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Conhecimento

Abel Jeannière

No domínio do conhecimento repete-se o que foi dito da coisa: trata-se do mesmo devir e da mesma lei, onde nada pode ser conhecido senão por seu oposto.

  • Conhecem-se as coisas apenas por oposição ao que elas não são, e é assim que o dinamismo do conhecimento pode corresponder ao dinamismo que é o próprio ser.
  • A negação é justamente o que assegura o dinamismo do conhecimento; o ser não pode, após Tales e em sua linha, ser tomado como vivente, a menos que o não-ser lhe corresponda em realidade.
  • O problema do juízo negativo está então posto, com a ideia subjacente de que todo juízo, se é verdadeiro e definitivo, passou pela negação, sendo o motor do juízo a negação.

A anedota de Homero e as crianças

Heráclito afirma essa concepção sob a forma de uma anedota sobre Homero, permitindo-lhe sugerir as consequências morais dessa constatação epistemológica.

  • Citação do fragmento 56: Os homens se enganam sobre o conhecimento do mundo visível, um pouco como Homero, que foi no entanto mais sábio do que todos os gregos juntos. Umas crianças, ocupadas em matar piolhos, o enganaram dizendo-lhe: o que vemos e pegamos, nós deixamos; o que não vemos nem pegamos, nós levamos.
  • Heráclito nunca foi indulgente com Homero, a quem chama aqui, em tom irônico, mais sábio do que todos os gregos juntos.
  • O maior defeito de Homero, já assinalado por Xenófanes, é não ter sabido negar do divino as imperfeições humanas.

A negação do sensível para o conhecimento

Para conhecer, é preciso saber negar; como as crianças da anedota, o filósofo abandona o que vê.

  • O que o filósofo vê são as margens, sempre iguais, do rio onde no entanto ninguém se banha jamais duas vezes; o que ele guarda é o logos que está nele, esse logos próprio à alma e que se aumenta ele mesmo, que é uma chave que lhe abre o universo, mas permanece para além do que o conhecimento sensível faz apreender.
  • A vista é uma mentira; só há uma maneira de compreender o sensível: abandoná-lo, renunciar a ele; é dessa maneira que os sentidos podem ajudar a atingir a verdade.
  • Citação do fragmento 107: São más testemunhas os olhos e os ouvidos quando têm almas bárbaras.
  • O homem que confia no sensível não tem em si a razão; é preciso imitar as crianças da anedota, segui-las como o bêbado que um garoto leva para casa.
  • Citação do fragmento 117: O homem bêbado se deixa conduzir por uma criança; ele cambaleia e não sabe onde anda, pois sua alma está úmida.
  • Onde a terra é seca, a alma é também a mais sábia e a melhor, estando então mais próxima do raio que governa o universo.

A criança como exemplo de identificação com o movimento

A criança, instintiva e espontaneamente, obedece às leis do ser, identificando-se ao movimento criador, como por jogo.

  • Não há conhecimento verdadeiro senão aquele que, como a criança, se identifica ao movimento, enquanto lei, enquanto logos, enquanto o próprio ser.
  • É um conhecimento que deve primeiro negar o testemunho mentiroso dos sentidos, que fixam e imobilizam os opostos.
  • Cria-se assim uma nova lógica, fundada sobre a negação e calcada sobre o próprio ser.
  • Citação do fragmento 76: O fogo vive a morte da terra e o ar vive a morte do fogo, a água vive a morte do ar, a terra a da água.
  • Do mesmo modo, o animado só é conhecido pelo inanimado, o úmido pelo seco.
  • Citação do fragmento 23: Não se saberia nem mesmo o nome da justiça se não houvesse injustiças.

A lógica da contradição

Essa teoria do conhecimento engendra uma nova lógica que é propriamente uma lógica da contradição, que admite que, para possuir a verdade sobre um ser, não se deve hesitar em pronunciar a seu respeito juízos contraditórios.

  • Os exemplos abundam nos fragmentos, como aquele que explica as relações com os deuses: Imortais, mortais; mortais, imortais; nossa vida é sua morte, e nossa morte sua vida.
  • Questiona-se se essa lógica recusa o princípio de não-contradição, como alguns supostos por Aristóteles.
  • Citação do fragmento 57: Mestre foi Hesíodo para a maioria dos homens; estão persuadidos de que ele sabia quase tudo, ele que não conhecia nem o dia nem a noite, e é tudo um.
  • De que serve alinhar os conhecimentos positivos? O ser permanece o que é, mas é preciso exprimi-lo como ele é, e ele é movimento: imortais, mortais, mortais, imortais.
  • Dizer que o homem é mortal não faz absolutamente conhecer o princípio interior, tal como o conflito, pai de todas as coisas, poderia ter revelado neste mortal um deus e não um homem.
  • Fixar assim os juízos é abandonar-se ao conhecimento sensível, quando o que é preciso aprender dele é a negá-lo.
  • É preciso aprender dele que se banha e não se banha no mesmo rio, que se é e não se é, pois se é movimento, se surge como fenômenos do movimento, e querer se cortar desse movimento que faz ser, para conhecer por meio de uma vã abstração fixista, é fixar um fenômeno fora do ser, aniquilá-lo.
  • Não se trata certamente da dialética hegeliana, apesar do parentesco real que existe no dinamismo da negação, mas de uma dialética simplesmente fundada sobre essa intuição primordial de que o ser é um movimento-substância.

O sol como imagem do fogo

O devir não é concebido por Heráclito num plano primeiramente biológico; ele transpõe para o cosmos o dinamismo que os biólogos viam nos seres vivos, e o fogo que governa o mundo é seu piloto, fazendo traçar o círculo do qual não pode mais se afastar do que o sol em sua corrida.

  • Citação do fragmento 94: O sol não ultrapassará suas medidas, senão as Erínias, auxiliares da justiça, saberão bem descobri-lo.
  • O sol, flambeau dotado de inteligência, nascido do mar, é ele mesmo a imagem e a realização mais pura desse papel do fogo.
  • Citação do fragmento 100: O sol que preside às revoluções periódicas e as vigia, delimita, distribui, suscita e manifesta as metamorfoses e as estações que trazem tudo.
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