda mais infeliz do que o que é punido.
Sócrates demonstra que cometer a injustiça é mais feio e, portanto, pior do que sofrê-la, e que a punição é um bem que liberta do pior dos males.-
A felicidade consiste em agir com justiça ou em ser justamente punido quando se age mal.
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Arquelau, como qualquer tirano ou orador injusto, não pode ser poderoso nem feliz.
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A retórica só seria útil para se acusar publicamente, e para acusar os próximos, ao se cometer uma injustiça.
3. Calicles e Sócrates: a força da natureza e sua injustiça. (481b-506b)
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Calicles entra em cena questionando Querefonte se Sócrates fala sério ao defender teses tão paradoxais, e Sócrates responde que, assim como Calicles, é apaixonado, porém de modo constante pela filosofia.
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Calicles arrisca ser tão inconstante quanto seus objetos de amor: o jovem Demos, filho de Prilampe, e o Demos, povo de Atenas.
Calicles acusa Sócrates de confundir deliberadamente natureza e lei para desorientar os interlocutores, propondo que na ordem natural o único direito é o da força.-
A lei positiva é obra dos fracos para proteger sua fraqueza contra o poder dos fortes.
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A filosofia não permite descobrir essas verdades, e Sócrates é convidado a abandoná-la em favor da vida política.
Sócrates recorda que Calicles, em sua juventude, teve gosto pela filosofia, interpretando isso como sinal de que seu ardor presente é inspirado por interesse e amizade.-
Com ironia, Sócrates valoriza ter um interlocutor tão bem disposto a testar a qualidade de sua alma e a aconselhar a melhor maneira de viver.
O sentido exato da força dos fortes é examinado: Calicles admite primeiro que é a força do maior número, depois que é a dos homens mais inteligentes e corajosos no domínio político.-
Pressionado, Calicles reconhece que o homem mais forte é o mais capaz de sentir paixões intensas, de alimentá-las e de satisfazê-las.
Sócrates opõe a essa concepção a alegoria dos seres insaciáveis, cuja alma é como uma peneira de onde toda satisfação escapa e precisa ser constantemente renovada.-
A força dos mais fortes é feita apenas de sua insatisfação.
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Não se pode afirmar que o prazer é idêntico ao bem, pois há prazeres bons, que são úteis, e prazeres maus, que são prejudiciais.
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É necessário um método que permita distingui-los e fazer servir apenas os prazeres bons à realização do bem.
A oposição fundamental entre Sócrates e Calicles recai sobre a escolha entre dois modos de vida: a vida política, baseada na retórica e na adulação, e a vida filosófica, retirada da política e devotada ao bem da alma.-
A vida política depende da vontade e dos desejos daqueles cujo crédito se quer conquistar.
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A vida filosófica é independente e consagrada ao bem da alma.
Sócrates examina os grandes oradores considerados benfeitores de Atenas e conclui que serviram ao povo sem torná-lo melhor, pois o verdadeiro bem político seria a justiça, a ordem e a harmonia.-
Esses oradores ofereceram riqueza e prestígio em vez dos verdadeiros bens da alma.
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Tais bens da alma são radicalmente contrários ao desregramento que Calicles considera o bem supremo.
Calicles recusa-se a continuar respondendo com sinceridade, rompendo o compromisso que tornava possível o diálogo dialético.-
Para satisfazer Górgias, Calicles aceita fazer o papel de respondente de Sócrates, mas nega responsabilidade sobre suas respostas e declara de antemão que não se sentirá refutado caso Sócrates encontre uma contradição.
4. Sócrates sozinho: a escolha de uma vida de justiça e de filosofia. (506b-527e)
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Sócrates conduz sozinho perguntas e respostas, reafirmando que o verdadeiro bem consiste na justiça e na temperança, às quais devem tender todas as forças do indivíduo e da cidade.
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A tentativa de definir a retórica é subordinada ao debate sobre os valores respectivos da retórica e da filosofia.
A retórica pode permitir defender-se e salvar a vida, mas existe uma proteção ainda mais eficaz: assemelhar-se ao povo ou ao tirano a quem se serve, tornando-se tão injusto quanto eles.-
Ninguém aceitaria salvar a vida a esse preço.
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O valor da vida não está em vivê-la o mais longamente possível, mas em vivê-la segundo a justiça.
Os grandes homens de Atenas citados por Calicles como exemplos, Péricles, Cimon, Milcíades e Temístocles, serviram ao povo sem torná-lo melhor.-
A prova disso é que todos foram, de uma forma ou de outra, vítimas da injustiça de seus concidadãos.
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Um verdadeiro político teria ensinado a justiça aos concidadãos que os acusaram injustamente.
Sócrates expõe sua própria resolução: não buscar agradar à alma, mas torná-la melhor, aceitando os riscos de ser injustamente acusado e condenado à morte.-
Ao menos assim é possível evitar a injustiça e comparecer diante da morte com a certeza de ter vivido uma vida de justiça.
Mito e conclusão
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Sócrates relata um mito que apresenta como história verdadeira: o julgamento dos mortos nos Infernos, onde riqueza e prestígio não têm valor algum e apenas a boa qualidade da alma e o hábito de justiça decidem o destino dos mortos.
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Nesse tribunal dos mortos, nenhuma dissimulação, ilusão ou retórica tem qualquer efeito: a alma é completamente desnudada.
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Do ponto de vista da utilidade, a justiça deve ser praticada, pois só ela pode evitar uma vida de tormentos eternos.
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O Górgias encerra-se com a recusa dos argumentos de Calicles, que pretendiam provar o benefício da injustiça.
Temas
1. Retórica e justiça
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O Górgias articula dois registros de questões que se compõem e interferem entre si: a crítica da retórica como contrafação da arte, cujo fim é o prazer em vez do bem, e a reflexão sobre a justiça e a filosofia como engajamento de vida e conhecimento do verdadeiro bem do homem.
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A crítica da retórica é sempre motivada pela vontade de definir qual gênero de vida se deve adotar.
Os manuscritos medievais do Górgias e o catálogo citado por Diógenes Laércio indicam o diálogo com o subtítulo “sobre a retórica”, subtítulo tão antigo quanto o primeiro agrupamento das obras de Platão em tetralogias.-
Olimpiodoro, entre os comentadores neoplatônicos, já havia observado a impossibilidade de reduzir o Górgias a uma simples crítica da retórica.
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Olimpiodoro define o alvo do Górgias como saber quais são “os princípios éticos capazes de nos proporcionar a felicidade política”, lendo-o como diálogo consagrado aos valores morais capazes de fundar a ação política.
A articulação dos dois temas pode ser descrita percorrendo cada sequência do diálogo: a primeira discussão entre Sócrates e Górgias interrompe-se quando Sócrates quer saber se o mestre de retórica deve ensinar a justiça.-
O entretien entre Polos e Sócrates abre-se com a retórica e encerra-se sobre sua utilidade, mas sua parte central distingue o bem aparente do bem real e a falsa potência da verdadeira.
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A discussão entre Sócrates e Calicles recai sobre a escolha de vida, com breves digressões sobre a retórica como instrumento de salvação e prática da adulação popular.
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O mito final reúne retórica e filosofia num tribunal divino onde a retórica nada pode e tudo depende da justiça.
Dodds propôs um esquema para descrever a combinação dos dois temas, retórica (a) e ética (b), ao longo das três sequências do diálogo.-
Sócrates e Górgias: a (449c-461b), b (in fine).
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Sócrates e Polos: a (461b-466a), b (466a-480a), a (480a-481b).
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Sócrates e Calicles: b com alusões a a (482c-486d), b (486d-500a), a (500a-503d), b (503d-515b), a (515b-521a), b (521a-526d), b com alusões a a (526d-527e).
2. Retórica e filosofia
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A oposição entre retórica, associada à ação política, e filosofia, vinculada à reflexão ética, era familiar aos contemporâneos de Platão, como resume um fragmento de Antístenes: “Se queres que um rapaz viva com os deuses, ensina-lhe a filosofia; se é com os homens, ensina-lhe a retórica.”
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Para os interlocutores do Górgias, negligenciar a retórica e renunciar a saber se defender diante dos homens é arrriscar a própria vida.
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A escolha que Sócrates propõe entre vida pública com domínio da retórica e vida retirada devotada à filosofia não é apenas uma escolha entre dois estilos de existência, mas também entre a vida e a morte.
A retórica torna a injustiça demasiado fácil e lucrativa para que a razão comum consiga evitá-la, fazendo que a escolha por uma vida de justiça apareça como desvantajosa e sem benefício imediato.-
É justamente para provar que tal vida representa o único bem real que o Górgias se empenha.
A condenação da retórica e o estímulo à filosofia operam de modos distintos: a crítica se faz pela refutação das pretensões retóricas, evidenciando suas contradições e sua incompatibilidade com os valores correntes.-
Essa refutação se dirige sucessivamente a Górgias, Polos e Calicles.
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O engajamento na filosofia toma a forma de uma exortação, de um protréptico, fundado em argumentos e destinado a orientar a vontade e o desejo do sujeito para o estudo da filosofia e a prática da justiça.
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Esse protréptico concentra-se nos conselhos de Sócrates a Calicles, na exortação a reconhecer a superioridade da justiça e no mito final do destino das almas.
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Toda resolução de orientar-se para o verdadeiro bem exige a denúncia dos falsos bens.
A unidade do Górgias é dificilmente contestável: cada entretien radicaliza a discussão precedente, torna explícitas condições que o interlocutor anterior não havia formalmente enunciado, e a passagem das questões sobre a retórica às questões de ética política representa um aprofundamento da análise.-
A retórica faz uma tripla entrada em cena no Górgias, estruturando-o em três atos, encadeamento único nos diálogos platônicos.
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No livro I da República há revezamento de personagens semelhante, com Céfalo, Polemarco e Trasímaco, mas entre eles não existe vínculo definido.
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Os interlocutores de Sócrates no Górgias são solidários entre si: partilham a mesma admiração pela retórica, e cada um precisa, ao intervir, que relação o liga ao predecessor.
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A lógica do Górgias é ao mesmo tempo argumentativa, lógica dos problemas e lógica dramática.
Diante da retórica encarnada por três personagens, Sócrates faz a unidade do diálogo: formula as primeiras questões, narra a última história e é diretamente interpelado pelos interlocutores, tendo de se defender, justificar suas escolhas, evocar seu passado e pressentir seu futuro.-
A unidade do Górgias apoia-se também na coerência de uma personalidade e na solidez de um engajamento de vida, cuja consistência e integridade só se confirmam à medida que os debates avançam.
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