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Leibniz

VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979

Um verdadeiro leitor de Platão no século XVIII: Leibniz

1. Nem o método histórico de Brucker nem a reflexão filosófica de Kant parecem ter apreendido a letra e menos ainda o espírito da filosofia platônica, ao passo que Leibniz, muito antes deles, já se referia a este ou aquele diálogo com admirável precisão, distinguindo o próprio Platão da corrupção introduzida por Plotino e Marsílio Ficino.

  • o texto sem título destinado à história literária do Plus Ultra afirma que só a partir dos próprios escritos de Platão se pode conhecê-lo com segurança
  • Leibniz observa que os platônicos posteriores dissimularam o que havia de excelente e sólido em Platão sobre as virtudes, a justiça e a ciência das verdades eternas, apropriando-se ao contrário do que era ambíguo ou hiperbólico em sua expressão poética

2. A carta a Hansch, que serve de introdução à obra deste sobre o entusiasmo platônico, já era conhecida por Brucker, que poderia ali ter encontrado indicações positivas sobre a reminiscência platônica, assim como a difusão tardia dos textos leibnizianos, sobretudo a partir de 1765 e 1768, coincide precisamente com o período em que Kant começa a referir-se a Platão, sem contudo aproveitar esse material.

3. O conhecimento que Leibniz possuía de Platão parece ter sido preciso e completo, distinguindo-se nisso de seus contemporâneos, tendo lido e apreciado Platão desde a juventude, como atesta sua autobiografia intelectual dirigida a Rémond de Montmort, na qual reconhece em Platão e nos antigos acadêmicos uma antecipação de sua própria doutrina das mônadas.

4. A carta a Hansch resume com clareza os pontos de acordo entre Leibniz e Platão quanto à causa única de todas as coisas sem que Deus seja autor do mal, à anterioridade da alma em relação ao corpo, e à existência de um mundo inteligível no espírito divino, que Leibniz também costuma chamar de país das ideias, identificando as ideias platônicas às mônadas.

5. Sensível ao aspecto místico do pensamento platônico, como o serão mais tarde os românticos, Leibniz situa historicamente esse tema no devenir que vai da metempsicose indiana e dos magos egípcios até Valentin Weigel e o Peregrino Querubínico de Angelus Silesius, distinguindo esses autores especulativos dos quietistas, que teriam falsificado a noção platônica de entusiasmo ao negar toda atividade da alma no amor a Deus.

6. O que sobretudo interessa a Leibniz na obra dos diálogos é a reminiscência, compreendida não como mito do destino individual mas como teoria do conhecimento, interpretada à luz de sua tese das ideias inatas, segundo a qual a alma contém originariamente os princípios de suas noções, que os objetos externos apenas despertam, aproximação que o Padre Festugière já havia estabelecido entre o despertar platônico e o despertar leibniziano.

7. Assim como a filosofia platônica, a filosofia de Leibniz permaneceu insuficientemente conhecida na segunda metade do século XVIII, sendo somente com Maimon e Fichte, ao final do século, que se lhe fará justiça, momento em que o conhecimento de Platão também ressurgirá como uma verdadeira ressurreição, enquanto Brucker permanecia no sono dogmático legado por Wolff e Kant projetava seu próprio despertar crítico sobre diálogos que conhecia sem ter lido.

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