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2. Mênon e Sócrates (Mênon 79e-86d)
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O paradoxo de Meno estabelece a impossibilidade lógica da investigação ao postular que não se pode buscar o que se conhece nem o que se desconhece.
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Meno utiliza um argumento erístico, provavelmente derivado de Gorgias, que nega a possibilidade do aprendizado por considerar o conhecimento como uma coleção de itens discretos e desvinculados de uma totalidade.
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Socrates observa que este argumento produz paralisia intelectual, servindo como pretexto para a indolência e para a manutenção do estado de ignorância inicial do interlocutor.
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A falácia do paradoxo reside na ignorância acerca do todo, pois desconsidera que o desconhecido é reconhecido como uma lacuna dentro de um campo já parcialmente inteligível.
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“Mas como você procurará algo quando não sabe minimamente o que é? Como diabos você vai configurar algo que não conhece como objeto de sua busca? De outra forma, mesmo que você o encontre, como saberá que o que encontrou é a coisa que não conhecia?”
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A teoria da reminiscência resolve o paradoxo ao introduzir uma dimensão intermediária entre a ignorância absoluta e o conhecimento pleno.
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Socrates recorre a um mito de origem divina para afirmar que a alma, sendo imortal e tendo contemplado a totalidade das coisas, possui um saber latente que pode ser recuperado.
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O aprendizado é redefinido como o esforço de recordação (anamnesis), exigindo coragem e persistência para converter o conhecimento implícito em reconhecimento explícito.
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A fundamentação desta possibilidade repousa na afinidade universal da natureza, onde a conexão entre as partes permite a transição de um dado conhecido para o todo.
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“Visto que a alma é imortal e nasceu muitas vezes e viu todas as coisas, tanto aqui quanto no Hades, não há nada que ela não tenha aprendido. Portanto, não é de admirar que ela possa recordar o que já sabia antes sobre a virtude e outras coisas. Pois toda a natureza é afim, e a alma aprendeu tudo, de modo que, se um homem recordou uma única coisa — aprendeu-a, como dizemos — ele é capaz de descobrir todas as outras.”
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A manifestação do todo ocorre através da mediação de imagens que permitem à alma apreender o original que nelas se anuncia.
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Socrates demonstra no Phaedo que a percepção de objetos sensíveis, como uma lira ou um retrato de Simmias, desencadeia o movimento da alma em direção ao objeto ausente ou à ideia correspondente.
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A relação de imagem (eikon) não se limita à semelhança externa, mas funciona como um veículo de manifestação de totalidades que estão necessariamente retiradas da visão imediata.
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O reconhecimento de que as coisas sensíveis “aspiram” à perfeição de formas como o Igual em si pressupõe que a alma já possui um contato prévio e originário com esses modelos.
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“Embora possamos vir a conhecer o igual em si apenas através da visão de coisas como paus e pedras iguais, podemos, por outro lado, apreender estes últimos como aproximando-se, mas ficando aquém do igual em si, apenas se já conhecermos, em algum sentido, o igual em si.”
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A demonstração prática com o escravo ilustra a passagem da confiança ignorante para a consciência da perplexidade e, finalmente, para a descoberta da verdade.
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Socrates utiliza diagramas geométricos para mostrar que um jovem sem instrução formal pode, por meio de perguntas adequadas, descobrir relações matemáticas complexas.
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O episódio serve como um espelho invertido da conduta de Meno: enquanto o escravo progride da paralisia para o saber, Meno permanece fixado em sua ignorância de si mesmo.
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A exposição em ato (ergon) confirma que o saber não é transmitido externamente, mas evocado de dentro do próprio sujeito através da dialética.
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A recusa de Meno em prosseguir na investigação da essência da virtude confirma sua permanência na superfície do discurso memorizado.
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Meno demonstra ter aprendido apenas a fórmula verbal da reminiscência, sem realizar o movimento interior de conversão exigido pela filosofia.
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O interlocutor insiste em retornar à pergunta utilitária sobre como se adquire a virtude, ignorando que a compreensão do todo deveria preceder a análise das propriedades.
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A memória de Meno revela-se como um depósito de opiniões alheias e inconsistentes, desprovida da unidade que caracteriza o conhecimento autêntico e a autêntica recordação.
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“Se a verdade sobre os seres está sempre em nossa alma, então a alma é imortal.”
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A estrutura do aprendizado humano é revelada como uma mediação constante entre a obscuridade da parte e a luminosidade do todo.
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A possibilidade da investigação é sustentada por um saber que já é concedido, mas que permanece envolto em esquecimento e carece de esforço para ser atualizado.
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O mito da reminiscência atua como uma resposta não apenas ao paradoxo lógico, mas à própria constituição existencial de Meno, que ignora a mistura de luz e sombra em seu próprio intelecto.
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O diálogo estabelece que a virtude do buscador reside na disposição para o questionamento, reconhecendo que a manifestação da verdade exige a aceitação da própria finitude e da necessidade de mediação.
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